Até a abertura da Copa do Mundo, publicaremos a série ‘Copa Puntero’, do Puntero Izquierdo, na íntegra – que você já pôde conferir em links na Trivela. A série traz 11 perfis de personagens que passaram pela história dos Mundiais; no nono episódio, “la enfermera que se llevó a Diego” e a teoria da conspiração que depois de 24 anos ainda circula pelas ruas, bares e cafés de Buenos Aires. Para conhecer o projeto e apoiá-lo, clique aqui.

por Leo Lepri

“Terminou o jogo e eu tinha que buscá-lo. Então disse a ela que me acompanhasse e se colocasse ao lado dele porque assim sairia em todos os jornais do mundo.” (Dr. Peidró, ao canal TyC, em 2016)

Faltou dizer para sempre, doutor. “Sairia em todos os jornais do mundo e para sempre”. Porque quando Sue Carpenter buscou Diego Maradona dentro do campo no estádio Foxboro, em Boston, aconselhada pelo Dr. Roberto Peidró, então segundo médico da comissão técnica argentina na Copa de 1994, ela ainda não sabia que sua foto junto a Maradona se tornaria imagem definitiva de uma das maiores teorias conspiratórias do futebol.

De mãos dadas ao ídolo sorridente, este que renascia mais uma vez, Sue se tornou eternamente la enfermera que se llevó a Diego. Ainda em campo, entre gestos carinhosos e beijos dedicados à mãe, ele caminhou rumo aos bastidores. Maradona não sabia que aquele tinha sido seu último jogo pela seleção argentina. Ninguém sabia, na verdade. E ninguém ainda questionava identidade, por quem foi mandada, ou por que aquela enfermeira buscou Diego no gramado.

Foi o passar do tempo, os três dias imediatos à vitória sobre a Nigéria mais o peso dos anos que se amontoaram desde então, que fizeram desmoronar hipóteses feito avalanche no Aconcágua. O camisa 10 testou positivo para efedrina e um paí­s virou-se para Sue com olhos desconfiados.

E desconfiança é sentimento que se cria com medidas exatas de mágoa e bronca. Oscar Ruggeri, amigo e companheiro de Maradona em três Copas, disse à FOX Sports; “Nos três Mundiais que joguei fui para o exame antidoping. Nunca vieram me buscar dentro de campo. Nunca me pegaram pela mão e me levaram embora. Sempre me deixaram ir ao vestiário. Eu me troquei e só depois fui ao doping. Mas com Maradona não. Eles foram lá caçá-lo, pegaram ele pela mão e o levaram embora. Foi a única vez que fizeram isso. E foi para mostrar ao mundo que ele foi o escolhido para o exame.”

Arrecifes, Argentina

As aspas a seguir são de abril de 2018, de uma entrevista ao canal TyC. Reproduzem as palavras roucas de tantos maços fumados por Alfio Basile, treinador da seleção argentina no Mundial de 94: “Eu estava convencido de que nós seríamos campeões do mundo na Copa dos Estados Unidos. Quando a enfermeira entrou e levou o Diego embora, comecei a suspeitar. E suspeito até hoje.”

Há 24 anos, Diego já colecionava seus inimigos e a Argentina tinha um dos melhores selecionados de sua história. Era a atual bicampeã da América (1991 e 1993), campeã da Copa das Confederações (1992) e finalista nas duas últimas Copas (campeã no México, em 1986, e vice na Itália, 1990). “Você faz ideia do que era ver todos aqueles craques jogando juntos? Cholo Simeone, Redondo, Caniggia, Batistuta…”, contou Ruggeri imerso em um saudosismo de milonga.

Maradona estava punido por um doping de cocaína na Itália e quase não jogou no período de bonança dos anos noventa. Perguntado, em 1992, sobre as chances de disputar o Mundial que aconteceria dali a dois anos, um Diego obeso e suspenso respondeu: “Acho que não vou jogar. Eu morro de vontade, não vou mentir. Quando coloco a camiseta da seleção me sinto o Super-Homem. Mas acho que não. A seleção do Basile é uma seleção muito séria. Eu precisaria passar por uma prova e acho que não consigo. A idade já não é a mesma e não tenho vontade de brigar com ninguém.”

Mas ele sabia que não falava a verdade. O mito sentia falta de ser Maradona tanto quanto Maradona sentia falta de ser o mito. Feito Rocky Balboa, ele se reclusou. Foi para o campo no interior da Argentina, uma estância rural em Arrecifes, distante 180 quilômetros da capital. Lá, dando piques e chutando bolas entre ovelhas e vacas, Maradona lutou para recuperar a forma. Lutou também para recuperar a faixa de capitão; “Eu amo a seleção, amo o meu paí­s e amo ser o capitão. A faixa é, talvez, a única coisa que invejo do Cabezón Ruggeri quando ele vai a campo sendo o primeiro. Na Copa América eu o via e pensava; ‘Se eles não tivessem me punido eu estaria aí, indo a campo com a minha seleção, a seleção da Itália 90, a mais carismática de todas’”, disse na mesma entrevista de 92.

Ele voltou. Como e quando queria. Durante as Eliminatórias, a Argentina tomou incrédulos 5 a 0 dos colombianos em pleno Monumental e foi obrigada a disputar a repescagem. Era hora de chamar o tal Super-Homem Albiceleste. Maradona jogou as duas partidas contra a Austrália vestindo todos os seus pertences: a faixa e a 10.

A classificação veio depois de dois jogos que não tiveram controle de doping. O episódio foi batizado pelo próprio Diego, anos mais tarde, como “café veloz”. Naquela noite ele deixou o gramado do Monumental ovacionado; “Maradooo! Maradooo! Maradooo!

O anti-herói do futebol mundial estava de volta à Copa.

Boston, Estados Unidos

“Maradona, três meses antes da Copa, estava com 104 quilos. Junto com o preparador físico, nós fizemos ele chegar ao Mundial pesando 74 quilos. O Diego estava voando!” (Alfio Basile, em programa da TyC, 2018)

Talvez Sue Carpenter não soubesse de tudo isso. Talvez, ela sequer desconfiasse das provações pelas quais Diego precisou passar para estar ali, mãos dadas com ela. Talvez ela nem se interessasse em saber do doping por cocaí­na, da prisão domiciliar em Buenos Aires ou do período em que ele treinou sozinho.

Aos 33 anos, Sue Carpenter, estadunidense de Los Angeles, era auxiliar do controle de doping designada pela Fifa para trabalhar na Copa. Segundo confirmaram os jornalistas argentinos Alejandro Wall e Andrés Burgo durante as pesquisas para o livro El Último Maradona, uma extensa e detalhada investigação sobre tudo que cercou aquele caso, Sue sequer era enfermeira.

Veio o primeiro jogo contra a Grécia e Batistuta anotou três na goleada por 4 a 0. “No meu primeiro jogo em uma Copa eu fiz três gols e ninguém falou nada. Sabe por quê? Porque o Diego fez aquele golaço e ninguém lembrou de mim. Nada. Ninguém me deu bola, nem olhavam pra mim. Era tudo para o Maradona”, contou o ex-centroavante, entre risadas, a FOX Sports.

O gol foi o último de Maradona em uma Copa. A canhota que ainda hoje coloca a bola onde quer, naquele dia decidiu colocá-la no ângulo. Foi também o gol da corrida. O gol da bronca. O gol do alí­vio. O gol do grito que explodiu de dentro e parecia querer engolir a câmera. Foi o gol da careta. Essa que muita gente usaria como argumento, contraprova para qualquer exame.

Quatro dias depois, na mesma cidade e estádio, todos os nossos personagens se encontraram.

A Argentina encontrou a Nigéria.

Caniggia, aos gritos, encontrou Maradona.

E Maradona finalmente se encontrou com Sue.

Estádio Foxboro, Boston, Estados Unidos

“Eu me senti muito bem porque me senti importante, senti que o time precisava que eu ficasse com a bola e foi isso que eu fiz. Isso é para todos vocês, argentinos. Tota, para você também.” (Diego Maradona, 1994)

Foi mandando um beijo para a mãe que Maradona encerrou, ainda dentro de campo, a entrevista para um canal de televisão. Ele já era custodiado pela enfermeira, de um lado, e por um policial, de outro.

O sorteio para o doping aconteceu longe do campo, longe de Sue. Alguns assessores da Fifa, agentes de segurança, os médicos nigerianos e o Dr. Peidró participaram. “Foram sorteadas algumas bolinhas que estavam dentro de uma sacola. “Eu sorteei os números da Nigéria e o médico nigeriano sorteou os números da Argentina. Saiu o 10 da nossa seleção. Era o Maradona. As bolinhas não estavam frias, nada desse tipo. Eram bolinhas comuns que o médico nigeriano botou a mão e escolheu. Ele tirou a 10, assim como também saiu a número 2, do Vázquez”, contou, em 2014, o médico argentino em entrevista a TyC.

Em sua autobiografia Yo soy el Diego de la gente, Maradona questiona: “Viram algum outro jogador que foram buscar para levá-lo ao antidoping? E eu fui, fui como um tonto…”

O doutor tem a explicação. Conhecido o resultado do sorteio, o médico voltou da sala de controle antidoping e se aproximou do campo para acompanhar os minutos finais da partida contra a Nigéria. Ali, próximo à linha lateral, ele emplacou uma breve conversa com Sue, segundo relato de Andrés Burgo em artigo para o site da revista El Grafico:

“A loira esperava o final do jogo junto com três companheiras e sem saber que Maradona tinha sido sorteado. Não havia nada atípico até então: a Copa dos Estados Unidos foi a única em que, por uma disposição particular, um policial e uma auxiliar — essas garotas vestidas como se trabalhassem em um hospital — deveriam entrar em campo para acompanhar os jogadores do campo até a sala de controle. Achar que apenas houve ‘enfermeira’ para Maradona é um erro. E também uma vitimização: houve ‘enfermeira’ para os quatro jogadores sorteados em cada uma das partidas do torneio.”

O próprio Dr. Peidró corrobora o ponto; “Geralmente, elas esperavam os jogadores quando eles estavam saindo. Nesse estádio, o vestiário estava em uma ponta e a sala de controle em outra. Era preciso avisá-los ainda em campo porque não era permitido passar pelo vestiário antes.”

De Congreso, Buenos Aires, e de volta a Boston

Sue Carpenter tinha sido casada com um argentino de sobrenome Rodríguez. Peidró nunca soube ou conheceu o homem, mas o que chamou atenção do médico foi um lugar em especial: Congreso.

“Nós começamos a conversar ali, na linha lateral, e ela tinha sido casada com um argentino. Ela não conhecia a Argentina e me contava que sonhava em conhecer um lugar chamado Congreso, porque seu ex-marido era de lá. Ela me perguntou o que significava Congreso e eu expliquei que era um bairro de Buenos Aires”, revelou em entrevista para o La Nación.

A conversa na beira do campo foi interrompida pelo silvo de apito do árbitro sueco. Então, encorajada pelo médico e pela amizade momentânea, Sue foi encontrar-se com Maradona; “Eu digo a ela que me acompanhasse e se colocasse ao lado dele porque sairia em todos os jornais.”

A presença de Sue pegou de surpresa o próprio Maradona. Ele perguntou a um delegado da Fifa o que aquela mulher fazia ali, dentro de campo, caminhando tão convicta em sua direção. Foi o chileno Harold Mayne Nicholls, que anos mais tarde se tornaria presidente da Federação Chilena de Futebol, quem tranquilizou o craque: “Está tudo em ordem, Diego. Ela é do controle antidoping e vai te acompanhar.”

O carinhoso gesto de dar a mão partiu de Maradona. Foi ele quem escolheu essa aproximação; “Foi um mito essa história de que a enfermeira o segurou pela mão e o levou embora. Se vocês voltarem a ver as imagens, vão perceber que é ele quem segura a mão dela”, explicou o Dr. Peidró.

Dallas, Estados Unidos

“Jogou, venceu, mijou, perdeu.” (El fútbol a sol y sombra, Eduardo Galeano)

Com a seleção já em Dallas, se preparando para o último jogo da fase de grupos contra a Bulgária, Maradona recebeu a confirmação do doping por efedrina e alguns outros metabólicos que, segundo os especialistas, têm efeitos estimulantes e ajudam a perder peso.

A comissão técnica começou a pensar em uma estratégia, mas antes mesmo de ter a oportunidade de apresentá-la ao comitê da Fifa, a Asociación de Fútbol Argentino (AFA) decidiu cortar Maradona.

Alfio Basile contou o episódio dessa forma: “Até o presidente da República (à época Carlos Menem) me telefonou. Nós í­amos fazer a defesa, estávamos falando sobre isso quando disseram que havia uma ligação para mim. Atendi e era o Julio (Grondona). Ele me disse; ‘Coco, não venham. A defesa está descartada’.”

Desde então, o falecido ex-presidente da AFA tornou-se o maior inimigo de Diego. E de muitos outros também; “Tiraram a gente daquela Copa. Foi algum acerto que o Grondona fez e eu não sei o que ele fez… Essa máfia toda que está presa agora. E os que não estão presos, estão lá em cima (mortos)”, disse Ruggeri, quem recuperou a faixa de capitão após o corte de Maradona.

Segundo explicou o infográfico impresso no jornal Clarí­n em julho de 1994; “A efedrina é uma substância natural que promove a termogêneses, ação pela qual as calorias da gordura se convertem em calor. Também pode causar perda de apetite e transtornos digestivos. Outros efeitos da efedrina são: estimular o centro respiratório, dilatação nas pupilas e o notável aumento da agilidade mental (uma overdose pode conduzir a psicose paranoide, delírios de grandeza e alucinações).”

Depois de 48 horas de um silêncio absoluto, já descartado do Mundial, Maradona falou. E quando Maradona fala, é sempre recomendável ter por perto uma caneta e um papel em branco pronto para receber as frases que logo se tornarão mantras.

“Eu me preparei muito bem para esta Copa, eu me preparei como nunca. Isso dói muito porque eles cortaram as minhas pernas, acertaram na minha cabeça quando eu tenho a oportunidade de ressurgir. Porque quando eu me droguei, fui até o juiz e disse; ‘Sim, me droguei. O que eu preciso pagar?’ E paguei.”

Sue Carpenter acompanhava a coletiva do jogador pela televisão. Se há algo que Diego sabe dominar tão bem quanto bola espirrada por um beque ruim, é a atenção do público. E ele dominou os olhos e ouvidos de Sue também.

“Eu morri de dó quando vi, pela televisão, que ele chorava. Eu me sinto culpada de algo que não fiz. Esse é o meu trabalho.” A declaração para o jornal El Paí­s foi uma das poucas, senão a única, em que Sue comentou o episódio. Pese a um conflito de datas divulgadas no site do periódico, a conversa só aconteceu sob uma espécie de sigilo. Depois da dimensão tomada pelo doping positivo de Maradona, a Fifa quis protegê-la. “Imediatamente eles deram um nome falso a ela: Ingrid María”, revelou Burgo em seu texto para a El Grafico.

“Achávamos que a chave era encontrar a enfermeira, mas hoje podemos dizer que ela foi um personagem absolutamente marginal. O ponto central é o que aconteceu por debaixo dos panos, a relação AFA-FIFA e a verdadeira preparação de Maradona para essa Copa”, disse Alejandro Wall, em 2014, durante conversa com o jornalista Ezequiel Moores para o La Nación.

Ela só seria vista novamente dois anos mais tarde, durante os Jogos Olímpicos de Atlanta. Sue era a encarregada do estádio de Birmingham. Ainda segundo Burgo, foi ela quem procurou pelos jornalistas argentinos e contou a sua história.

Buenos Aires, Argentina

Sem Maradona, a Argentina perdeu os dois últimos jogos na Copa de 94. Foi eliminada pela Romênia, nas oitavas de final. “Ele foi suspenso e nós fomos jogar logo em seguida, essa foi a cagada. Nós não podí­amos mais ganhar de ninguém, estávamos crucificados e a Argentina tinha que sair. Faltou pouco para nos expulsarem do Mundial. Uma seleção que tinha dado positivo no doping não poderia ser propaganda”, contou Basile.

À época dos acontecimentos, o jornal Clarín realizou uma pesquisa em que 90% dos argentinos reafirmaram, apesar da punição, Maradona em sua condição de í­dolo. “O único que eu quero que fique claro para os argentinos é que eu não me droguei. Eu não corri pela droga. Eu corri pelo coração e pela camiseta. Nada mais”, disse em entrevista logo após o anúncio do corte, contorcendo a boca e segurando as lágrimas.

Sobre Sue, nunca mais se soube nada. Há notí­cias de que ela se tornou médica especialista em fertilidade. Mas jamais foi possível uma confirmação. Os perfis de Sue Carpenter não costumam responder mensagens, chamadas, ou qualquer tipo de contato.

“A enfermeira tirando o Diego (de campo), algo que nunca tí­nhamos visto, foi um dos grandes mitos. Eu tinha essa suspeita, que me fazia pensar que havia algo por trás de tudo aquilo. Quando começamos a investigar percebemos que não era assim. Mas ainda hoje, quando você conta isso, há pessoas que não querem acreditar”, disse Alejandro Wall.


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