O prêmio de melhor jogador da Copa do Mundo era decidido antes da final do torneio, mas, em 2010, a Fifa mudou a dinâmica depois de experimentar uma sequência de, digamos, situações embaraçosas. Ronaldo ganhou na França, apesar de uma atuação muito apagada na partida mais importante. Zidane levou na Alemanha, mesmo tendo encerrado sua participação – e sua carreira – com uma cabeçada no peito de Materazzi. E na Coreia do Sul e no Japão, quinze anos atrás, Oliver Kahn foi eleito pouco antes de falhar em um dos gols que deu ao Brasil o pentacampeonato.

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Não que tenha sido um absurdo. Kahn foi realmente excepcional durante o torneio, salvando a Alemanha diversas vezes durante o mata-mata, mas um erro tão claro, em um momento tão importante, maculou a sua Copa. Ainda mais em contraste com Ronaldo e Rivaldo, decisivos do começo ao fim, e, claro, campeões. “Foi meu único erro e foi dez vezes pior do que qualquer erro que eu já cometi. Não há nenhuma maneira de fazer com que eu me sinta melhor ou esquecer este erro”, disse o goleirão, pouco depois da derrota por 2 a 0.

A equipe treinada por Rudi Völler estava longe de ser brilhante, mas a combinação de atuações seguras, com defesas espetaculares de Kahn e uma chave favorável – Paraguai, EUA e Coreia do Sul, a partir das oitavas – carimbou o passaporte da então tricampeã mundial para a final de Yokohama. E era esse o duelo esperado antes de a bola rolar, ainda mais com a ausência do suspenso Michael Ballack, o principal jogador de linha da Alemanha naquela Copa do Mundo: Kahn contra o trio de craques do ataque brasileiro. Com destaque para o artilheiro Ronaldo.

Ronaldo encarou Kahn duas vezes antes dos 30 minutos. Recebeu uma bela bola de Ronaldinho Gaúcho e tentou tocar na saída do goleiro, mas tirou demais e mandou para fora. Em outro passe de Gaúcho, ficaria novamente cara a cara se não tivesse errado o domínio e facilitado a defesa de Kahn. Kleberson aproveitou uma brecha entre os três zagueiros alemães para desferir um chute cruzado que levou perigo. Antes do intervalo, o meia ainda acertou o travessão. Nos acréscimos, a melhor oportunidade para o camisa 9 brasileiro: recolheu a finalização de Roberto Carlos, girou o corpo e bateu à queima-roupa. Kahn defendeu com os pés.

A Alemanha voltou dos vestiários preparada para reagir. Edmilson salvou uma cabeçada de Jens Jeremis que tinha endereço certo. Marcos esticou-se para espalmar uma cobrança de Neuville à trave. E, aos 21 minutos, a primeira e mais fatal falha de Oliver Kahn. Ronaldo desarmou na intermediária e deixou com Rivaldo, que soltou a bomba de fora da área. Kahn tentou encaixar, mas deu rebote. Ronaldo disparou em direção à pequena área e empurrou para as redes. Um toque simples, um toque para a história.

O título foi selado dez minutos depois. Kleberson avançou pela direita e tocou para Rivaldo, que teve a genialidade de abrir as pernas e permitir que a bola alcançasse Ronaldo. O artilheiro brasileiro dominou, na entrada da área, e com mais um toque emendou para o canto de Kahn, que desta vez nada mais poderia fazer. A Alemanha não desistiu e quase descontou com Frings batendo à queima-roupa, de dentro da área. Mas Marcos realizou outra grande defesa.

Quatro anos depois de ser um fantasma na final da Copa do Mundo contra a França, Ronaldo ocupou um papel mais apropriado no Japão. Foi o craque, o decisivo, o matador. Venceu o duelo com Oliver Kahn, com sobras, e terminou o torneio como artilheiro. Depois de tantas dúvidas sobre o seu estado físico, mostrou que Felipão estava certo em depositar tanta confiança nele. E o Brasil, também desacreditado, conquistou o seu quinto título mundial.