Algumas das mais belas imagens da Copa do Mundo de 2002 foi a torcida sul-coreana pintando as ruas do país de vermelho, torcendo pela sua seleção em uma campanha improvável. Sob o comando de Guus Hiddink, a Coreia do Sul, que nunca havia passado da fase de grupos, e sequer havia ganhado um jogo em Mundiais, conseguiu o melhor resultado da sua história ao chegar às semifinais. Foi o primeiro país asiático a alcançar essa fase. O que nos impediu de apreciar o que deveria ser um grande conto de fadas foi a quantidade industrial de erros de arbitragem que ajudaram o time a chegar lá, como nas quartas de final, contra a Espanha, há exatos 15 anos.

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A Coreia passou às oitavas de final liderando o seu grupo, com sete pontos, e vencendo Portugal de Figo, por 1 a 0. Foi um grande resultado, em que a arbitragem também foi personagem, com dois cartões vermelhos para os portugueses. No entanto, tanto a expulsão de João Pinto, quanto a de Beto, pareceram justas. O primeiro problema foi contra a Itália, quando o equatoriano Byron Moreno expulsou Totti por simulação, em um lance que dava muito bem para ser interpretado como pênalti, e anulou gol de Tommasi, aparentemente na mesma linha.

O segundo problema, um problemão, foi nas quartas de final. A Espanha teve um gol anulado, no primeiro tempo, em cobrança de falta que bateu nas costas de Kim Tae-Young e entrou. O árbitro egípcio Gamal Ghandour apitou puxão de camisa de Baraja no azarado sul-coreano que fazia gol contra. Foi um lance discutível, interpretativo, mas realmente houve o puxão. Com os donos da casa bem recuados, sem se incomodar com a pressão da Espanha, a partida foi para a prorrogação e não há maneira de explicar o gol anulado de Morientes.

Joaquín foi à linha de fundo e, bem em cima dela, descolou o cruzamento para Morientes, na segunda trave, cabecear para as redes. Ghandour marcou saída de bola. Mas a bola não saiu. Não passou nem perto. Não foi nem uma daquelas jogadas em que boa parte da redonda está para fora, e fica a dúvida se ela saiu inteira ou não. Não há dúvidas.

joaquin bola

E tem outra coisa: era o gol de ouro. A Espanha estaria classificada. Não dá nem para argumentar que poderia desperdiçar o pênalti, ou que a Coreia do Sul poderia empatar, ponderações geralmente usadas em outros erros do apito. Este foi definitivo e decisivo para o resultado. E teve mais. Durante a partida, os espanhóis ficaram irritados com o excesso de impedimentos marcados. Nos pênaltis, o goleiro Lee Woon-jae adiantou-se dois passos para defender a cobrança de Joaquín, irregularidade naturalmente ignorada pela arbitragem.

A raiva dos jogadores da Espanha foi simbolizada por Iván Helguera, que precisou ser retirado de cima do árbitro ao fim da partida. “Todo mundo viu que foram dois gols perfeitamente legais. Se a Espanha não venceu, foi porque não quiseram que ela vencesse. O que aconteceu aqui foi um roubo”, afirmou o ex-zagueiro. A imprensa espanhola também não perdoou Ghandour. A capa do Marca destacou a declaração de Helguera e manchetou: “Este Mundial dá nojo”. Mas talvez ninguém tenha sido tão incisivo quanto o Telegraph, neste artigo no dia seguinte:

“Alerta: não torça para a Coreia do Sul. Ela não tem direito de estar na semifinal da Copa do Mundo. A Espanha deveria estar enfrentando a Alemanha em Seul. Os registros dizem que os sul-coreanos eliminaram a Espanha, nos pênaltis, em Gwangju, no sábado. Os registros são uma mentira e este torneio caiu na farsa”.

Em entrevista ao jornal El Mundo, em 2015, Ghandour deu uma declaração curiosa: “Se pudesse voltar àquele dia, faria exatamente a mesma coisa que eu fiz durante os 126 minutos”. O ex-árbitro egípcio argumenta que acertou na cobrança de falta e que, na bola de Joaquín, apenas seguiu as instruções do seu bandeirinha. “O primeiro gol eu mesmo anulei por uma falta clara. As imagens mostram que o jogador espanhol agarrou a camiseta de um defensor adversário. Na hora, ninguém discutiu comigo aquela falta”, afirmou. “No segundo gol, o auxiliar interveio levantando a bandeira ao acreditar que a bola havia saído. Estou completamente de acordo que a bola não saiu, mas, quando o auxiliar levanta a bandeira, tenho que apitar”.

O auxiliar era Michael Ragoonath, de Trinidad Tobago, país do ex-dirigente Jack Warner, um dos pivôs do Fifagate. Na época em que o escândalo explodiu, o Corriere dello Sport publicou uma matéria acusando-o de escolher árbitros que favorecessem a Coreia do Sul: Byron Moreno, contra a Itália, e Ghandour, contra a Espanha. “Não o conheço, nunca o vi na vida. Não sei qual era sua função na Fifa, mas posso dizer que, naquela época, o presidente da comissão de arbitragem e encarregado por designá-los era Ángel María Villar (atual presidente da Federação Espanhola). Fui escolhido por Villar. Ele me pediu para apitar um jogo contra seu país?”, disse o egípcio, na entrevista ao El Mundo.

Há muitas dúvidas, no mundo do futebol, sobre a idoneidade da arbitragem nas partidas da Coreia do Sul naquela Copa do Mundo. Mas são acusações sempre difíceis de serem provadas. Na rodada seguinte, a trajetória dos sul-coreanos foi encerrada pela Alemanha, que se classificou para enfrentar o Brasil na grande decisão.