Desde o último sábado, até a véspera da abertura da Copa, publicaremos uma série de especiais sobre a história dos Mundiais na televisão brasileira. Nesta sexta-feira, a sétima parte, sobre a Copa de 1990. Clique aqui para conferir os textos anteriores.

Clubes tradicionais. Uma seleção ainda mais tradicional. Um campeonato recheado de estrelas do futebol mundial, nos times grandes e nos pequenos também. Era certo: não havia Eldorado maior para quem gostasse do ludopédio no fim dos anos 1980 e início dos anos 1990 do que a Itália. Para a felicidade de todos, seria o país-sede da Copa de 1990. E nela, a RAI (Radiotelevisione Italiana, ou Radio Audizione Italiana), geradora das imagens para o resto do mundo após pagar à Fifa US$ 50,8 milhões para ser a detentora mundial dos direitos – aumento de 85% em relação à Copa de 1986 -, buscaria alguns avanços tecnológicos notáveis numa transmissão de um jogo de futebol. Como a “câmera do impedimento”: colocada sobre minitrilhos no alto do estádio, facilitaria a análise sobre as jogadas de posição irregular, nos replays. Além do mais, os caracteres que já faziam a fama nas transmissões do Campeonato Italiano, criados pela Olivetti, ficariam ainda mais marcantes no Mundial – como esquecer as bandeiras tremulando para lados diferentes, ou os países sendo localizados no globo terrestre antes das partidas?

Mas as televisões brasileiras não puderam explorar muito essas novidades. O “Plano Brasil Novo” – popular e famigeradamente conhecido como “Plano Collor” – restringiu não somente o limite das contas correntes e cadernetas de poupança dos brasileiros a 50 mil cruzeiros/cruzados novos: restringiu também as possibilidades das emissoras investirem na cobertura para a Copa da Itália. Restou apostar nas possibilidades financeiras dos anunciantes. Com isso, duas das emissoras que exibiram aqui a Copa saíram em vantagem; as outras duas – uma das quais inesperadamente – fizeram coberturas menores do que as que aguardavam. Todas haviam cumprido a exigência de mostrar os Jogos Olímpicos, em 1988. E todas se cotizaram num pool, para comprar os direitos de transmissão por US$ 6 milhões da OTI – última vez em que a prática do pool aconteceu na televisão brasileira.


Vinheta de abertura do SBT na transmissão da Copa de 1990. Postado no YouTube por Juliano Trindade.

SBT

Narração: Luiz Alfredo, Ivo Morganti e Carlos Valadares
Comentários: Telê Santana, Orlando Duarte, Emerson Leão, Sócrates e João Carlos Albuquerque
Reportagens: Luiz Ceará, Paulo Lima e Hermano Henning
Apresentações: Roberto Cabrini, Kitty Balieiro e João Carlos Albuquerque

Em 1986, o SBT já pudera transmitir a Copa, contando com o pool formado junto da Record. Quatro anos depois, teria de fazer tudo sozinho. Para piorar, a emissora paulista foi mais uma a sofrer com o Plano Collor: a intenção de levar 65 pessoas à Itália foi abortada com a decisão da equipe econômica liderada por Zélia Cardoso de Mello, a ministra da Fazenda. Assim, apenas 10 pessoas iriam para o país-sede da Copa. O que não queria dizer que a cobertura seria inviável. Afinal, vindo do “Show do Esporte” da TV Bandeirantes em 1988 para liderar a equipe de esportes do canal, o repórter Roberto Cabrini vinha obtendo resultados elogiados, mesmo numa emissora não muito conhecida pelas transmissões de modalidades, inferior à concorrência em termos de equipamento.

Ao longo de 1989, com a Copa como objetivo, Cabrini foi incrementando a equipe de esportes, com a ajuda do superintendente do SBT, Luciano Callegari (e do filho deste, Luciano Callegari Jr.). Já havia alguns nomes a serem reaproveitados, como os narradores Ivo Morganti e Carlos Valadares e o repórter Luiz Ceará, além do comentarista João Carlos Albuquerque, mas era necessário mais. Em junho, após proposta, Luiz Alfredo decidiu deixar a Globo para ser o locutor principal de uma emissora, pela primeira vez na carreira. Antes das Eliminatórias, ainda chegou Orlando Duarte, experimentado dos tempos de TV Cultura, para ser o comentarista. Na qualificação brasileira, o ex-jogador convidado era Dario – sim, o “Dadá Maravilha”, o “Príncipe”, o “Beija-Flor” -, mas isso mudou para a Copa. Já em 1990, três nomes de peso foram convidados: Sócrates (1954-2011), Emerson Leão e Telê Santana (1931-2006). O técnico voltaria à emissora em que já comentara amistosos da Seleção Brasileira em 1985, antes de seu retorno para as Eliminatórias da Copa de 1986 – então, o SBT chamava Telê de “o técnico dos técnicos”.


O gol de Careca em Brasil 1×0 Chile, pelas Eliminatórias da Copa de 1990, com o vídeo da transmissão da TV Globo e o áudio do SBT, com narração de Luiz Alfredo. Postado no YouTube por Êgon Bonfim

Já não era bem assim em 1990, mas Telê foi incluído na equipe de transmissão para os jogos da Seleção Brasileira, enviado à Itália junto de Luiz Alfredo e Orlando Duarte. Pelo menos, nos três jogos da equipe na fase de grupos: recém-contratado pelo Palmeiras, Telê se comprometeu a voltar da Itália para comandar o time palestrino na reta final do Campeonato Paulista. Foi exatamente o que fez, chegando ao Palestra Itália em 22 de junho. Sem, no entanto, deixar de lado a cobertura do SBT: Telê seguiu comentando as partidas mais importantes, dos estúdios da emissora no bairro paulistano da Vila Guilherme. Rotina que já era conhecida por Emerson Leão: treinando a Portuguesa na época da Copa, Leão comandava os treinos da Lusa pela manhã, e à tarde comentava os jogos dos estúdios – nos quais estavam os narradores restantes da equipe, ora Ivo Morganti (um ano antes de ser um dos apresentadores do histórico “Aqui Agora”), ora Carlos Valadares (só então adotando os bordões pelos quais ficou conhecido, como “não tem coré-coré”, para minimizar reclamações após gols, ou “balançou a roseira” no lance do gol). Alternando-se com Leão nos comentários, estava João Carlos Albuquerque, em sua segunda Copa – coube ao “Canalha” comentar o Camarões 2×1 Colômbia do erro de René Higuita, com Morganti narrando.


Itália 2×0 Uruguai, pelas oitavas de final da Copa de 1990, na transmissão do SBT, com narração de Carlos Valadares narrando e comentários de Leão e Telê Santana. Postado no Dailymotion por Bruno Cabral


Irlanda 0(5)x0(4) Romênia, pelas oitavas de final da Copa de 1990, na transmissão do SBT, com narração de Ivo Morganti e comentários de João Carlos Albuquerque. Postado no Dailymotion por Bruno Cabral


Inglaterra 3×2 Camarões, pelas quartas de final da Copa de 1990, na transmissão do SBT, com narração de Carlos Valadares e comentários de João Carlos Albuquerque. Postado no Dailymotion por Bruno Cabral

As reportagens se focavam mais no Brasil do que na Itália: no local dos jogos, só estavam Luiz Ceará e Paulo Lima. Nos estúdios da Vila Guilherme, Kitty Balieiro (já colaborando com o SBT desde os Jogos Olímpicos de 1988) apresentava o “Copa das Copas”, boletim das notícias do dia. Com 38 jogos exibidos ao vivo, os 14 restantes do Mundial tinham os VTs apresentados no “SBT Itália 90”, à meia-noite, com Roberto Cabrini ancorando também dos estúdios. A emissora de Silvio Santos ainda tinha 32 pessoas, cobrindo a torcida das principais colônias cujas seleções estavam na Copa. Tudo sob o comando de Roberto Cabrini e seu parceiro na direção de esportes do SBT: Michel Laurence (1938-2014). Experiente no jornalismo impresso e no televisivo – já passara por Globo, Bandeirantes e Record àquela altura -, o francês naturalizado explicou ao “Jornal do Brasil” de 27 de maio de 1990: ‘Vamos nos concentrar nas notícias locais”.

Você assistiu à Copa do Mundo no SBT, entre 1990 e 1998? Então se lembra deste simpaticão – aqui, em sua primeira roupagem (Reprodução)

Mas daquela cobertura, talvez nenhuma transmissão do SBT tenha ficado tão marcada quanto uma invenção, vinda do Departamento de Criação Visual da emissora paulista. O designer gráfico Yastake Fassimoto criou o personagem, e a equipe formada por Fernando Pelégio, Everálvio de Jesus, Ângelo “Macarrão” Ribeiro e Luiz Wanderlei de Lima o viabilizou. Era para ele se chamar “SBTão”. Mas ganhou o nome de “Amarelinho”. Interagindo com Luiz Alfredo nos jogos da Seleção – comemorando os gols marcados, chorando os gols sofridos, torcendo no começo das partidas, suspeirando nas chances perdidas -, o Amarelinho já apareceria no clipe musical do SBT para 1990. Ele se tornaria o grande símbolo do SBT nas Copas. E voltaria em 1994, assim como outros personagens da cobertura.

Anúncio de jornal da TV Manchete para a cobertura da Copa de 1990. Em pé: Paulo Stein e Márcio Guedes. Abaixo: Zagallo, Osmar Santos, Armando Marques, Falcão, Osmar de Oliveira e João Saldanha (Reprodução/Thiago Uberreich)

Manchete

Narração: Paulo Stein, Alberto Léo, Osmar Santos, Osmar de Oliveira, Halmalo Silva e Ivan Mendes
Comentários: Falcão, Zagallo, João Saldanha, Márcio Guedes, Armando Marques e Roberto Dinamite
Reportagens: Márcio Guedes, Antonio Stockler, Paulo César Andrade, Antônio Petrin, Isabel Tanese, Eli Coimbra, Luiz Carlos Azenha, Luis Cosme e Renato Incarnação
Apresentações: Mylena Ciribelli, Osmar de Oliveira

O investimento da Manchete para a Copa de 1990 já não podia ser tremendo: afinal, os esforços da emissora carioca iam para “Pantanal”, a novela de Benedito Ruy Barbosa que ameaçou o reinado da Globo na audiência da faixa das 20h. Mas também foi ousado. Nem o Plano Collor intimidou a emissora carioca: foram 7 milhões de dólares investidos na construção de um estúdio, dentro do IBC em Roma. Os destaques de 1986 estavam lá: Paulo Stein, Márcio Guedes, Armando Marques, Alberto Léo, Halmalo Silva. Outros vieram: Zagallo seria o comentarista dos jogos principais, Osmar de Oliveira seria mais um narrador na equipe e, principalmente, Osmar Santos, na Manchete desde 1987 (apresentava o “Osmar Santos Show”, programa de auditório), que narraria os jogos do Brasil. Mas nenhuma outra aposta do canal era tão grande quanto numa novidade nos comentários: Paulo Roberto Falcão, estreando em imprensa numa Copa, para comentar as partidas importantes junto de Zagallo. Como não faltava intimidade do “Rei de Roma” com o país-sede, ela foi aproveitada antes mesmo os jogos começarem: o diretor Nilton Travesso dirigia “A Itália de Falcão”, programa pré-Copa no qual o ex-jogador apresentava o Belpaese, indo a pontos turísticos e fazendo entrevistas. Não bastasse a iniciativa, Falcão foi apontado quase unanimemente como o melhor comentarista da televisão brasileira naquela cobertura. O que até contribuiu para sua escolha como sucessor de Lazaroni no comando da Seleção, logo após a Copa.

A cobertura continuava ousada: todos os 52 jogos exibidos (38 ao vivo, 14 em VT), vários programas (o matinal “Manchete na Itália”, a abertura “Raio-X do jogo”, o resumo semanal “Melhores momentos do jogo”), uma experiência notável (“Mulheres debatem”, primeira mesa redonda feminina em Copas na televisão brasileira, com Leda Nagle e Mylena Ciribelli mediando conversas que envolveram de Cristiana Oliveira – o grande destaque de “Pantanal”, como Juma Marruá – a Marta Suplicy, passando por Alcione, Luma de Oliveira, Luiza Brunet e Dona Zica), as participações no “Jornal da Manchete”, as edições diárias do “Manchete Esportiva”, o costumeiro debate dominical “Toque de Bola”, os boletins informativos ao longo de toda a programação (com repórteres como Isabel Tanese, Antônio Petrin – em sua primeira Copa – e Luiz Carlos Azenha). Mais uma música de incentivo na cobertura. Enfim, o plano da Manchete para a Copa continuava merecendo o nome de 1986: “Copa Total”.


Propaganda da TV Manchete para Argentina 0x1 Camarões, jogo de abertura da Copa de 1990, em 8 de junho

No entanto, nada disso importava muito os 50 membros enviados à Itália – além dos 650 (!) envolvidos na cobertura por todo o Brasil, todos liderados pelo chefe de eventos Mauro Costa e o coordenador geral Luiz Toledo. Um nome atraía a preocupação de todos na Manchete: João Saldanha. Com os pulmões cada vez mais comprometidos por um enfisema, em más condições de saúde, a viagem do comentarista de 72 anos à Itália estava contraindicada pelos médicos. No entanto, o apelido de Saldanha não era “João sem medo” à toa: insistia em viajar, mesmo recém-saído de uma internação por uma gripe. Como a direção da emissora hesitasse, ele mesmo se decidiu: ao final da transmissão de Brasil 9×1 Itália, amistoso comemorativo entre os integrantes das duas seleções na Copa de 1982, exibido uma semana antes do início da Copa, João anunciou que sua passagem para Roma estava comprada, à revelia, pagando a primeira prestação com dinheiro da poupança que mantinha com o filho. Na chegada ao aeroporto do Galeão, mais uma história para o longo anedotário de João. O jornalista Sebastião Nery o viu numa cadeira de rodas, esperando o embarque, e perguntou agradável: “João, tudo bem?”. Saldanha: “Tudo, sim, Nery. Só estou nessa cadeira de rodas de sacanagem”. No voo Rio-Roma, Saldanha passou mal na região do Recife. Mas se negou a descer, numa escala. Tomando oxigênio fornecido pela tripulação, conseguiu se recompor para o desembarque no aeroporto de Fiumicino.

João chegou. Ficou boa parte do tempo no quarto de hotel, acompanhado pela esposa Heloísa, por Paulo Stein, Armando Marques, Alberto Léo e medicado por Osmar de Oliveira (médico formado, vale lembrar). A bordo de uma cadeira de rodas, comentava alguns jogos, do IBC, normalmente narrados por “Dr. Osmar”. Num deles, inclusive, acrescentou outra história ao seu rosário. Osmar de Oliveira contou a Alberto Léo: “Eu ainda estava preparando meus papéis, faltavam 14 minutos para o início da transmissão, e de repente entramos no ar. Eu só tinha uma imagem ‘frisada’ do estádio com suas estruturas de ferro. Fiquei falando algumas informações que tinha, e aí o João bateu no meu ombro. Ele pediu a palavra e falou quase 10 minutos sobre a construção do estádio que usava telhas de entroncamento da estrada de ferro lá em Bari. Fez uma relação com o estádio da Ferroviária de Araraquara, em São Paulo. Eu estava boquiaberto com aqueles conhecimentos. Quando chamei o comercial, agradeci ao João e o cumprimentei. Ele me disse: ‘Não precisa agradecer, porque essa história é uma mentira. Eu inventei tudo para te salvar'”.

Enquanto isso, a Copa transcorria. Como Osmar Santos acumulava o trabalho na Manchete ao posto de narrador principal da Rádio Record paulista (na qual estava desde 1988), coube ao outro Osmar da equipe narrar o 2 a 1 da estreia brasileira contra a Suécia. De resto, Osmar Santos voltou para refazer com Zagallo a dupla da Copa de 1986 na TV Globo, nos jogos contra Costa Rica e Escócia. Ainda narrou Argentina 2×0 União Soviética e Camarões 2×1 Colômbia – neste, os gols de Roger Milla motivavam de Osmar um “très bien, Cameroon”, fazendo Márcio Guedes se divertir: “‘Très bien, Cameroon’ é boa, hein…”. Márcio ainda viveu experiência engraçada, acompanhando os treinos da Seleção. Dias antes da estreia, Sebastião Lazaroni comandara um treino supostamente secreto em Asti. “Supostamente”: o estádio ficou fechado, mas as casas das cercanias, não. Delas, se via o estádio do alto – e para elas foram todos os repórteres, fazendo as reportagens. Como retaliação, Lazaroni se negou a atender as emissoras de tevê, na entrevista coletiva do dia seguinte. Márcio Guedes estava nela, e não pôde fazer perguntas, como repórter e comentarista da Manchete. Mas tembém era colunista do jornal carioca “O Dia” – e na hora das perguntas dos jornais, foi respondido normalmente pelo técnico da Seleção.

De resto, Paulo Stein ficava com os jogos principais, tendo Osmar de Oliveira abaixo na hierarquia. Armando Marques ficava com os comentários de arbitragem. Até a eliminação brasileira para a Argentina, fazendo Osmar Santos citar os Engenheiros do Hawaii no final da transmissão da Manchete, abaixo, antes de encerrar sua participação na Manchete naquela Copa, se concentrando na Rádio Record:


Entrevista de Sebastião Lazaroni e encerramento da transmissão de Argentina 1×0 Brasil, pelas oitavas de final da Copa de 1990, na transmissão da TV Manchete, com narração de Osmar Santos e comentários de Zagallo e Falcão.

Saldanha, surpreendentemente, melhorava de saúde. Já conseguia se locomover sozinho, continuava comentando do IBC alguns jogos – como Alemanha 2×1 Holanda, nas oitavas de final -, ditava as colunas para o “Jornal do Brasil” enquanto sua filha Vera as escrevia. Finalmente, em 3 de julho de 1990, o ex-técnico da Seleção nas Eliminatórias da Copa de 1970 viveu seu último momento comovente: justamente na data do aniversário de seus 73 anos, Saldanha comentou a semifinal entre Itália e Argentina, de Roma, com Osmar de Oliveira, Falcão e Armando Marques em Nápoles. Antes da partida, um bolo de aniversário de toda a equipe para João, além dos telefonemas. Foi o esforço derradeiro.

No dia seguinte, 4 de julho, Saldanha teve uma crise respiratória, e se ausentou da cobertura da semifinal entre Inglaterra e Alemanha. Alberto Léo pensou: para Saldanha faltar, o problema parecia realmente sério. Era: no dia seguinte, ao visitar Zagallo no hotel em que este se hospedava, Alberto viu o momento em que Saldanha saía para a ambulância que o levaria à UTI do Hospital Santo Eugenio, no bairro de Eur, em Roma. A cobertura da Manchete terminaria com Osmar de Oliveira narrando o Itália 2×1 Inglaterra da decisão de terceiro lugar. Paulo Stein, Zagallo e Falcão debateram no “Toque de Bola” da véspera da final. Fizeram a transmissão do título da Alemanha contra a Argentina. E enquanto Lothar Matthäus levantava a taça, Paulo Stein falava com a voz embargada: “Homenageamos aqui João Saldanha, que não está ao nosso lado, dedicando a ele esse nosso trabalho”, enquanto um dos grandes símbolos esportivos da Manchete lutava pela vida.


A cerimônia de encerramento após o final da Copa de 1990, com a entrega da taça à Alemanha, na transmissão da TV Manchete, com a narração de Paulo Stein e os comentários de Zagallo e Falcão. A homenagem a Saldanha está a partir de 18min30s do vídeo

A luta acabou na manhã do dia 12 de julho, quatro dias após o final da Copa. A equipe da Manchete levantou voo para voltar ao Brasil desfalcada de João Saldanha: quase simultaneamente, ele morria, em Roma. Desfalcando a Manchete, o futebol brasileiro, o Brasil. Só as palavras de Paulo Stein ao UOL, em 2014, fornecem algum consolo para o que a Manchete viu naquele mês de Copa: “(…) O que me conforta é que ele morreu feliz, fazendo o que gostava. Lembro da alegria dele em estar em mais uma Copa do Mundo. Quando chegou na Europa, estava eufórico. E não sossegou enquanto não pegou sua credencial. Ele já vinha doente há uns dois anos. Se ficasse no Brasil, morreria triste”.

Anúncio de jornal para a cobertura da TV Bandeirantes na Copa de 1990 (Reprodução/Thiago Uberreich)

Bandeirantes

Narração: Luciano do Valle, Silvio Luiz, Jota Júnior e Marco Antônio Mattos
Comentários: Rivellino, Zico, Juarez Soares, Júlio Mazzei, Mário Sérgio, Sílvio Lancellotti e Giovanni Bruno
Reportagens: Flávio Prado, Gilson Ribeiro, Octávio Muniz, José Luiz Datena e Elia Júnior
Apresentações: Elia Júnior, Simone Mello, Luiz Andreoli

A Manchete tentou. Mas se havia uma emissora brasileira de televisão que realmente tinha pouco a temer, em tempos de Plano Collor, esta era a Bandeirantes. Primeiro, porque sua tradição esportiva só se fortalecera, da Copa de 1986 em diante. Primeiro, pela continuação do projeto da empresa de Luciano do Valle e José Francisco “Quico” Coelho Leal – não mais Promoação, e sim Luqui (“Lu” de Luciano, “Qui” de Quico). Depois, pela sequência do “Show do Esporte” e do “Esporte Total”. Em terceiro lugar, pela continuação de grandes iniciativas, como a Copa Pelé (torneio de seleções masters, em 1987 e 1989, rebatizado “Copa do Craque” em 1990) e a exibição do Campeonato Italiano, a partir de 1987. E finalmente, pelo fortalecimento da equipe esportiva: em 1987, após a Record rescindir contrato com ambos, tanto Silvio Luiz quanto Flávio Prado encontraram guarida na emissora do bairro do Morumbi.

Até por causa das transmissões da Serie A nas manhãs de domingo, nenhuma emissora podia se considerar tão preparada para a Copa de 1990. Assim, não faltou ambição à Bandeirantes, embalada por esta vinheta. Foram 120 pessoas enviadas à Itália, a maior delegação da tevê brasileira naquela Copa, sob a coordenação de João Esteves (diretor de eventos) e Paulo Mattiussi (diretor de jornalismo). Seguiam lá os destaques de 1986: Luciano do Valle, Juarez Soares, Rivellino, Júlio Mazzei, Jota Júnior, Marco Antônio Mattos. Silvio Luiz chegava para ser outro chamariz de audiência na narração. E até mesmo os comentaristas tinham algo com que contribuir. Desde o ano anterior na Bandeirantes, Mário Sérgio Pontes de Paiva (1950-2016) era novidade elogiada, por não ser corporativista com os jogadores em seus comentários. E se Pelé estaria na Globo, a Bandeirantes contrabalançava com Zico junto a Rivellino, Juarez e Luciano nas transmissões dos jogos do Brasil. Comentarista dos jogos do Campeonato Italiano, Silvio Lancellotti era outro convidado na Copa. Novamente, todos os jogos eram exibidos: 38 ao vivo, 14 em VT. Nas reportagens, além de Flávio Prado, Gilson Ribeiro e Elia Júnior, uma novidade que participava de sua primeira Copa: José Luiz Datena. Já com rapidíssima passagem pela Bandeirantes em 1987, Datena vinha da retransmissora da TV Globo na região de Ribeirão Preto (interior de São Paulo), na qual era famoso pelas reportagens bem humoradas.

A cobertura começava às 9h, com o pré-jogo para a primeira partida do dia, e só terminava à noite, com outra grande novidade da emissora. Numa ideia de Paulo Mattiussi, o debate do “Jornal da Copa” em 1986 ganhava edição independente e mais longa em 1990. Era o “Apito Final”. Sob o comando de Luciano do Valle, Zico, Rivellino, Mário Sérgio, Juarez Soares, Júlio Mazzei e Silvio Luiz comentavam o dia na Copa. Para contrabalançar os debates, o tom cultural vinha com algo pouco usual: um convidado musical – Toquinho, amigo pessoal de Luciano, acompanhante de futebol e dono de um público considerável na Itália. O neófito Toquinho foi “vítima” de várias brincadeiras dos mais velhos, nos estúdios do IBC em Roma, mas logo se aclimatou. A ponto de ter indicado à equipe da Bandeirantes um restaurante onde poderiam fazer jantares na madrugada romana, após o fim do “Apito Final”: o Santo Padre. Até hoje, os encontros no Santo Padre são lembrados por quem fez parte daquela cobertura.


Vinheta de abertura do “Apito Final”

Além dos debates, o “Apito Final” tinha o quadro “Repórter Surpresa”. Nele, José Luiz Datena fazia reportagens bem humoradas. Num dia, podia entrevistar a atriz pornô Cicciolina; no outro, esnobado pelo lateral alemão Andreas Brehme, fazia críticas a ele; em mais outro, um cochilo de Datena virava vinheta do “Apito Final”, com direito a cantiga de ninar como sonoplastia. Entre um programa e outro, havia espaço para divertidos jogos de futebol entre os craques comentaristas. No meio disso, a transmissão dos jogos.

Vinheta de abertura da TV Bandeirantes para a transmissão dos jogos da Copa de 1990.

Luciano do Valle, Zico, Rivellino e Juarez Soares sofriam nas partidas da Seleção Brasileira. No jogo da eliminação contra a Argentina, foi ainda pior. A ponto de um “pqp” de Juarez ter escapado parcialmente, no lance do gol de Claudio Caniggia. E da transmissão ter acabado rapidamente, com Luciano se poupando: “Melhor a gente falar pouco, porque, se falar agora, só vai sair besteira”.


Melhores momentos de Argentina 1×0 Brasil, pelas oitavas de final da Copa de 1990, na transmissão da TV Bandeirantes, com narração de Luciano do Valle e os comentários de Zico, Rivellino e Juarez Soares

Na final, Silvio Luiz, tendo acompanhado a maioria dos jogos da Alemanha (foram dele as narrações contra a Colômbia, na fase de grupos; a Holanda, nas oitavas de final; a Tchecoslováquia, nas quartas; e a Inglaterra, nas semifinais), recebeu a incumbência de narrar a final contra a Argentina. Narrou, com Juarez, Zico, Rivellino e Mário Sérgio nos comentários. Todos participaram do “Apito Final” que encerrou aquela cobertura, introduzido com a simulação divertida de uma festa alemã.


Melhores momentos de Alemanha 1×0 Argentina, final da Copa de 1990, na transmissão da TV Bandeirantes, com narração de Silvio Luiz e os comentários de Zico, Rivellino, Mário Sérgio e Juarez Soares

E a cobertura terminou com Toquinho cantando “Está chegando a hora”, junto a uma equipe completa no estúdio, fazendo festa por uma cobertura histórica, representando o auge da TV Bandeirantes. Que, mostrando com exclusividade o Campeonato Brasileiro de futebol no segundo semestre de 1990, justificava seu slogan: era, realmente, na época, o canal do esporte.


Vinheta de abertura das transmissões da TV Globo para a Copa de 1990

Globo

Narração: Galvão Bueno, Oliveira Andrade e Cléber Machado
Comentários: Pelé, Raul Plassmann, Chico Anysio e Arnaldo Cezar Coelho
Reportagens: Roberto Thomé, Tino Marcos, Luiz Fernando Lima, Ernesto Paglia, Carlos Dornelles, Ilze Scamparini e Lenise Figueiredo
Apresentações: Fernando Vannucci, Léo Batista e Isabela Scalabrini

“Se cada eventos desses dentro do ciclo de dois anos, entre Olimpíadas e Copas, tem a sua marca, a de 1990 foi a do Plano Collor.” Assim, no depoimento ao “Memória Globo” em 2007, começava a falar sobre o Mundial sediado na Itália Galvão Bueno – enfim, chegando ao posto de narrador da Globo nos jogos do Brasil e nas principais partidas do torneio. De fato, a cobertura da emissora dos Marinho tinha um planejamento antes e outro depois das medidas econômicas. Antes, a pretensão era voltar a levar cerca de 100 pessoas à Itália. Depois… Galvão se espantava, ao “Memória Globo”: “Eles tiraram a nossa cobertura, porque já havia todo um planejamento feito – e se faz o planejamento com muita antecedência. A gente não sabia mais nem se ia. Eu lembro que, na primeira reunião que o Boni [ainda vice-presidente de operações da Globo] fez, caiu para 15 o número de pessoas que iria cobrir a Copa”.

Ainda assim, a verba de US$ 14 milhões conseguida com os patrocinadores fez com que a Globo pudesse manter a viagem de 35 profissionais para a Copa, coordenados por Hedyl Valle Jr. e Ciro José (já fora da sociedade com J. Hawilla na Traffic, de volta à Globo como diretor executivo de esportes a partir de 1987). Muitos dos escolhidos já estavam no exterior, até, sendo reaproveitados (como os repórteres Carlos Dornelles, correspondente do canal em Londres, e Lenise Figueiredo, correspondente em Roma). Também ajudava o fato do Grupo Globo ter ações sobre a TMC (Telemontecarlo), emissora privada italiana com sede em Mônaco, que também exibiria a Copa – e cujas instalações serviram de base parcial para a cobertura da emissora, além do IBC em Roma. Tudo animado por outra cançoneta produzida especialmente para o torneio: “Papa essa Brasil”, lema da Globo na cobertura (o outro era citado no refrão: “Quem tem bola vai a Roma”, a cidade da final da Copa).

Também viajaram dois repórteres para cobrir a Seleção Brasileira: Roberto Thomé e Tino Marcos (este, em sua primeira Copa na emissora em que ainda está), acompanhados pelo câmera Daniel Andrade. Além dos dois, Luiz Fernando Lima se concentrava em acompanhar o resto da Copa, com sua “base volante” junto do câmera Cléber Schettini. Ernesto Paglia, repórter geral com experiência de correspondente em Londres nos anos anteriores, voltou a participar de uma Copa. Caberia a Fernando Vannucci apresentar dos estúdios da Telemontecarlo os blocos dos programas – “Jornal Nacional”, “Fantástico” e “Globo Esporte”. Também na Itália, colaboraria com a Globo Juca Kfouri: viajando como diretor de redação da revista “Placar”, Juca faria os comentários esportivos para o “Jornal da Globo”, no qual estava desde 1988. Finalmente, a Globo conseguiu o nome que buscava há anos para sua equipe em Copas: Pelé, enfim, seria o comentarista dos jogos do Brasil junto a Galvão Bueno, como já acontecera nas Eliminatórias.

Ainda na Itália, a principal novidade da emissora para a Copa seria não uma técnica, como o tira-teima em 1986, mas uma personagem: o comentarista de arbitragem. Não que tal papel fosse inédito numa cobertura esportiva: Flávio Iazetti já fizera tal papel na TV Record paulista, nos anos 1950, e Armando Marques já estava na TV Manchete, para nem falar de Mário Vianna e suas históricas intervenções na Rádio Globo carioca. No entanto, ele só passou a ter continuidade a partir de 1989. Começou com o polêmico sobrepasso de Taffarel, apitado pelo juiz colombiano Jesús Díaz Palacios, rendendo o gol do Chile no empate em 1 a 1 com o Brasil, nas Eliminatórias. Após muitas discussões sobre o que havia sido marcado por Palacios, o diretor de jornalismo Armando Nogueira, o diretor de esportes Leonardo Gryner e os chefes de redação Telmo Zanini chamaram um árbitro experiente: Arnaldo Cezar Coelho. Ele veio, deu uma palestra aos jornalistas da editoria de Esportes sobre o lance, e agradou.

No almoço em seguida à palestra, Armando convidou Arnaldo para ser o consultor técnico da TV Globo na arbitragem. Ainda na ativa, o juiz carioca declinou do convite. Ainda fez uma indicação, mas Leonardo Gryner lhe disse: era ele o nome. Após recusar, Arnaldo continuou apitando. Até 29 de outubro de 1989: naquele dia, Vasco e São Paulo jogaram pelo Campeonato Brasileiro, e Arnaldo decidiu de supetão que era sua última partida apitando. No dia seguinte, ligou para Leonardo Gryner e perguntou se o convite da Globo estava de pé. Estava. Pedindo um último conselho a Armando Marques, Arnaldo ouviu como resposta: “Quinze segundos de Globo dão mais audiência do que duas horas de Manchete”. Aceitou, estreou como comentarista de arbitragem em outro Vasco x São Paulo de 1989 – a final do Campeonato Brasileiro, em 16 de dezembro – e acompanhou Galvão e Pelé nos jogos principais. Junto ao convidado Júnior, o trio Galvão-Pelé-Arnaldo ainda figurava no “Bate-Bola”, debate noturno nos dias de jogos da Seleção, tendo como atrativo a presença exclusiva justamente do técnico Sebastião Lazaroni.


Vinheta publicitária da Globo com a apresentação do esquema de cobertura da Copa de 1990. Postado no YouTube por Êgon Bonfim

Mas os enviados à Itália ficaram nesses nomes. Todos os outros tiveram de ficar nos estúdios globais no Rio de Janeiro, coordenados por Alfredo Taunay. Isabela Scalabrini e Léo Batista apresentavam os noticiários esportivos, como o “Esporte Espetacular” e o “Globo Esporte”; os noticiários criados para a cobertura, como o “Esporte 90” e o “Bom Dia Itália” (informativo matinal sobre como seria o dia da Copa); e no caso de Léo, os melhores momentos (e o tira-teima para os lances duvidosos) na Itália. Também ficaram no Rio as outras equipes de narração e comentários, para um total de 38 jogos exibidos ao vivo – os outros 14 tiveram os lances exibidos nos noticiários. Oliveira Andrade fez sua primeira Copa como narrador fixo na TV Globo, junto a Raul Plassmann, principal comentarista da emissora desde 1987.

A terceira dupla trazia duas novidades para o canal. Embora já fosse reconhecido como um dos grandes personagens artísticos da televisão brasileira na época, Chico Anysio já não comentava partidas de futebol desde as décadas de 1950, quando passara pela Rádio Tupi carioca, e 1960, quando esteve na TV Excelsior. No entanto, em 1989, ao renovar contrato com a emissora, colocou uma condição: queria participar das transmissões de futebol. Foi aceito: além do semanal humorístico “Chico Anysio Show” e dos comentários para o “Fantástico”, Chico comentou os jogos da Copa América (sem Pelé) e das Eliminatórias (com Pelé). E fazia jus à fama. Em Bélgica x Coreia do Sul, ao ver uma alteração sul-coreana prestes a ser feita, brincou: “Vai entrar o Jaspion”; em Camarões 2×1 Colômbia, trocadilhou: “A saída do Mfédé [substituído por Roger Milla] vai deixar o time mais perfumado”. Mas Chico soube falar sério quando necessário. Foi ácido ao observar a convocação de Lazaroni – mesmo com simpatia pelo Vasco (e pelo Palmeiras, e pelo América – torceu pelos três ao longo da vida), o cearense de Maranguape fulminou: “Eu queria que meus filhos gostassem de mim o tanto que Lazaroni gosta do Tita e do Bismarck”. E no comentário do “Fantástico” do 24 de junho horas após a eliminação brasileira, retratou a irritação do torcedor.


Comentário de Chico Anysio no “Fantástico” de 24 de junho de 1990, horas após Argentina 1×0 Brasil, pelas oitavas de final da Copa de 1990. Postado no YouTube por Fábio Marckezini

Para narrar os jogos a serem comentados por Chico Anysio, uma novidade global. Que começara sua carreira no rádio paulistano: primeiro em 1979, como radioescuta da Tupi, depois integrando os departamentos artístico e comercial da Bandeirantes. Em 1982, passou para a equipe de Osmar Santos na rádio Globo, como repórter. Em 1985, estreou na TV Gazeta, ancorando o programa “Sábado Esporte” e sendo repórter nas transmissões – ostentando barba. Na Gazeta, a novidade ficou até 1988, quando foi contratado pela Globo – indo a princípio para a TV Globo Vale do Paraíba (hoje, TV Vanguarda), retransmissora paulista da emissora na região de São José dos Campos. Suas reportagens passavam na edição paulista do “Globo Esporte”, e ele próprio começou a fazer plantão na capital paulista, além de narrar compactos do “Esporte Espetacular”, tudo isso já em 1989. Àquela altura, a Globo buscava um narrador após a saída de Luiz Alfredo, e já tinha achado sua opção: Jota Júnior, da TV Bandeirantes.

No documentário “Jota Júnior: a outra face do gol” (produzido por Beatriz Cesarini, Gustavo Amorim, Leonardo Levatti e Victor Lopes), Galvão Bueno revelou: seu contemporâneo dos tempos de Rádio Gazeta estava praticamente acertado. Na última hora, após conversa com Luciano do Valle e Quico Leal, diretores da Luqui e comandantes do esporte na Bandeirantes, Jota desistiu da transferência. Caminho aberto para a novidade global da narração: Cléber Tadeu Machado, 28 anos em 1990. Seriam de Cléber narrações para jogos como o Camarões 2×1 Colômbia – o jogo do erro de René Higuita no segundo gol. Ouvido pelo colega de TV Globo Bob Faria para o livro “Grito de gol: as vozes da emoção na tevê” (Leitura, 2011), Cléber rememorou: “Eu era ‘verdinho’ à beça, mas acho que fiz direitinho”.

No Brasil, além das narrações de Oliveira e Cléber, haveria ainda outra interação. Não era a primeira vez que se faria um sorteio de prêmios com a Copa como pano de fundo (a Bandeirantes já fizera a “Copa de Prêmios” em 1986). Mas Fausto Silva já era um dos chamarizes de audiência, com seu “Domingão” lançado em 1989. E caberia a ele promover os sorteios do “Bolão do Faustão”: um cupom, vendido nas agências dos Correios, tinha a pergunta sobre quantas vezes o Brasil já fora campeão mundial até ali, para o comprador respondê-la e enviá-la. A cada partida da Copa, três cupons eram sorteados na abertura da transmissão, de acordo com as apostas de resultado (vitória de uma seleção, da outra ou empate). No final do jogo, o sorteado vinculado ao resultado certo ganharia um carro zero quilômetro – junto a mais outro sorteado avulso. Não bastasse, Faustão ainda ficava a postos para piadas durante as transmissões. Em algumas partidas da Itália, fazia trocadilhos com o sobrenome do grande destaque da Azzurra: “Tem o Schillaci e o ‘Squimordi’…”. Em Alemanha 1×1 Colômbia, a piada foi com Valderrama (“Esse aí tem o famoso cabelo ‘espanador de pó'”) e com a própria seleção colombiana (“Esse time da Colômbia é do tempo que ‘aspirar uma carreira’ era só almejar um futuro brilhante”). Em Brasil 2×1 Suécia, incentivou a Seleção citando um filme, com novo trocadilho: “Vêm aí os ‘Canhões de Lazaroni’!”.


O resultado do “Bolão do Faustão” para Brasil 2×1 Suécia, após o final do jogo. Postado no YouTube por Êgon Bonfim

Por sinal, uma das edições do “Bolão do Faustão” quase prejudicou a carreira de Oliveira Andrade. Narrando Tchecoslováquia 5×1 Estados Unidos, em 10 de junho de 1990, o narrador de Campinas escutou um apito, já por volta dos 45 minutos do segundo tempo, com o placar em 4 a 1 para os tchecos. Imaginou que fosse o juiz suíço Kurt Röthlisberger encerrando o jogo, e finalizou os trabalhos abrindo espaço para Fausto Silva. Mas não era: o apito tinha vindo da torcida. Pior: nos acréscimos, Ivan Hasek ampliou para 5 a 1. Pior ainda: sem usar ponto eletrônico (até hoje, prefere não usar), Faustão não soube, e o “Bolão” seguiu até o fim. Só depois, Léo Batista pôde chamar Oliveira de volta, e este comentou o quinto gol. Deixou o estúdio pensando que seria sumariamente demitido, ainda mais após Boni o chamar. Mas o editor Marco Mora, junto a Oliveira, colocou outro assunto na conversa, o erro foi esquecido por Boni, e o locutor seguiu na cobertura – e na Globo.

Durante a cobertura, os enviados à Itália trabalhavam duro. Galvão Bueno se lembrou ao “Memória Globo”: “Era uma correria. E íamos para lá, e voltávamos para cá… e todo mundo tinha de fazer tudo, porque o corte foi grande, e não tinha jeito”. De fato: não foram raras as vezes em que Galvão era o repórter, conversando com Pelé sobre as notícias do dia. Ou até mesmo que Arnaldo fizesse entrevistas: como com um guarda de trânsito em Roma (que lhe “deu” um cartão vermelho) ou com José Roberto Wright, juiz brasileiro naquela Copa. Ou então, era comum ver as transmissões da Globo serem feitas do IBC em Roma – foi assim com a narração de Galvão para o Inglaterra 1×0 Bélgica das oitavas de final. O corte de custos também foi notável no fato de Galvão ter sido o narrador das duas semifinais (tanto do Itália x Argentina em Nápoles, com Pelé e Arnaldo Cezar Coelho, quanto do Inglaterra x Alemanha em Turim, com Raul Plassmann e Arnaldo).

Nos jogos do Brasil, angústia. No intervalo de Brasil x Argentina da eliminação brasileira nas oitavas de final, com as chances perdidas nos 45 minutos iniciais, Galvão comentou com Pelé: “Estou preocupado”. Dito e feito: o 1 a 0 da Albiceleste rendeu vários lamentos dos três, nos minutos finais da transmissão. Abalado, Galvão chegou a dizer a uma rádio, que o ouviu após o jogo: “Eles não tinham o direito de fazer isso comigo”. O clima triste se estendeu pelo “Bolão do Faustão” e pelo fechamento da transmissão, com Léo Batista e Raul Plassmann.

O segundo tempo de Argentina 1×0 Brasil, nas oitavas de final da Copa de 1990, na transmissão da TV Globo, com Galvão Bueno, Pelé e Arnaldo Cezar Coelho – o gol de Caniggia está aos 37min29


O final da transmissão da TV Globo para Argentina 1×0 Brasil, com o “Bolão do Faustão”, a apresentação de Léo Batista e os comentários de Raul Plassmann.

Assim, a cobertura da TV Globo foi inesperadamente humilde. Talvez por isso, talvez pelo nível técnico da Copa, Galvão comentou com Faustão no intervalo do Alemanha 1×0 Argentina que deu o título aos germânicos: “Não fica muita coisa a se lembrar, não”. O que mudaria bastante em 1994…


Melhores momentos de Alemanha 1×0 Argentina, final da Copa de 1990, na transmissão da TV Globo, com a narração de Galvão Bueno e os comentários de Pelé e Arnaldo Cezar Coelho (Raul Plassmann também participou da transmissão)

Na próxima parte: em 1994, enfim o alívio do título mundial. Na Globo, Galvão Bueno vive emoção “ridícula” (para ele) e histórica; na Band, Luciano do Valle extravasa; no SBT, Luiz Alfredo vive momento familiar marcante. E devagar, entra a tevê por assinatura