Quando o autor deste texto (pode chamar de “eu”) começou a escrever este texto sobre a final do Campeonato Paulista, tinha algo em mente: caso o Corinthians conquistasse o bicampeonato estadual, ressaltaria como é impressionante a segurança que o time do Parque São Jorge ostenta em momentos decisivos, desde o histórico 2012. Segurança que o manteve dentro de seu ideário tático. Que o manteve imperturbável, num ambiente completamente adverso. E que rendeu a ele mais um troféu. Só que será impossível lembrar do Derby que decidiu o Paulista 2018 sem citar aquele pênalti que poderia ter encaminhado o título do Palmeiras. E que virará tema de discussões terrivelmente chatas.

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O Palmeiras começava como favorito. Por vários motivos: a superioridade técnica, a torcida que sempre canta e vibra em jogos decisivos no Allianz Parque, a vantagem obtida no jogo de ida. Todavia, aos dois minutos do primeiro tempo, Matheus Vital superou a marcação de Antônio Carlos, cruzou da esquerda, e Rodriguinho dominou antes do chute. Um desvio em Victor Luís tirou as chances de defesa para Jaílson. E o Corinthians derrubava todo esse cenário descrito no início deste parágrafo.

Outro cruzamento de Matheus Vital, para fora, aos cinco minutos, deixava clara qual era a principal fragilidade palmeirense, com o mau início de Antônio Carlos na direita. Só que foi a última vez em que isso apareceu. A partir de então, pelo resto da partida, o que se viu foi o time palestrino tentando vencer a já conhecida dedicação corintiana na defesa, à espera do contra-ataque perfeito. Quase começou bem, aos sete minutos, com William balançando as redes – se não fosse a anulação do gol, por impedimento.

A partir de então, o que se viu foi uma sucessão das únicas alternativas que o Palmeiras teve para superar o adversário. Primeiro, com os cruzamentos. Começou aos 10, quando Dudu cruzou da direita, mas a bola foi direto para as mãos de Cássio. Aos 26, novo cruzamento de Dudu – e nova defesa de Cássio. O cruzamento aos 32 foi mais perigoso: afinal, desviou em Henrique. Mas o goleiro do Corinthians estava atento e defendeu. A outra alternativa? Chutes de fora da área. Com William, aos 12 minutos. Aos 16, com Lucas Lima. E aos 34, a tentativa de Marcos Rocha foi mais efetiva: o arqueiro da camisa 12 teve de espalmar para fora.

Na etapa complementar, o Corinthians até ousou arriscar no primeiro minuto, em cabeceio de Ángel Romero para fora. De resto, seguiu o “ataque contra defesa”, com o Palmeiras pressionando – e tendo a seu favor a entrada de Keno, para acelerar as jogadas pela direita. Aos oito, o atacante dominou, driblou dois, e chutou – Cássio até pegou, mas empurrando a bola para fora. Voltavam os arremates de fora – como com Bruno Henrique, aos 12, por cima do gol. E voltavam os cruzamentos – como aos 24 minutos, quando Dudu cruzou da esquerda, a bola desviou em Sidcley, e Cássio preferiu o chute para longe da área. A equipe alviverde era bem mais ofensiva, mas não fazia Cássio trabalhar; e o Corinthians, por incompetência ou deficiência (mostrada até pela saída de Jadson), não conseguia sequer achar a abertura para o contragolpe – que dirá efetuá-lo. Era um cenário tenso, daqueles em que qualquer coisa poderia acontecer. Como se gosta e se quer, em toda decisão.

Até aquele lance, aos 26 minutos do segundo tempo. Quando Ralf perseguiu Dudu dentro da área, na esquerda, quase chegando à linha de fundo. Muitos dirão que Ralf tocou por baixo, no pé de Dudu. Outros (a maioria, até) dirão que nada aconteceu. Mas o juiz Marcelo Aparecido Ribeiro de Souza acreditou na primeira visão. E marcou o pênalti. Teria de aguentar a reclamação dos jogadores corintianos, mas era o preço a se pagar. Ao ouvir os auxiliares, Marcelo Aparecido não quis pagá-lo. Voltou atrás, em mais um lance que levou a suspeitas do uso do “VAR implícito”. E a demora para a retomada do jogo, com as reclamações ainda mais acerbas dos palmeirenses e os gritos de “vergonha” da torcida no Allianz Parque, só deixou claro como a adoção do VAR explícito, às claras, é  urgente.

Claro, a emoção seguiu. Nos acréscimos, tanto Sidcley poderia ter definido o título para o Corinthians, com seu chute aos 52, quanto o desvio de Thiago Santos, de cabeça, poderia ter acertado no alvo para o empate e a consagração do Palmeiras, aos 55. Vieram os chutes da marca do pênalti. Dudu e Lucas Lima – ambos sobressalentes no jogo – erraram suas cobranças. O Corinthians ainda se assustou com a perda de Fagner. Mas Maycon ainda converteu o chute que faltava. E veio o primeiro bicampeonato paulista alvinegro em 35 anos. Que poderia ser o destaque.

Assim como outros fatores a se destacar: o invejável espírito vencedor corintiano nas últimas decisões de que o clube participou, a dedicação tática mostrando resultados, a superação de defeitos ainda gritantes na equipe que Fábio Carille tem à disposição (como a falta de um atacante confiável). Também mereceria destaque o consolo ao Palmeiras, que ainda mostra defeitos, mas os contrabalança com um time muito mais forte, coeso e capaz de alcançar seus objetivos do que em 2017. Além do mais, o jogo contra o Boca Juniors, pela Copa Libertadores da América, na próxima quarta, merece mais atenção.

Mas novamente, a discussão será aquele pênalti (não) dado aos 26 minutos do segundo tempo.