Coreia e Japão, 15 anos: Inglaterra vence a Argentina no dia da redenção de Beckham

Quatro anos depois de ser expulso contra a Argentina, o astro inglês marcou o gol da vitória inglesa por 1 a 0

Beckham passou quatro anos no inferno da opinião pública. O garoto de ouro, fonte de esperança para o futebol inglês, virou vilão, quando foi expulso, no começo do segundo tempo, das oitavas de final da Copa do Mundo de 1998. Apesar de ter virado capitão da seleção nesse período, precisou enfrentar o descontentamento dos torcedores, que chegou ao nível de ameaças de morte, e as críticas da imprensa até alcançar a sua redenção, exatamente 15 anos atrás, marcando o gol que deu à Inglaterra a vitória por 1 a 0 sobre a Argentina, na segunda rodada da fase de grupos do Mundial da Coreia do Sul e do Japão.

Na França, as oitavas de final eram uma chance de vingança para a Inglaterra, doze anos depois daquela derrota para os argentinos, no México. Havia a expectativa de uma boa Copa, depois da campanha na Euro que o país sediou, em 1996. Havia Michael Owen, Alan Shearer, Paul Scholes e David Beckham. Mas o começo foi claudicante. Com Beckham na reserva, os ingleses venceram a Tunísia e perderam da Romênia. O técnico Glen Hoddle foi convencido a colocar o meia do Manchester United no time titular, e Beckham respondeu com um gol de falta contra a Colômbia, na vitória por 2 a 0 que colocou a Inglaterra no mata-mata.

O primeiro tempo foi dos mais movimentados: Batistuta abriu o placar, Shearer empatou, Owen virou e Zanetti igualou o marcador, antes do intervalo. Assim que as equipes voltaram para o segundo tempo, Diego Simeone fez uma falta por trás em David Beckham, que revidou com um chute no capitão argentino.  O árbitro dinamarquês Kim Milton Nielsen deu amarelo para o atual técnico do Atlético de Madrid e vermelho direto para o inglês. O placar seguiu 2 a 2 até a disputa de pênaltis. Crespo desperdiçou sua cobrança, mas Paul Ince e David Batty, também, e a Inglaterra foi mais uma vez eliminada nos pênaltis, como na Copa do Mundo de 1990 e na Euro de dois anos antes.

Ninguém precisou ir muito longe para achar um culpado. Se, com um a menos, a Inglaterra conseguiu segurar o 2 a 2 durante toda a segunda etapa e a prorrogação, teria, com igualdade numérica, uma provável chance de vencer com a bola rolando. Além disso, Beckham, notoriamente excepcional na bola parada, certamente seria um dos batedores na disputa de pênaltis, provavelmente no lugar de um dos que erraram. Paul Ince, por exemplo, estava em campo na semifinal da Euro, mas não executou nenhum dos seis chutes ingleses a partir da marca do cal na derrota para a Alemanha. Batty também não era um cobrador habitual.

“Eu tenho pesadelos sobre a Copa de 1998. Foi humilhante. Estará sempre comigo”, afirmou Beckham, em declarações posteriores. E não ajudou tanto assim que Simeone tenha admitido, às vésperas do reencontro de 2002, que valorizou a entrada de Beckham para tentar cavar a sua expulsão. “Eu havia feito falta nele e nós dois caímos no chão. Enquanto eu estava tentando me levantar, ele me chutou por trás. E eu aproveitei isso. E acho que qualquer pessoa teria aproveitado isso da mesma maneira”, disse. “Às vezes, você é expulso, às vezes, não. Infelizmente para a seleção inglesa, naquele momento, eles perderam um jogador. De qualquer maneira, você tenta aproveitar todas as oportunidades que você encontra na vida”.

Os jornais exaltaram o espírito de luta da seleção inglesa, após a eliminação, mas não perdoaram Beckham. O Mirror manchetou: “Dez leões históricos, um garoto estúpido”. O The Sun classificou o revide do inglês como “um momento de loucura”, quase parafraseando a descrição do Daily Mail, que acrescentou que as chances de vitória dos homens de Glen Hoddle foram sacrificadas por um “petulante ato de retaliação”. Bonecos de Beckham foram enforcados no lado de fora de pubs ingleses, e o jogador, mesmo depois da redenção asiática, foi eleito o 91º pior britânico de todos os tempos em votação da emissora Channel 4 – uma brincadeira, claro, Alex Ferguson foi o sexto colocado, mas um indício de que sua popularidade não era das melhores.

Boneco de Beckham sendo enforcado no lado de fora de um pub, em Londres
Boneco de Beckham sendo enforcado no lado de fora de um pub, em Londres

Nas temporadas seguintes pelo Manchester United, as vaias e ofensas eram comuns sempre que Beckham atuava fora de casa e chegaram ao auge na derrota por 3 a 2 da Inglaterra para Portugal, na Eurocopa de 2000. Apesar de ele ter participado da jogada dos dois gols, recebeu insultos cabeludos de parte da torcida inglesa que estava no Philips Stadion, de Eindhoven. Beckham respondeu mostrando o dedo do meio. “Se vocês estivessem no túnel e tivessem ouvido o que eu ouvi…1eu não conseguia acreditar, eu fiquei envergonhado”, afirmou o técnico da seleção inglesa na época, o ex-atacante Kevin Keegan.

Beckham mostra o dedo para torcedores ingleses que o insultaram, em 2000 (Foto: Getty Images)
Beckham mostra o dedo para torcedores ingleses que o insultaram, em 2000 (Foto: Getty Images)

A controvérsia não impediu o interino Peter Taylor, sucessor de Keegan, de nomear Beckham capitão da seleção inglesa, no final de 2000. O sueco Sven-Goran Eriksson manteve-o no posto para a campanha eliminatória rumo ao Japão e à Coreia do Sul, e o jogador retribuiu a confiança com o gol da classificação. Inglaterra e Alemanha chegaram à última rodada empatadas em pontos, com vantagem inglesa nos critérios de desempate. Resultados iguais bastavam para os homens de Eriksson garantirem classificação direta para a Copa. Os alemães empataram por 0 a 0 com a Finlândia, mas a seleção inglesa perdia por 2 a 1 para a Grécia, em Old Trafford, até os 48 minutos do segundo tempo. Beckham, o dono da casa, com a braçadeira de capitão no braço, fez um golaço de falta, empatou o jogo e colocou a Inglaterra no Mundial.

Depois de passar por tudo isso, imagina o que passou pela sua cabeça quando ele descobriu que enfrentaria a Argentina logo na fase de grupos da Copa do Mundo de 2002? A Inglaterra caiu no grupo da morte, ao lado também da Nigéria, campeã olímpica de 1996, e da Suécia. O confronto direto seria vital, ainda mais depois que os ingleses estrearam empatando com os suecos, enquanto os argentinos bateram os nigerianos, por 1 a 0. A Argentina, treinada por Marcelo Bielsa, era uma das favoritas do torneio. Havia craques para qualquer lugar que se olhasse: Sorín, Zanetti, Batistuta, Ortega, Verón, Aimar, Crespo e até um veterano Claudio Caniggia.

E a Inglaterra deu um show de bola, mesmo com alguns desfalques. Joe Cole havia se machucado durante os treinamentos e, aos 19 minutos do primeiro tempo, Owen Hargreaves teve que ser substituído, um dos primeiros indícios da carreira tragicamente cheia de problemas físicos para o meio-campista. Seu quase xará Michael Owen ficou a centímetros de abrir o placar, aos 23. Heskey roubou a bola no círculo central e deixou com Butt, que emendou um lançamento para o atacante do Liverpool. Owen dançou na frente de Samuel e bateu cruzado, no pé da trave.

O lance crucial da partida saiu no final do primeiro tempo. Owen recebeu no bico canhoto da grande área e deu o drible para cima do defensor argentino, buscando o pé direito para finalizar. Encontrou a perna estendida de um tal de Mauricio Pochettino e foi derrubado. O árbitro Pierluigi Colina marcou um pênalti que o atual técnico do Tottenham não consegue esquecer, por mais que tente. “Ele absolutamente odeia isso. Alguém mencionou recentemente e ele não achou nada engraçado”, contou o atacante dos Spurs, Harry Kane, em entrevista à Sport Magazine, em janeiro do ano passado.

Claro que Beckham, capitão e especialista neste tipo de lance, não fez mais nada do que a obrigação ao assumir a responsabilidade de cobrar o pênalti contra Pablo Cavallero, mas seria compreensível se inventasse alguma desculpinha. Poderia alegar falta de confiança, dizer que a lua estava em Vênus, e ele só bate pênalti quando ela está em Marte, ou mesmo usar a dor da lesão no metatarso que sofreu em abril daquele ano e o deixou como dúvida para a Copa do Mundo. Porque, se errasse, e a Inglaterra eventualmente fosse eliminada, depois de tudo que passou nos quatro anos anteriores, Beckham seria apresentado aos terrores do segundo círculo do inferno da opinião pública.

Mas Beckham teve coragem. Colocou as mãos na cintura e deu uma olhadinha para o lado, a última antes de voltar toda sua atenção para a bola. Respirou devagar seis vezes para recuperar o fôlego antes de inspirar fundo, sempre com os olhos na bola. Expirou assim que Colina apitou e partiu para o pênalti que poderia definir boa parte da sua carreira. Correu com passos curtos e deve ter usado a técnica da visualização porque bateu na bola com raiva. Com toda a raiva que passou desde a expulsão na França. Soltou o pé no meio do gol com tamanha força que Cavallero, mesmo sem ter caído para nenhum dos lados, não conseguiu reagir. E Beckham explodiu. Explodiu de alívio. Correu para a bandeirinha de escanteio balançando a camisa vermelha da sua seleção inglesa em êxtase. E, então, explodiu de alegria. Sorriu, talvez plenamente pela primeira vez em quatro anos, logo antes de ser engolido pelos abraços dos companheiros.


No segundo tempo, Cavallero impediu o que seria um belo gol de Sheringham, e Seaman fez uma excelente defesa em cabeçada de Pochettino. A Inglaterra venceu por 1 a 0 e se classificou com empate contra a Nigéria, na última rodada. A favorita Argentina foi eliminada, depois de nova igualdade contra a Suécia, e viu, de casa, os ingleses avançarem até as quartas de final, quando seriam eliminados pelo Brasil. Mas a viagem já havia sido muito proveitosa para Beckham. O “armador inspirado”, segundo o relato da vitória inglesa feito pela BBC, precisou atravessar o planeta para trazer a redenção de volta para casa e dar sequência, com mais tranquilidade, a sua carreira de estrela, dentro e fora dos gramados.