Sim, ele falhou. Não há como diminuir isso. Falhou quando menos poderia, justamente na final de Copa do Mundo. Um erro básico, precisando se rastejar atrás da bola e, ainda assim, vê-la morrendo nas redes. Um erro talvez causado por orgulho. Oliver Kahn jogou aquela partida em Yokohama com uma torção no ligamento dedo anelar da mão direita. Não quis deixar a meta da Alemanha na noite mais importante, a da decisão. E, embora não seja possível cravar o quão determinante foi a lesão, e ele mesmo não a culpou logo após a partida histórica, isso não muda o fato consumado. O craque de luvas sucumbiu. Mesmo depois de fazer um Mundial impecável. Outro fato que, aliás, não pode ser mudado e nem diminuído pelo erro fatal. O Titã foi excepcional naquele mês de junho, há exatos 15 anos.

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Kahn chegou à Coreia do Sul e ao Japão em um grande momento da carreira. Aquela seria, enfim, a sua Copa do Mundo. Por mais que tivesse se firmado no Bayern de Munique desde 1994, após estourar no Karlsruher, o goleiro sempre encontrou uma concorrência pesadíssima no Nationalelf. Era apenas um aprendiz de Bodo Illgner nos Estados Unidos. Seguiu assim com Andreas Köpke, intocável durante a conquista da Eurocopa de 1996 e também no Mundial de 1998. A primeira chance de ser titular em uma grande competição veio na Euro 2000, em participação melancólica dos alemães. O processo de renovação era difícil, com derrotas amargas e resultados poucos consistentes. Mesmo assim, Kahn fez a esperança renascer em 2002.

Afinal, o que o arqueiro vinha jogando no Bayern era um absurdo. Se os bávaros voltaram a conquistar a Liga dos Campeões em 2001, encerrando um jejum de 25 anos, o camisa 1 tinha uma responsabilidade imensa. Fez grandes partidas, sobretudo na decisão contra o Valencia, vencida nos pênaltis. Foi eleito o melhor em campo na final, disputada no San Siro. Aliás, aquele seria só mais um prêmio individual, entre tantos recebidos no período. Em 2001, foi escolhido o melhor goleiro da Alemanha pelo quinto ano consecutivo e da Europa pelo terceiro. Também foi bicampeão do troféu entregue ao melhor jogador alemão do ano. E terminou em terceiro na Bola de Ouro, o primeiro de sua posição em 25 anos a aparecer no pódio, atrás apenas de Michael Owen e Raúl.

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Aos 33 anos, não havia dúvidas sobre o peso de Kahn à seleção alemã. Em um time repleto de jovens, que ainda tentava provar seu valor, o veterano era importante não apenas para segurar o placar, mas também pela liderança. E, de fato, comandou o espírito do Nationalelf naquele Mundial. Colecionou grandes defesas, desde a primeira fase. Invisível na goleada por 8 a 0 sobre a Arábia Saudita, segurou o empate por 1 a 1 contra a Irlanda, em noite difícil para os germânicos. E a classificação se confirmou com uma ajudinha do arqueiro, no triunfo por 2 a 0 sobre Camarões. Boas atuações, embora seu melhor viesse nos mata-matas.

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Em cada uma das partidas das fases seguintes, Kahn protagonizou milagres inesquecíveis. Na vitória magra sobre o Paraguai, espalmou uma linda bola no alto. Depois, o jogo polêmico contra os Estados Unidos. A classificação da Alemanha pode ter sido controversa, mas o Titã fez sua parte, principalmente nos duelos com Landon Donovan. Com a ponta dos dedos, barrou os chutes do craque oponente e empurrou o Nationalelf às semifinais. Já diante da anfritriã Coreia do Sul, voou em diversos momentos, dono de sua área. Com Kahn, os alemães eram muito mais fortes.

Então, veio a final contra o Brasil. E a torção no dedo. Jens Lehmann e Hans-Jörg Butt eram reservas dignos. Mas como iriam entrar quando Kahn estava arrebentando daquele jeito? Como iriam tirar o capitão conhecendo o seu gênio e a sua importância? Com um dedo a menos, o Titã continuava sendo o melhor arqueiro do país. Durante o primeiro tempo, o alemão ainda fez uma defesaça com as pernas, em chute de Ronaldo. O mesmo Ronaldo que seria o seu carrasco. Restaram as cenas melancólicas do goleiro sofrendo com as dores diversas – no dedo, do erro, da derrota. Terminou a noite inconsolável, encostado na trave, vendo os brasileiros comemorarem o penta. Marcos, intransponível naquela final e de torneio tão brilhante quanto, era o dono das luvas que merecidamente tocavam a taça.

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Kahn ainda seria eleito (em escolha discutível) o melhor jogador da Copa e o melhor goleiro do mundo em 2002. Nada que o fizesse esquecer aquela bola. “Não há consolação. Esse foi o único erro que cometi em sete jogos. Ele foi brutalmente punido. Uma falha na final da Copa é dez vezes mais amarga. Eu precisava segurar a bola. Mas a vida segue em frente, e eu preciso conviver com este erro”, afirmou o goleiro, logo após o revés em Yokohama.

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E seguiu. Embora sua fase não fosse mais tão boa, continuou idolatrado e conquistando títulos com Bayern de Munique. Teve a chance de voltar à Copa, mas não como protagonista. Em 2006, aos 37 anos, compreensivelmente permaneceu como reserva de Jens Lehmann. Esboçou uma revolta no início, mas depois foi compreensivo. Jogou apenas a decisão do terceiro lugar, em partida que terminou de eternizar o orgulho dos alemães por tudo o que aconteceu naquele Mundial. “Foi libertadora a experiência de que não é necessário estar em campo e sempre vencer para ter sucesso. De repente, senti que as pessoas me olhavam com uma simpatia que até então eu desconhecia”, avaliou, depois da Copa. Uma sabedoria que lhe faltou em alguns momentos da carreira – talvez, também na final de 2002.

Oliver Kahn, como personagem, é bastante questionável. Suas atitudes dentro e fora de campo muitas vezes colocaram em xeque a sua ética. Como atleta, no entanto, o veterano foi um dos melhores da história em sua posição. Seu estilo potente sob as traves (com um tempo de reação fenomenal e muita impulsão, atacando a bola ao invés de meramente esperá-la chegar) se evidenciou na Copa de 2002. Por mais que a imagem mais impregnada na mente seja a daquela queda. A vida, no fim das contas, é feita de altos e baixos. Negativo e positivo precisam conviver juntos. E não é a sombra de Yokohama que anula seu esplendor há 15 anos, por mais que acabe o eclipsando vez ou outra.