Desta segunda até a abertura da Copa do Mundo, publicaremos a série ‘Copa Puntero’, do Puntero Izquierdo, na íntegra – que você já pôde conferir em links na Trivela. A série traz 11 perfis de personagens que passaram pela história dos Mundiais; no décimo primeiro e último episódio, a história do desconhecido lateral convocado de última hora que viveu o auge de sua carreira com dois golaços na Copa de 1986. Para conhecer o projeto e apoiá-lo, clique aqui.

Por Fernando Cesarotti

Um dos mais famosos corpos celestiais, o cometa Halley encheu a Terra de expectativas na virada de 1985 para 1986. Famoso por passar nos arredores do planeta a cada 76 anos, gerou uma onda de interesse pela astronomia que só foi proporcional à frustração de quem passou noites em claro e não conseguiu enxergar nada de diferente.

Mas houve, sim, um cometa que passou pela Terra naquele ano. Josimar. Um homem que, em pouco mais de um mês, viu sua carreira sair do risco do ostracismo para o auge, ganhou comparações com Djalma Santos e, logo depois, voltou a ser apenas mais um dos milhares que correm atrás da bola todos os dias — mas um dos poucos a fazê-lo com dois golaços em Copa do Mundo no currículo.

Três semanas antes de começar a Copa, Josimar Higino Pereira acordou assustado. Eram cerca de 9h de sábado, dia 10 de maio, e ele deu de cara com Edson Bentes, funcionário do Botafogo. Estranhou: sem contrato desde março, o lateral-direito planejava passar o fim de semana em casa, acompanhando na TV ou no rádio os jogos do returno do Campeonato Carioca, entre eles seus companheiros de Glorioso que enfrentariam o Flamengo num clássico no dia seguinte.

Mas não foi o jogo no Maracanã que levou Edson até o simples apartamento sem telefone de Josimar em Jacarepaguá, zona oeste do Rio, e sim ordens vindas do México: o lateral estava convocado para a Seleção Brasileira para disputar a Copa do Mundo, que começaria dali a 20 dias, e ele precisava viajar assim que possível. Edson fora até lá buscar o passaporte do jogador — mas, ainda incrédulo, avisou a Josimar que não contasse nada a ninguém, pelo menos até a convocação sair na imprensa. Registro da época no jornal O Globonarra que o lateral só teve certeza mesmo durante a apresentação do Jornal Hoje na TV. “O primeiro grande objetivo da minha vida, ser convocado para a seleção brasileira, foi finalmente alcançado. Tenho outros objetivos e o próximo é ser titular”, afirmou o lateral, em registro do diário carioca. Em dois dias, ele se juntaria a um time longe de estar pronto para um Mundial.

Aos trancos e barrancos

Se o trauma de 1982 até hoje atormenta a memória do futebol brasileiro, imagine como foram os anos seguintes. O Brasil teve três técnicos: Carlos Alberto Parreira, Edu Antunes e Evaristo de Macedo. Acumulou resultados apenas medianos e perdeu o único torneio importante: a Copa América de 1983 para o Uruguai, com derrota por 2 a 0 em Montevidéu e empate por 1 a 1 em Salvador na final. Nas semifinais, já tinha passado pelo Paraguai graças ao sorteio, após empates por 1 a 1, em Assunção, e 0 a 0, em Uberlândia.

Derrotas para Colômbia e Chile, ambas fora de casa, nos amistosos finais antes das Eliminatórias de 1985, derrubaram Evaristo e fizeram a CBF recorrer novamente a Telê Santana, a pouco mais de 10 dias da estreia. No dia 2 de junho, em Santa Cruz de la Sierra, Telê mandou a campo sete remanescentes da Tragédia do Sarriá para enfrentar a Bolívia: Leandro, Oscar, Júnior, Toninho Cerezo, Sócrates, Zico e Éder. (Carlos, Edinho, Renato Gaúcho e Casagrande tomaram os lugares de Valdir Perez, Luizinho, Falcão e Serginho.) A vitória por 2 a 0 deu mais tranquilidade a Telê, que reforçou suas convicções num 3 a 1 sobre o Chile, num amistoso no Beira-Rio. Na rodada seguinte, outro 2 a 0 fora de casa, contra o Paraguai, deixou a equipe à beira da Copa, vaga selada com dois empates em casa por 1 a 1 — contra paraguaios no Maracanã e bolivianos no Morumbi.

Em março de 1986, Telê chamou cerca de 30 jogadores para iniciar a última longa preparação da seleção para um Mundial. Entre os atletas chamados para se concentrar na Toca da Raposa, em Belo Horizonte, e disputar uma série de amistosos, apenas dois laterais-direitos: Leandro e Édson Boaro. Ao todo, foram sete amistosos, com quatro vitórias, um empate e duas derrotas. O último deles, 1 a 1 contra o Chile, em Curitiba, no dia 7 de maio, véspera da definição da lista final.

Lista que teve uma surpresa: a ausência de Renato Portaluppi. Titular durante a maior parte dos três anos anteriores, o ponta gaúcho nunca agradou ao conservador Telê: dizia o que pensava, colecionava namoradas e gostava de balada. O corte foi o castigo a um episódio em que os jogadores foram liberados para sair durante uma noite em Belo Horizonte, mas Renato e Leandro perderam a hora na volta à Toca da Raposa e tiveram que pular o muro. O castigo de Telê foi seletivo: Renato ficou fora da Copa, Leandro dentro. Mas, na noite de 9 de maio, na hora do embarque para o México, o lateral não apareceu no Galeão.

Zico e Júnior chegaram a ir até a casa do amigo para convencê-lo a mudar de ideia, mas ele se manteve irredutível. A história de Renato, na verdade, era apenas a gota d’água: dono de uma carreira brilhante, mas também marcada por diversos problemas físicos, Leandro não queria mais ser lateral, e sim zagueiro. Já vinha atuando no miolo da defesa pelo Flamengo desde o ano anterior, mas não era ouvido por Telê. “O Telê adorava o Leandro, achava-o o melhor lateral do mundo e não queria abrir mão, mas ele já não se sentia bem para jogar na posição”, lembra o jornalista Cláudio Arreguy, então repórter do Jornal do Brasil, escalado para cobrir a Copa e com passagem marcada para o mesmo avião da Seleção rumo ao México. “Ficou aquela confusão, o voo atrasou, o Zico e o Júnior voltaram dizendo que não ia ter jeito, o Leandro estava irredutível e não ia jogar”, conta.

Edson, que tivera chances desde 1984, com Edu, era o titular óbvio, mas ainda faltava uma convocação às pressas. O mais cotado para ocupar a vaga de Leandro era Paulo Roberto, do Vasco, que havia estreado na equipe com Parreira — e inclusive jogado a finalíssima da Copa América, em Salvador. Zé Teodoro, que vinha voando no São Paulo (que já tinha Falcão, Careca, Muller e Silas entre os convocados), e Luiz Carlos Winck, do Internacional, corriam por fora. A escolha de Josimar surpreendeu até mesmo o diretor de futebol da CBF, Pedro Lopes, ao anunciar a decisão no México. “Ele falou que o convocado era o Perivaldo, e ficou todo mundo se olhando, estranhando”, relembra Arreguy. O Peri da Pituba, preterido por Telê em 82, já vinha em baixa na carreira, jogando pelo Bangu. “Então o Pedro Lopes se corrigiu: ‘Não, é o outro. Do Botafogo. Josimar. Isso, o Josimar.’ Continuamos sem entender, não fazia nenhum sentido.”

Josimar tinha 24 anos, era meia de origem e tinha experiência com a camisa da Seleção nas categorias de base. Em 1981, jogou com a camisa 8 o Mundial Sub-20, na Austrália, sob o comando do bicampeão mundial Vavá. No Botafogo, firmou-se como lateral-direito, mas, naquele maio de 1986, amargava um período de quase dois meses sem jogar.

Sua última atuação havia sido num empate com a Portuguesa, por 1 a 1, no dia 19 de março, na Ilha do Governador. Seu contrato acabou dias depois e, em tempos de lei do passe, ele ia ao clube só para manter a forma e negociar uma renovação que não saía. Pedia 450 mil cruzados de luvas (o suficiente para comprar um apartamento de dois quartos na zona norte do Rio, segundo anúncios da época) e 25 mil cruzados mensais como ordenado (mais ou menos o preço de um Fusca 78). Acabou indo para o México sem novo acordo firmado.

A aparição do cometa

No México, Telê viu que a aposta nos veteranos de 1982 era fadada ao fracasso e mudou o time. Sem Toninho Cerezo, cortado às vésperas da Copa, e com Falcão em má forma física e técnica, Elzo e Alemão foram escolhidos como volantes; com Zico ainda em recuperação de uma lesão no joelho, Júnior foi para o meio cuidar da armação ao lado de Sócrates, deixando a lateral-esquerda para o jovem Branco; o novato Júlio César barrou Oscar na zaga central; indeciso desde o ano anterior entre Careca e Casagrande, Telê resolveu escalar os dois. Na lateral direita, Edson foi a escolha automática. Josimar viu os jogos contra Espanha e Argélia, suadas vitórias por 1 a 0, da tribuna; apenas cinco em cada jogo iam para o banco de reservas e ele não foi relacionado. Mas sua sorte começou a mudar aos 8 minutos do primeiro tempo contra os africanos: num lance bobo, sozinho, Edson sofreu uma distensão muscular na coxa direita. Falcão entrou em seu lugar e foi para o meio, com Alemão improvisado na lateral pelo resto do jogo.

No dia 12 de junho de 1986, já classificado, o Brasil enfrentou a Irlanda do Norte pela última rodada do Grupo D. Zico pela primeira vez estava no banco, com previsão de entrada no segundo tempo. Müller foi escalado no ataque ao lado de Careca, no lugar de Casagrande, depois de substituí-lo no segundo tempo dos dois jogos anteriores. E Josimar ganhou a posição na lateral direita — Telê achou que não valia a pena improvisar e promoveu a estreia na seleção de um rapaz de 24 anos que não disputava uma partida oficial havia quase três meses.

O placar já marcava 1 a 0 para o Brasil aos 43 minutos do primeiro tempo. Era a melhor atuação da Seleção na Copa e Josimar fazia partida discreta, sem brilhar nem comprometer. Então, aos 41 minutos, ele recebe passe de Júnior e, da intermediária, olha para o gol da Irlanda do Norte. Ali, havia uma lenda: Pat Jennings, que completava 41 anos naquele dia, um dos maiores goleiro britânicos de todos os tempos, o homem que conseguia ser ídolo de duas torcidas inimigas, Tottenham e Arsenal, que fazia seu jogo 119 pela seleção nacional, que havia disputado as Eliminatórias da Copa de 1966, quando Josimar mal havia saído das fraldas.

Jennings estava adiantado, quase na risca da pequena área. Josimar não quis nem saber. Elzo correu nas costas do lateral-esquerdo, mas o camisa 13 optou pela bomba cruzada. A bola encobriu Jennings e acertou em cheio o canto superior direito da rede. Josimar correu para o banco com os braços abertos e a cara de quem não acreditava no que havia acabado de fazer: escrever seu nome na história das Copas do Mundo. O Brasil ainda faria 3 a 0 com Careca, numa bela tabela com Zico, e ia empolgado para as oitavas de final.

O adversário pela frente era a Polônia. Engasgada na garganta desde a derrota na decisão do terceiro lugar de 1974 e terceira colocada em 1982, a seleção europeia deu trabalho. O Brasil fez 1 a 0 no primeiro tempo, com Sócrates de pênalti, mas o jogo seguia tenso e equilibrado. Boniek havia acertado Careca num lance sem bola. Carlos havia feito várias defesas. Aos 9 minutos do segundo tempo, Sócrates cobra falta na barreira, e a bola sobra para Josimar, que vence três poloneses para marcar mais um golaço, ainda mais bonito que o primeiro, com direito a drible, disputa no pé de ferro e chute sem ângulo morrendo, de novo, na lateral da rede. Edinho e Careca completariam a goleada por 4 a 0.

Cheio de otimismo, o Brasil chegou a sonhar com uma vingança do Sarriá, mas no dia seguinte a Itália caiu nas oitavas para a França, 2 a 0. Daqui para a frente, todos sabem da história: Zico, os pênaltis, a eliminação. Josimar voltou ao Botafogo, renovou seu contrato e ainda teve algumas chances na seleção até 1989 — esteve no elenco campeão da Copa América. No mesmo ano, foi um dos protagonistas da campanha do histórico título carioca do Botafogo, conquistado em cima do Flamengo, que acabou com duas décadas de jejum. Jogou ainda no Sevilla, no Flamengo e no Internacional, para depois alternar excessos com mulheres e noitadas, enfileirar uma série de clubes e encerrar a carreira com a camisa do Mineros de Guayana, da Venezuela. Fugaz como um cometa, mais brilhante que o Halley.


Os comentários estão desativados.