Quatro anos em que o Brasil (e as Américas) se acostumaram a se pintar de azul, preto e branco. Quatro anos em que o tricolor gaúcho experimentou a sensação de possuir o clube mais poderoso do país, mesmo que a concorrência fosse pesada. Quatro anos emblemáticos para história do Grêmio, com uma identidade ‘copera y peleadora’. De 1994 a 1997, foram dois títulos estaduais, três nacionais e dois continentais. O título do Campeonato Brasileiro de 1996 marcou ainda mais aquela geração, assim como foi o último ato do grande artífice daquelas glórias, Luiz Felipe Scolari. Um feito que completa 20 anos nesta quinta.

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Campeão da Copa do Brasil em 1994 e (principalmente) da Libertadores em 1995, o Grêmio sustentava a fama de time cascudo para os mata-matas. E suas campanhas no Campeonato Brasileiro, negativamente, induziam ao rótulo. Depois que voltou da Série B, em 1993, os tricolores tiveram apenas desempenhos modestos no Brasileirão. Sequer haviam disputado as fases decisivas. Mas em 1996 foi diferente. O moral da equipe de Felipão estava elevadíssimo, intimidando sempre. E os gremistas demonstraram suas credenciais desde a fase de classificação.

Não que o desempenho tivesse sido irretocável. O Grêmio terminou com a sexta melhor campanha, a seis pontos do líder Cruzeiro e a três de sair do G-8 que avançava aos mata-matas. Ainda assim, foram diversas partidas nas quais os tricolores demonstraram seu poderio. Se Felipão quase sempre fez fama pela capacidade defensiva, naquela arrancada a linha de frente se sobressaiu. Os gremistas tiveram o melhor ataque, com os mesmos 42 tentos do badalado Palmeiras. Golearam sem piedade o Atlético Mineiro (5 a 0), bateram o campeão Santos (3 a 0) e garantiram a festa de sua torcida com o triunfo no GreNal (2 a 1), entre outros confrontos.

Nas quartas de final, o adversário era justamente o Palmeiras, de tantos embates históricos naqueles anos. O primeiro duelo, no Estádio Olímpico, já foi cheio de emoção. E violência. As duas equipes abusaram das faltas e o árbitro Sidrack Marinho distribuiu três cartões vermelhos: Leandro Ávila deixou os alviverdes com um a menos, enquanto Paulo Nunes e Clébão se estranharam e foram para os vestiários juntos. Melhor para os gaúchos. Luizão abriu o placar no primeiro tempo, mas, na segunda etapa, os anfitriões balançaram as redes três vezes, com Emerson, Zé Afonso e Luis Carlos Goiano. Três gols de cabeça, uma arma clássica daquela equipe. Na volta, apesar da pressão, o Palmeiras só venceu por 1 a 0 e acabou eliminado.

Na etapa seguinte, uma das surpresas daquele Brasileirão. O Goiás eliminara o Guarani e contava com uma equipe interessante, na qual despontavam jogadores como Lúcio, Alex Dias e Dill. Nada que preocupasse o Grêmio. Os tricolores fizeram o serviço logo no Serra Dourada, com a vitória por 3 a 1. No Olímpico, os goianos chegaram a ficar em vantagem por duas vezes, mas o Grêmio buscou o prejuízo em ambas. O empate por 2 a 2 valeu para a primeira final de Campeonato Brasileiro desde 1982.

A Portuguesa deixou os gaúchos temerosos, diante da vitória por 2 a 0 em São Paulo. A deixa para a virada com ares épicos no Olímpico. Paulo Nunes reavivou as esperanças logo aos três minutos de bola rolando. A tensão se arrastou. Por ter feito campanha superior, o Tricolor dependia apenas de mais um gol para celebrar a taça. E os torcedores precisaram esperar até os 39 do segundo tempo. Aílton era nome recorrente a partir do banco e já tinha feito outras boas partidas naquela campanha. Nenhuma, porém, tão decisiva: seu gol permitiu que o Grêmio comemorasse um título do Brasileirão pela primeira vez desde 1981. A sede de glórias não tinha fim.

Aquele timaço do Grêmio manteve boa parte da base campeã da Libertadores. Danrlei era o ídolo sob as traves. Arce, um cracaço na lateral. A zaga mantinha a segurança com o capitão Adílson e o paraguaio Rivarola, além de Roger oferecendo potência pela esquerda. Na cabeça de área, sobrava firmeza com a dupla formada por Dinho e Luis Carlos Goiano. Emerson, substituindo Arilson, voava como meia, ao lado do maestro Carlos Miguel. Já o ataque não contava mais com Jardel, apostando em Zé Alcino. Mas Paulo Nunes compensava pela fase endiabrada, artilheiro do campeonato com 16 gols. Entre os substitutos, o talismã Aílton, o útil Zé Afonso e o xerife Mauro Galvão.

Já no banco de reservas, Felipão ratificava o seu posto como um dos melhores treinadores do Brasil. Conquistava o seu quarto título de primeira grandeza, depois de uma Copa do Brasil e uma Libertadores com o Grêmio, além da Copa do Brasil com o Criciúma. O comandante, todavia, abriria mão de seu trono para se aventurar em terras distantes. Scolari fechou com o Júbilo Iwata, mas não passou mais do que alguns meses no Japão. Em maio, já voltava ao Brasil, para dirigir justamente o Palmeiras. Adilson, a quem tinha levado a Shizuoka, acabou campeão da J-League em dezembro.

O Grêmio, por sua vez, até se virou bem nos primeiros meses sem o seu técnico e sem o seu capitão. Mauro Galvão entrou na zaga, suprindo a ausência. Já no banco de reservas Evaristo de Macedo levou a equipe à conquista da Copa do Brasil. Os tricolores só não sustentaram o sonho do tri da Libertadores: caíram para o Cruzeiro nas quartas de final. Nada que manchasse a grandeza alcançada naqueles anos inesquecíveis aos gremistas.

Vale conferir também o ótimo texto sobre aquela final produzido pelo efemérides do éfemello