Após meses de negociações e incontáveis rumores, o Corinthians enfim acertou a saída de Alexandre Pato. O atacante defenderá o Chelsea por seis meses, em um empréstimo com opção de compra ao final do vínculo inicial. O desfecho não é o ideal para o clube paulista, mas o negócio já é considerado positivo pelo menos pela economia de R$ 4,8 milhões dos salários do jogador neste período, que serão todos bancados pelos Blues. Com o desempenho que o jogador teve pelo São Paulo em 2015, no entanto, era possível obter um acordo mais vantajoso, se o próprio Corinthians não tivesse se sabotado com a desvalorização do atacante.

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O descontentamento com Pato vem de muito tempo atrás. Desde o fim de 2013 ficou claro que o jogador não tinha mais clima para permanecer no Corinthians, e o clube acabou o emprestando para o rival São Paulo no início de 2014. Essa própria transação já desvaloriza o atleta, já que o fracasso em se firmar no Alvinegro foi evidente, mas a expectativa era de que, com novos ares, Pato pudesse se valorizar novamente. E ele fez isso com seu futebol, sobretudo no ano passado, e a venda para um clube europeu poderia ter acontecido mais facilmente se o Corinthians tivesse adotado uma estratégia mais inteligente.

Desde a última janela de transferências do mercado europeu, que começa entre junho e julho nas principais ligas, o Alvinegro tornou público o seu desespero em negociar Pato. Isso ficava implícito nas viagens de agentes para a Europa em busca de interessados e um pouco mais claro nas declarações ainda um tanto cautelosas de Roberto de Andrade sobre a vontade de vendê-lo para recuperar o investimento feito no início de 2013. Mas foi nas palavras do ex-presidente Andrés Sanchez que a maneira como a diretoria tratou a negociação chegou a seu ponto mais amador.

Mesmo quando ainda não havia voltado a ocupar uma posição oficial no clube, Sanchez seguia como um dos principais porta-vozes do Corinthians, e suas declarações eram tão absurdamente estúpidas para quem tenta negociar um jogador que fica até confuso pensar de que lado Andrés estava jogando. Em julho, por exemplo, o dirigente chegou a ironizar Pato, indicando que preferiria vê-lo jogando no Bragantino do que de volta ao clube. “Queremos € 10 milhões (R$ 36,8 milhões). Se não der para vender e o Pato voltar, a gente empresta para o Bragantino”, afirmou à época, em tom jocoso.

Um mês antes, o presidente do clube, Roberto de Andrade, que normalmente deu declarações mais positivas do que negativas sobre o jogador, também escorregou de maneira amadora, reconhecendo que o clube “rezava” para vender o atacante.  “Todo mundo sabe que o Corinthians pretende, quer e reza dia e noite para vender o Pato. Não vou negar. A solução para isso é a venda dele nessa janela de transferências”, disse o mandatário, em uma entrevista ao vivo à ESPN Brasil. Não vendeu. Pato continuou no São Paulo até o fim de 2015. Se reapresentou ao Corinthians, mas sempre deixou claro que a intenção era mesmo vender.

No início deste mês, Andrés decidiu afastar-se das decisões do clube para poder dar início a uma articulação, visando à presidência da CBF. Mesmo assim, segue sendo a pessoa ligada ao Corinthians cujas declarações são mais frequentes e mais reverberam na imprensa. Quando a equipe recebeu proposta do Tianjin Quanjian, time da segundona chinesa treinado por Luxemburgo, por Pato, que, ainda com ambições esportivas em mente, a recusou, Sanchez foi, novamente, mais passional do que qualquer outra coisa. Ficou aparentemente revoltado com a decisão pessoal do jogador e previu um hipotético retorno conturbado. “Ah, mas ele vai sofrer. Não sei se a torcida não engole Pato, Ganso… O que eu sei é que o cara não pode fazer isso. (…) Estamos de mãos atadas. Queremos vender. Se ele não quiser ser vendido, não vai ser. Se eu quiser vender por R$ 1, mas ele não acertar com o clube, não pode ser vendido.”

Com contrato com o Corinthians apenas até o fim de 2016, caso Pato não acerte uma renovação com o clube qualquer equipe poderá assinar um pré-acordo com o atacante no meio do ano, o que impossibilita qualquer retorno financeiro do investimento pesado feito pelo Alvinegro. É por isso que o próprio diretor adjunto do clube, Eduardo Ferreira, reconheceu a tentativa de prorrogar o vínculo para que ainda haja essa possibilidade. Pouco depois, no entanto, Andrés Sanchez apareceu mais uma vez, desta vez desmentindo Ferreira e descartando uma renovação.

“O Corinthians não é banco, o Corinthians tem de ganhar campeonato. Vieram duas propostas bilionárias da China, o Pato não quis ir. Aí apareceu o Chelsea, eles disseram que, por tudo que falaram dele, o histórico não é bom para comprar. Se ele for bem até julho, pagam € 12 milhões. Se prorrogar o contrato e o Chelsea não comprar, quem vai comprar depois? E nós babacas vamos pagar salário de novo. A cagada já está feita, agora é a hora de recuperar. Se não recuperar agora, um abraço”, esbravejou, em declaração publicada pelo Globo Esporte.

Enquanto isso, uma negociação paralela contrasta tanto com a postura do Corinthians que o amadorismo do Alvinegro ao tentar recuperar o investimento feito em Pato chega a berrar. Diante do interesse do Liverpool em Alex Teixeira, o técnico do Shakhtar Donetsk, Mircea Lucescu, afirmou que o meia vale € 50 milhões e o comparou a uma estrela mundial. “Ele é incrível, muito rápido, tem uma técnica muito boa. Eu o comparo com outros jogadores da mesma idade que mudaram um clube, Di María, por exemplo, no Paris Saint-Germain. O Teixeira pode chegar ao mesmo nível, até melhor. Ele não se machuca, e a cada ano ele melhora”, comentou o treinador, em entrevista à FourFourTwo.

Evidentemente, Alex Teixeira criou para si um mercado muito maior através do que fez em campo nos últimos anos, e Pato deixou a desejar neste quesito, apesar do desempenho bom em 2015. Ainda assim, sobretudo por ter recuperado fisicamente o jogador, o Corinthians poderia ter feito uma campanha melhor para valorizar o atleta que, desde a contratação, pretendeu vender de volta à Europa. Uma das justificativas para o alto investimento quando Pato retornou ao Brasil era justamente a certeza dos dirigentes de que Pato, ainda jovem, poderia se tornar ídolo do clube e se tornar um jogador importante tecnicamente por muitos anos ou renderia lucro com uma futura venda.

Apesar da estratégia estar claramente definida, o Corinthians depreciou seu próprio bem tantas vezes seguidas até chegar ao ponto em que um empréstimo por seis meses, correndo o risco de definitivamente perder o investimento, fosse a única alternativa restante para pelo menos gastar menos com o jogador. Se à época do empréstimo para o São Paulo a contratação de Pato já parecia ser uma aposta furada do clube, essa impressão foi apenas reforçada pelo próprio Alvinegro nos últimos dois anos. Pela maneira como as coisas têm sido feitas em torno do atleta, não descarte a possibilidade de novos episódios que apenas piorem o status desse negócio.