‘Corinthians (2) vs Palestra (1)’: O conto que traduz a identidade, a história e a paixão do Dérbi

Texto do modernista Alcântara Machado, de 1927, retrata perfeitamente os costumes de uma São Paulo popular e também a paixão atemporal em torno do clássico

A história centenária do clássico entre Corinthians e Palmeiras se traduz de diversas maneiras. São inúmeros episódios marcantes, inúmeros jogos inesquecíveis, inúmeros jogadores venerados. Para se entender perfeitamente o espírito do Dérbi, no entanto, apenas vivendo um. Apenas sabendo o gosto que é derrotar a outra camisa e festejar uma vitória que exalta, acima de tudo, a própria paixão. Se os dois clubes se tornaram tão grandes, a rivalidade tem um papel fundamental neste impulso. Rivais que, apesar de tudo, também são irmãos. Que se forjaram a partir das camadas populares e compartilham identidades muito próximas, ainda que moldadas à sua maneira conforme o tempo. Corintianos e palmeirenses vivem a cada minuto a dor e a delícia de serem o que são, extremamente passionais. E, assim, entendem perfeitamente o que significa o clássico para o outro lado. O que torna o triunfo tão mais almejado, tão mais saboroso. Como em qualquer Palmeiras e Corinthians.

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Tal identidade está no seio de ambos os clubes. Em suas origens. Durante os primórdios, em um esporte que se espalhava pela cidade além das camadas mais abastadas da população, corintianos e palestrinos deram as mãos. Eram, afinal, a mesma gente operária e de enorme contingente imigrante que transformavam uma São Paulo em pleno crescimento. Não se explica a expansão da metrópole sem se debruçar também sobre o cotidiano e os anseios daqueles que compunham as duas torcidas. As massas alvinegra e alviverde se alastraram rapidamente pelos diferentes bairros. E o sucesso praticamente instantâneo de Corinthians e Palestra Italia nos gramados a partir dos anos 1910, se intensificando cada vez mais nas décadas seguintes, contribuiu para esta popularização. Que fossem rivais em campo, se uniam além das quatro linhas.

Um grande símbolo deste peso do Dérbi no processo de expansão do futebol em São Paulo acontece em 1927, quando o clássico completa uma década de existência. Neste momento, ele não ocupava apenas as conversas nas ruas ou as páginas dos jornais. Ele também se eternizou como literatura. Antônio Alcântara Machado compreendeu como poucos o movimento em pleno vapor que a cidade vivia na primeira metade do Século XX. O escritor modernista retratou os costumes de uma São Paulo popular no livro “Brás, Bexiga e Barra Funda”, especialmente a realidade da colônia italiana. E, como havia de ser, o futebol é assunto comum entre os contos.

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O Palestra Italia era uma referência óbvia. Diante da quantidade de italianos na cidade, até os anos 1930 estimava-se que a maior torcida fosse composta pelos palestrinos. De qualquer maneira, embora não assumisse diretamente a bandeira dos colonos, o Corinthians era também italiano em sua fundação e tinham raízes firmes entre os imigrantes proletários. Juntos, os clubes davam a tinta para o conto de Alcântara Machado, ele mesmo personagem de um dérbi anos antes. Como advogado e político, o corintiano viabilizou a cessão de um terreno junto à prefeitura para a construção do Campo da Ponte Grande, o primeiro estádio particular dos alvinegros. Coube ao próprio escritor dar o pontapé inicial na nova casa. Justamente em um Corinthians x Palestra. Difícil encontrar alguém com mais propriedade para inaugurar a literatura voltada à rivalidade.

Assim, ‘Corinthians (2) vs Palestra (1)’ tornou-se um clássico sobre o próprio clássico. E pouco importa o que diz o placar do título, quando o tesouro do texto está guardado em suas linhas. A maneira como o conto escancarava já a mobilização de toda uma gente ao redor do Dérbi. A sonoridade intensa das palavras escolhidas a dedo, que exprimem bastante as emoções envolvidas. É uma obra-prima, que serve de elo entre a popularização do futebol e tantas outras áreas do conhecimento. Uma porta de entrada do fenômeno das massas em círculos nos quais nem sempre foi aceito.

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Além de tudo, o conto de Alcântara Machado antevê o futuro. Ou melhor, antecipa a transformação oral do que se vê com os olhos em um campo de futebol e que expressa a febre de bola. Como melhor explicou o saudoso Nicolau Sevcenko, um dos maiores historiadores brasileiros, em artigo na Revista USP: “O texto é um primor de concisão, ritmo e vibração. Ao mesmo tempo é fundamentalmente visual. É quase só imagem, movimento e ruído. Verbos, interjeições e onomatopeia. Só há um modo de ler esse texto: em voz alta, de um fôlego só, com o frenesi apaixonado de um locutor de futebol. Mas note-se: essa profissão ainda não existia – o que torna o fluxo arrebatado de Alcântara Machado numa espécie de discurso premonitório ou elocução congenial à essência energética e passional do esporte. O escritor intuiu e deu forma literária ao âmago mesmo do fenômeno”.

Tamanha riqueza em palavras deve ser preservada além de seus 90 anos. O texto de Alcântara Machado é atemporal. Uma coleção de sensações que corintianos e palmeirenses continuam captando a cada leitura. E que ainda sentem, em cada novo dérbi.

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Corinthians (2) vs Palestra (1)

Prrrrii!

— Aí, Heitor!

A bola foi parar na extrema esquerda. Melle desembestou com ela.

A arquibancada pôs-se em pé. Conteve a respiração. Suspirou:

— Aaaah!

Miquelina cravava as unhas no braço gordo da Iolanda. Em torno do trapézio verde a ânsia de vinte mil pessoas. De olhos ávidos. De nervos elétricos. De preto. De branco. De azul. De vermelho.

Delírio futebolístico no Parque Antártica.

Camisas verdes e calções negros corriam, pulavam, chocavam-se, embaralhavam-se, caíam, contorcionavam-se, esfalfavam-se, brigavam. Por causa da bola de couro amarelo que não parava, que não parava um minuto, um segundo. Não parava.

— Neco! Neco!

Parecia um louco. Driblou. Escorregou. Driblou. Correu. Parou. Chutou.

— Gooool! Gooool!

Miquelina ficou abobada com o olhar parado. Arquejando. Achando aquilo um desaforo, um absurdo.

Aleguá-guá-guá! Aleguá-guá-guá! Hurra! Hurra! Corinthians!

Palhetas subiram no ar. Com os gritos. Entusiasmos rugiam. Pulavam. Dançavam. E as mãos batendo nas bocas:

— Go-o-o-o-o-o-ol!

Miquelina fechou os olhos de ódio.

— Corinthians! Corinthians!

Tapou os ouvidos.

— Já me estou deixando ficar com raiva!

A exaltação decresceu como um trovão.

— O Rocco é que está garantindo o Palestra. Aí, Rocco! Quebra eles sem dó!

A Iolanda achou graça. Deu risada.

— Você está ficando maluca, Miquelina. Puxa! Que bruta paixão!

Era mesmo. Gostava do Rocco, pronto. Deu o fora no Biagio (o jovem e esperançoso esportista Biagio Panaiocchi, diligente auxiliar da firma desta praça G. Gasparoni & Filhos e denodado meia-direita do S. C. Corinthians Paulista, campeão do Centenário) só por causa dele.

— Juiz ladrão, indecente! Larga o apito. gatuno!

Na Sociedade Beneficente e Recreativa do Bexiga toda a gente sabia de sua história com o Biagio. Só porque ele era freqüentador dos bailes dominicais da Sociedade não pôs mais os pés lá. E passou a torcer para O Palestra. E começou a namorar o Rocco.

— O Palestra não dá pro pulo!

— Fecha essa latrina, seu burro!

Miquelina ergueu-se na ponta dos pés. Ergueu os braços. Ergueu a voz:

— Centra, Matias! Centra, Matias!

Matias centrou. A assistência silenciou. Imparato emendou. A assistência berrou.

— Palestra! Palestra! Aleguá-guá! Palestra Aleguá! Aleguá!

O italianinho sem dentes com um soco furou a palheta Ramenzoni de contentamento. Miquelina nem podia falar. E o menino de ligas saiu de seu lugar. todo ofegante, todo vermelho, todo triunfante, e foi dizer para os primos corinthianos na última fileira da arquibancada:

— Conheceram, seus canjas?
O campo ficou vazio.

— Ó… lh’a gasosa!

Moças comiam amendoim torrado sentadas nas capotas dos automóveis. A sombra avançava no gramado maltratado. Mulatas de vestidos azuis ganham beliscões. E riam. Torcedores discutiam com gestos.

— Ó… lh’a gasosa!

Um aeroplano passeou sobre o campo.

Miquelina mandou pelo irmão um recado ao Rocco.

— Diga pra ele quebrar o Biagio que é o perigo do Corinthians.

Filipino mergulhou na multidão.
Palmas saudaram os jogadores de cabelos molhados.

Prrrrii!

— O Rocco disse pra você ficar sossegada.

Amilcar deu uma cabeçada. A bola foi bater em Tedesco que saiu correndo com ela. E a linha toda avançou.

— Costura, macacada

Mas o juiz marcou um impedimento.

— Vendido! Bandido! Assassino!

Turumbamba na arquibancada. O refle do sargento subiu a escada.

— Não pode! Põe pra fora! Não pode!

Turumbamba na geral. A cavalaria movimentou-se.

Miquelina teve medo. O sargento prendeu o palestrino. Miquelina protestou baixinho:

— Nem torcer a gente pode mais! Nunca vi!
— Quantos minutos ainda?

— Oito.

Biagio alcançou a bola. Aí, Biagio! Foi levando, foi levando. Assim, Biagio! Driblou um. Isso! Fugiu de outro. Isso! Avançava para a vitória. Salame nele, Biagio! Arremeteu. Chute agora! Parou. Disparou. Parou. Aí! Reparou. Hesitou. Biagio Biagio! Calculou. Agora! Preparou-se. Olha o Rocco! É agora. Aí! Olha o Rocco! Caiu.

— CA-VA-LO!

Prrrrii!

— Pênalti!
Miquelina pôs a mão no coração. Depois fechou os olhos. Depois perguntou:

— Quem é que vai bater, Iolanda?

— O Biagio mesmo.

— Desgraçado.

O medo fez silêncio.

Prrrrii!

Pan!

— Go-o-o-o-ol! Corinthians!
— Quantos minutos ainda?

Pri-pri-pri!

— Acabou, Nossa Senhora!

Acabou.
As árvores da geral derrubaram gente.

— Abr’a porteira! Rá! Fech’a porteira! Prá!

O entusiasmo invadiu o campo e levantou o Biagio nos braços.

— Solt’o rojão! Fiu! Rebent’a bomba! Pum! CORINTHIANS!

O ruído dos automóveis festejava a vitória. O campo foi-se esvaziando como um tanque. Miquelina murchou dentro de sua tristeza.

— Que é — que é? É jacaré? Não é!

Miquelina nem sentia os empurrões.

— Que é — que é? É tubarão? Não é!

Miquelina não sentia nada.

— Então que é? CORINTHIANS!

Miquelina não vivia.
Na Avenida Água Branca os bondes formando cordão esperavam campainhando o zé-pereira.

— Aqui, Miquelina.

Os três espremeram-se no banco onde já havia três. E gente no estribo. E gente na coberta. E gente nas plataformas. E gente do lado da entrevia.

A alegria dos vitoriosos demandou a cidade. Berrando, assobiando e cantando. O mulato com a mão no guindaste é quem puxava a ladainha:

— O Palestra levou na testa!

E o pessoal entoava:

— Ora pro nobis!

Ao lado de Miquelina o gordo de lenço no pescoço desabafou:

— Tudo culpa daquela besta do Rocco!

Ouviu, não é Miquelina? Você ouviu?

— Não liga pra esses trouxas, Miquelina.

Como não liga?

— O Palestra levou na testa!

Cretinos.

— Ora pro nobis!

Só a tiro.
— Diga uma cousa, Iolanda. Você vai hoje na Sociedade?

— Vou com o meu irmão.

— Então passa por casa que eu também vou.

— Não!

— Que bruta admiração! Por que não?

— E o Biagio?

— Não é de sua conta.

Os pingentes mexiam com as moças de braço dado nas calçadas.