Pak Doo-Ik abriu o placar, aos 42 minutos do primeiro. Não é possível, pensaram os 20 mil torcedores que estavam no Ayresome Park, em Middlesbrough. Os times foram para os vestiários. A Itália tinha 45 minutos para fazer um único gol, missão que não deveria ser nada complicada contra um time inexpressivo e que disputava seu primeiro mundial. Faltou combinar com os norte-coreanos. Em 19 de julho de 1966, ou seja, há 50 anos, a Coreia do Norte concretizou uma das maiores zebras da história das Copas, ao bater a bicampeã do mundo por 1 a 0. Placar que também serviu para mudar o panorama do futebol italiano por mais de uma década.

LEIA MAIS: Nas férias, Buffon segue como lenda: joga como goleiro com as crianças na Itália

A inesperada vitória asiática compara-se à derrota da fortíssima Inglaterra, disputando sua primeira Copa do Mundo, para um time amador dos Estados Unidos, em 1950. E não é para menos. A Itália tinha dois títulos na bagagem, enquanto a maioria mal sabia que a fechada Coreia do Norte tinha um time de futebol nacional. Conseguiu classificação para o mundial inglês muito em função de questões políticas que deixaram as eliminatórias africanas e asiáticas mais fáceis.  As duas competições foram, na verdade, uma coisa só.

Na época, o presidente da Fifa era o inglês Stanley Rous, conhecido pelo seu eurocentrismo e pelo pouco caso com as outras regiões do futebol – foi aproveitando essa fraqueza que João Havelange o venceu nas eleições de 1974. Times africanos, enfim, poderiam classificar-se para a Copa do Mundo sem disputar playoffs com os fortes europeus. Mas dividiriam uma única vaga com os asiáticos. Em protesto, todos se recusaram a participar das eliminatórias. Por outros motivos – mudança do local dos jogos, do Japão para o Camboja -, a Coreia do Sul fez o mesmo, e sobraram apenas Coreia do Norte e Austrália. Os norte-coreanos venceram os dois jogos e ficaram com a vaga.

A Itália, por outro lado, disputava sua quinta Copa do Mundo, portando a tradição de ter conquistado dois títulos antes dos nazistas tentarem conquistar a Europa. No pós-guerra, o rendimento estava sendo muito inferior. Havia sido eliminada na fase de grupos de 1950, 1954 e 1962, e nem havia se classificado para o Mundial da Suécia, que terminou com o primeiro título mundial do Brasil.

A competição na Inglaterra era uma boa oportunidade para recuperar um pouco do seu status de potência do futebol. Os times italianos voavam nas competições europeias. A Internazionale de Helenio Herrera acabara de ser bicampeã continental. Antes dela, o Milan conquistara seu primeiro título, que seria repetido no final daquela década. O elenco tinha, entre outros bons jogadores, os destaques Sandro Mazzola e Gianni Rivera.

Corria por fora na briga pelo título. Tinha certamente futebol para se classificar no seu grupo, formado ainda por União Soviética e Chile. A Itália estreou fazendo o que dela era esperado e venceu os chilenos, por 2 a 0. Perdeu por apenas um gol de diferença para os soviéticos, que eram fortes naquela época e seriam quartos colocados na Copa de 1966. Resultado normal. Bastava um empate com os norte-coreanos – que haviam perdido da URSS e empatado com o Chile – para avançar às quartas de final.

Mas Pak Doo-ik e seus companheiros tinham outros planos. Ganharam da forte Itália e quase surpreenderam também Portugal, de Eusébio, ao abrir 3 a 0 nos primeiros 25 minutos do jogo decisivo de mata-mata. Os portugueses viraram para 5 a 3, e os norte-coreanos foram recebidos como heróis no seu país. Enquanto isso, a Itália lambia as feridas do vexame. Entre outros diagnósticos mais pontuais, como o trabalho ruim do técnico Edmondo Fabbri, havia a percepção de que o excesso de estrangeiros na liga nacional atrapalhava o desenvolvimento de talentos locais.

Por isso, a partir de 1966, os clubes italianos foram proibidos de contratar jogadores de outros países, como faziam bastante até ali – Julinho Botelho, José Altafini, Amarildo, Dino Sani, entre outros. Os resultados da medida, em campo, foram imediatos, embora possam ser mais creditados à mudança no comando da equipe, entrou Facundo Valcareggi para o lugar de Fabbri, e o surgimento de novos craques, como Dino Zoff e Luigi Riva, do que à produção de uma geração de ouro em apenas dois anos.

A Itália venceu a Eurocopa de 1968 e, outros dois anos depois, no México, protagonizaria o Jogo do Século contra a Alemanha, nas semifinais, antes de perder do Brasil na grande decisão. Sem poder contar com talentos estrangeiros, os clubes italianos não tiveram a mesma sorte. Das cinco decisões de Copa dos Campeões a que haviam chegado nos anos sessenta, conseguiriam apenas duas na década seguinte: derrotas para o Ajax de Cruyff, uma da Inter e outra da Juventus.

A proibição foi suspensa em 1979, e a Itália foi com vontade ao mercado. Vieram praticamente todos os grandes craques do mundo da década de oitenta, e os clubes voltaram a serem protagonistas na Europa. A Serie A foi a melhor liga do mundo durante muito tempo. E, de lambuja, ainda ganhou mais uma Copa do Mundo, mesmo com o seu futebol nacional cheio de estrangeiros.

Faixa bônus

Vale conferir também este documentário da BBC, para quem é bom de inglês, sobre os heróis daquela campanha. Foi uma das raras vezes que uma equipe de filmagem de outro país conseguiu permissão para entrar na Coreia do Norte.