Desde o último sábado, até a véspera da abertura da Copa, publicaremos uma série de especiais sobre a história dos Mundiais na televisão brasileira. Nesta terça-feira, a quarta parte, sobre a Copa de 1978. Clique aqui para conferir os textos anteriores.

Aos poucos, a televisão brasileira ia avançando tecnologicamente. Em 1978, já poderia dizer que estava mais avançada do que a Argentina. Pois é: a Copa do Mundo voltaria a ter o país-sede enfrentando problemas sérios para viabilizar as transmissões de tevê do torneio.  Em 1977, os argentinos não tinham ainda sistema de transmissão a cores – nem para eles, nem para o resto do mundo. Urgia resolver a questão. Até porque, segundo a Fifa, seriam dois bilhões de telespectadores para o Mundial – no Brasil, cerca de 40 milhões, com 14,8 milhões de televisores.

Novamente, o poder estatal entrou em ação. O Ente Autárquico Mundial ’78 (órgão criado pela junta militar que governava a Argentina, para controlar todos os assuntos da preparação para a Copa) investiu 60 milhões de dólares na construção de uma moderna emissora. Era a Argentina Televisora Color – mais conhecida como ATC’78. Com ajuda do governo e auxílio técnico de outras fontes (uma delas, a TV Globo brasileira), o Ente Autárquico Mundial ’78 ainda construiu não somente um, mas dois centros internacionais de transmissão para a Copa: um em Buenos Aires, no Centro Cultural General San Martín, e outro em Mar del Plata, no Centro Externo Boulevard Marítimo. Ambos, com os equipamentos de ponta dos quais a Argentina necessitava para poder exibir a Copa a cores. O mundo se aliviou… mas não o país-sede: os próprios argentinos assistiram ao torneio em preto e branco.

Já no Brasil, as condições de transmissão aumentavam. A preferência ainda era pelos televisores que funcionavam em p&b (cerca de quatro vezes mais baratos do que uma “televisão colorida” nas lojas), mas as transmissões a cores se popularizavam. Assim como um famoso método de exibição pública dos jogos, que começara em 1974 e crescia pouco a pouco: o “telão”. Chamado de “TV projetada”, podia tanto ser vendido para uso particular nas casas – como um projetor adaptável a uma tela de tevê – como podia ter o uso para grandes multidões. Foi o que se fez em São Paulo: as quatro emissoras com sede no estado que exibiram a Copa possibilitaram que o sinal fosse mostrado em locais de grande concentração popular na capital paulista, como a Avenida Paulista e o Vale do Anhangabaú.

Por falar em emissoras, quatro delas organizaram um pool para comprar os direitos de transmissão: pagaram US$ 7 milhões à OTI (Organização das Televisões Iberoamericanas – já citada em 1974, que terá sua criação mais descrita no texto de 1982), e puderam mostrar a Copa do Mundo. Duas delas ganharam a cessão posterior dos direitos. E assim, seis emissoras tiveram as imagens da Argentina. Até então, era a maior transmissão brasileira para uma Copa. Algo notável até no número de jogos ao vivo: haviam sido 11 em 1970, 19 em 1974, e seriam 27 dos 38 jogos de 1978. E também notável no incremento das transmissões: se antes começavam já durante os hinos, a partir de então haveria espaço para um “pré-jogo”, com o sinal do estádio entrando 15 minutos antes do início das partidas.

Se as transmissões da TV Gazeta paulista tinham uma voz no esporte, esta era a de Peirão de Castro (Reprodução)

Gazeta

Narração: Peirão de Castro
Comentários: Helenio Herrera e Ulises Barrera

Se fizera parte do SIBRATEL em 1974, a emissora da Fundação Cásper Líbero teve alcance e estrutura muito menores quatro anos depois. Apenas o locutor Peirão de Castro foi enviado à Argentina, para a narração dos jogos. Ainda assim, os comentaristas que Peirão teve a seu lado tinham tradição e conhecimento inquestionáveis: o jornalista argentino Ulises Barrera (1925-2005) e Helenio Herrera, nascido no país para se naturalizar francês e ser um dos grandes técnicos da Europa nos anos 1960 – destaque para o comando da “Super Inter” bicampeã europeia em 1964 e 1965, além do comando da seleção espanhola na Copa de 1962. Além das partidas ao vivo, Peirão (santista de nascimento e de time do coração, apresentador do já tradicional “Mesa Redonda”) também narrava os VTs.

Curiosamente, uma edição do “Mesa Redonda” pouco antes da Copa, em 21 de maio de 1978, acabou rendendo a primeira participação de um médico – mas já estudante de Jornalismo – na imprensa, em que também se tornaria conhecido. Ainda um dos convocados por Cláudio Coutinho, o lateral direito Zé Maria sofria com renitentes dores no joelho, que causariam seu corte antes da lista final de 22 convocados brasileiros. Na mesa, Osmar de Oliveira (1941-2014), médico do Corinthians, descreveu a lesão, mas também participou das discussões posteriores.

O que aconteceu depois? O próprio revelou a Alberto Léo: “Vários telespectadores telefonaram para elogiar. No final do programa, o [Roberto] Petri me disse: ‘Você, além de médico, tem jeito para a tevê’. Respondi que estava fazendo a faculdade no próprio prédio [Cásper Líbero, pertencente à mesma fundação da TV Gazeta]. Então ele me disse: “Olha, mais alguns dias, todos nós vamos para a Argentina cobrir a Copa. Se você quiser, pode ficar aqui fazendo alguns comentários, que depois nós mandamos uma carta para a faculdade e isso pode te ajudar. Topei na hora e não me preocupei com a tal carta”. Estava começada a carreira jornalística de “Dr. Osmar”.

Cultura

Narração: Luiz Noriega, José Carlos Cicarelli, Wagner Luis, José Cunha
Apresentação: Carlos Eduardo Leite
Comentários: Jorge Vieira

As emissoras educativas viram o mesmo roteiro de 1974. A princípio, não exibiriam a Copa. E já preparavam uma programação alternativa, com concertos, debates sobre filmes e os “teleteatros”. No entanto, a três dias de Alemanha Ocidental e Polônia empatarem sem gols na primeira partida da Copa, o Ministério da Educação liberou 3,2 milhões de cruzeiros. Graças a eles, novamente na última hora, as tevês estatais poderiam exibir o Mundial. Havia até a possibilidade de que elas formassem uma “Rede Educativa”. No entanto, desacertos de horários impediram-nas de formarem tal cadeia.

Restou às grandes emissoras da rede – a TV Cultura em São Paulo, a TVE no Rio de Janeiro – exibirem as imagens da Argentina, mas com todos os narradores aqui. Na Cultura, Luiz Noriega narrou os jogos do Brasil, mas coube a José Carlos Cicarelli cobrir a final entre Argentina e Holanda, ao passo que José Cunha e Wagner Luis eram os narradores da TVE fluminense. Nos intervalos dos jogos, Carlos Eduardo Leite apresentou os melhores momentos, com o técnico Jorge Vieira como convidado especial, para as análises

Luiz Noriega narrando Brasil 2×1 Itália, decisão do terceiro lugar na Copa de 1978. Imagens reprisadas no programa “Grandes Momentos do Esporte”, da TV Cultura, entre 2009 e 2010

Tupi

Narração: Walter Abrahão, Batista Filho e Fernando Sasso/José Góes
Comentários: Geraldo Bretas, Milton Collen, Ivo Amaral e Ataliba Guaritá Neto/Antonio Eurico
Reportagens: Eli Coimbra, Luis Carlos Alves, Ivan Mendes

A primeira emissora da história da televisão brasileira já agonizava com sua crise financeira. Ainda assim, tentava seguir no esporte, uma de suas tradições. Não era fácil. Antes mesmo da Copa de 1978, o publicitário Mauro Salles fora contratado para reabilitar as emissoras de tevê dos Diários Associados, como vice-presidente da entidade. Contratou Sérgio de Souza (1934-2008) para chefiar o jornalismo da Tupi. Este, por sua vez, contratou Juca Kfouri para ser o diretor de esportes do canal – e Juca aceitou deixar a revista “Placar”, onde já era chefe de reportagem desde 1974.

No entanto, numa das reuniões de planejamento das emissoras que transmitiriam a Copa, Kfouri notou os problemas: “Na hora de dividir os jogos que seriam transmitidos, a Globo escolhia um. Eu pedia para escolher outro, e o diretor da Globo dizia: ‘Não, será esse’. Aí eu protestei com o diretor comercial da Tupi, Rubens Furtado: ‘Aí nos prejudica. Eu não quero concorrer com a Globo, porque eu já sei que vou perder. Eu quero mostrar outra opção’. Ele me responde: ‘Juca, pega leve, porque a Globo é quem está pagando a conta. A gente ainda deve para eles o rateio de 1970 e 1974…’.'” E antes mesmo do Mundial ficar perto, o diretor de esportes – e todos os outros empregados do departamento de jornalismo – deixaram a Tupi, exatamente pelo atraso de salários. Restou a Juca voltar à “Placar”.

(Vinheta de anúncio das transmissões da Tupi para a Copa de 1978. Arquivo do Banco de Conteúdos Culturais da Cinemateca Brasileira, postado no YouTube por Êgon Bonfim)

Ainda assim, a Tupi embarcou para a Copa do Mundo liderando a rede dos Diários Associados com uma equipe experiente – a começar pelo coordenador, José de Almeida Castro. Walter Abrahão fez sua quinta edição de Mundial como narrador principal da emissora, fazendo os jogos do Brasil e os outros mais importantes. A seu lado, estavam Milton Collen, egresso da TV Globo na Copa anterior, e Geraldo Bretas, também veterano da Tupi em 1970 e 1974. Nos outros jogos, os narradores eram Batista Filho, cedido pela TV Piratini gaúcha, e Fernando Sasso, ambos também enviados à Argentina.

(Walter Abrahão narrando o gol de Roberto Dinamite em Brasil 1×0 Áustria, último jogo brasileiro na primeira fase da Copa. Exibido pela TV Cultura paulista, no programa “Grandes momentos do esporte”)

Além dos jogos ao vivo, também havia os VTs noturnos. Neles, a narração ficou novamente a cargo de José Góes, nos estúdios do Brasil, como na Copa de 1974. Mas agora havia um comentarista a acompanhar Góes: Antonio Eurico, também fazendo o popular “tubo”. Além disso, ambos ficavam a postos para a narração e os comentários, caso houvesse problemas de áudio com a equipe na Argentina. E também apresentavam o “Boletim Argentina 78”, em duas edições: às 12h (Góes apresentando, em dez minutos) e às 21h25 (Eurico apresentando, em cinco minutos) – o noticioso da Copa ainda tinha uma edição aos domingos, com 15 minutos, às 22h45. No “Grande Jornal Tupi”, principal noticiário da emissora havia ainda o “Boletim da Copa”, com Cévio Cordeiro, Lívio Carneiro e Fausto Rocha, em apresentações alternadas entre Rio e São Paulo. Assim foi a cobertura para a última Copa do canal: vencida pela crise financeira, a Tupi fechou as portas e teve seu transmissor lacrado em 18 de julho de 1980.

Bandeirantes quase desistiu de transmitir a Copa. Mas esteve na Argentina (Reprodução de jornal/Thiago Uberreich)

Bandeirantes

Narração: Fernando Solera, Galvão Bueno e Alexandre Santos
Comentários: Márcio Guedes, Alberto Helena Jr., Paulo Stein e Larry Pinto de Faria
Reportagens: Chico de Assis

A emissora paulistana chegou a pensar em nem transmitir a Copa. No entanto, motivada pela grande tradição que a rádio do mesmo grupo tinha em esportes (e que a televisão começava a seguir, integrante do pool em 1970 e do SIBRATEL em 1974), a Bandeirantes foi a mais uma Copa. Na equipe comandada por Darcy Reis (1933-1989), diretor de esportes, Fernando Solera era o mais experiente: afinal, narraria sua terceira edição de Mundial, também no local. E teria ao lado Chico de Assis, nas reportagens, outro remanescente do SIBRATEL que fora à Alemanha, havia quatro anos. Alexandre Santos, responsável da Bandeirantes pela narração dos VTs noturnos de 1974 no SIBRATEL, enfim trabalharia no local dos acontecimentos. De resto, havia uma equipe renovada. A começar pelo outro narrador.

Comentarista transformado em narrador, Galvão Bueno fez em 1978 sua primeira Copa no país-sede – e já esteve na abertura (Reprodução de jornal/Thiago Uberreich)

Após passagem rapidíssima pela Record, como comentarista e apresentador, Galvão Bueno chegara à Bandeirantes, ainda em 1977. Inicialmente, motivado pela rádio: como Mauro Pinheiro, o “Senador”, principal comentarista da rádio paulista queria diminuir o ritmo de suas viagens, e Loureiro Neto, segundo comentarista, seria o narrador da TV Guanabara (retransmissora da Bandeirantes recém-comprada no Rio), Galvão tinha tudo para ocupar o posto dentro de alguns anos. Tudo mudou, com a recusa da família de Loureiro em ir para o Rio. Ele ficaria na rádio, e Galvão se queixou: deixara a Record para nada? Às pressas, Darcy Reis o chamou, para transformar o comentarista em narrador com a seguinte conversa (transcrição não literal): “Galvão, você não é carioca?” “Sou.” “Quer voltar a morar no Rio?” “Seria legal.” “Então quem vai narrar na Bandeirantes carioca é você.” “Eu, não!” “Por quê?” “Eu sou comentarista, não narrador.” Darcy o convenceu: “Você aprende…” (em entrevista ao SporTV, em 2011, Galvão brincou: “Estou aprendendo até hoje”). Após alguns testes, Galvão foi aprovado por Cláudio Petraglia, vice-presidente de operações da Bandeirantes. Foi para sua primeira Copa narrada no país-sede, tendo a seu lado o ex-jogador gaúcho Larry Pinto de Faria (1932-2016), de passagens por Fluminense e Internacional, como comentarista.

Também estreavam naquela Copa outros profissionais baseados no Rio de Janeiro. Em sua primeira experiência televisiva, Paulo Stein se alternou entre os comentários e as reportagens na Argentina. Mesmo já experiente no jornalismo, Alberto Helena Jr. também estreava em comentários numa Copa – e logo acompanhando Fernando Solera nos jogos do Brasil. Após passar por veículos como o “Estado de S. Paulo” e o “Correio da Manhã”, Márcio Guedes também faria sua primeira Copa na televisão. Ambos eram os apresentadores do “Jornal da Copa”, resumo do dia no torneio, exibido das 22h45 às 23h.  Nos VTs noturnos, dois coadjuvantes de Copas anteriores faziam a transmissão do Brasil: José Lino, narrador que fizera a transmissão das íntegras representando a Bandeirantes no pool de 1970, e Sérgio Cunha, locutor pela Record nos videotapes do SIBRATEL em 1974, agora comentarista. E assim, a Bandeirantes deu continuidade à sua tradição, justificando as palavras ditas por Cláudio Petraglia à revista “Veja” de 21 de junho de 1978: “No Brasil, quem fala contra futebol, lei e mãe não consegue nada com o povo”.

Record

Narração: Silvio Luiz, Milton Peruzzi e Dionísio da Ponte/Braga Jr.
Comentários: Hélio Ansaldo e Hamilton Bastos/Roberto Perfumo e Carlos Cavagnaro
Reportagens: Flávio Prado

“Na história da televisão, o Silvio só não foi antena, o resto ele já foi.” A frase dita por Ivan Magalhães, diretor de programação da TV Bandeirantes em 1978, para a biografia do paulistano lançada em 2002 (“Silvio Luiz: olho no lance”, de Wagner William Knoeller) dá a noção de como Sylvio Luiz Perez Machado de Souza já tivera uma longa trajetória no veículo, muito antes de pensar em ser narrador. Desde 1952, quando começou na antiga TV Paulista, Silvio já experimentara de tudo: repórter de campo – na Paulista e na própria Record, em que ficou até 1960, quando foi para a Rádio Bandeirantes em que ficou até 1963. Diretor de televisão, na TV Excelsior, para a qual foi e na qual ficou até 1965, saindo quando os problemas financeiros já se avolumavam. Também diretor de produção, na TV Record, participando de muitos dos famosos festivais musicais do canal nos anos 1960. Fora inúmeras outras funções – até passagens como ator Silvio teve no currículo.

Mas até os anos 1970, sua passagem mais notável na frente das câmeras fora como “o inquisidor malvado” no programa “Quem tem medo da verdade?”, no qual uma celebridade passava por polêmica sabatina. Inclusive, a “fama de mau” até perturbara o paulistano nascido em 14 de julho de 1934, tido como igual ao “papel” que fazia no programa. Só em 1974, no entanto, Sílvio voltaria às transmissões esportivas: como repórter, fora um dos representantes da Record no SIBRATEL. E tudo isso, acumulado à passagem de Sílvio como árbitro da Federação Paulista de Futebol, nas décadas de 1960 e 1970 – sim, apitou jogos de Campeonato Brasileiro.

Todo esse trajeto mudou a partir de 1976, ano da morte de Geraldo José de Almeida, que acabara de ser contratado como narrador da Record. Com sérios problemas financeiros, a emissora de tevê da família Machado de Carvalho mal tinha dinheiro para produzir programas, apostando apenas na exibição de filmes de faroeste. Isso começou a mudar em 1977: por meio de seu grupo, Silvio Santos comprou algumas ações da Record, investiu algum dinheiro, e a emissora recomeçou a investir em eventos esportivos – com a Copa de 1978 já como objetivo. Paulo Machado de Carvalho Filho, filho do “patriarca” e mandatário da Record, chamou Silvio Luiz e Hélio Ansaldo (1924-1996), diretor artístico da emissora. Comunicou a volta aos esportes, e disse que os dois tocariam o departamento recém-renascido. Sílvio disse que não queria ser repórter, e “Paulinho” decidiu: ele e Hélio se alternariam como narrador e comentarista. Poucos jogos depois, Ansaldo comunicou: preferia se restringir aos comentários. E assim, em 1977, 25 anos depois de começar a trajetória na televisão, Silvio Luiz virou narrador.

Silvio Luiz já tinha muito tempo de televisão, antes de ser narrador. E a Copa de 1978 foi o ponto inicial nisso (Reprodução)

Em meados do mesmo ano, Paulo Machado de Carvalho Filho trouxe três nomes da TV Gazeta para a equipe de esportes da Record: o narrador Milton Peruzzi, que levou a tiracolo dois jovens – Galvão Bueno e Flávio Prado. Galvão ficou meros meses na Record, e quase imediatamente optou por ir para a Bandeirantes (“Peruzzi ficou chateado comigo”, às vezes cita o locutor). Flávio ficou, e virou o repórter da equipe que tinha Silvio Luiz e Hélio Ansaldo. O jogo de estreia do trio não poderia ser mais badalado: o 1×0 que deu ao Corinthians o título paulista de 1977, após 22 anos de jejum. Simultânea e paulatinamente, Silvio Luiz começava a experimentar um novo estilo de narração. Ao invés de trazer o ritmo do rádio para a tevê, preferia ser o que hoje define como um “legendador de imagens”: não descrevia a imagem, mas indicava o que ela tinha e os sentimentos que ela provocava. Tudo isso, pelos bordões que iam surgindo e que o tornaram conhecido São Paulo e Brasil afora: de “pelo amor dos meus filhinhos” (lamentando erro) a “olho no lance” (pedindo atenção para uma jogada), passando por “pelas barbas do profeta” (se espantando com erro) e “no pau” (bola na trave)… tudo isso foi sendo criado naqueles primeiros tempos de narração.

Assim, Silvio chegou à Copa de 1978 já popular nas transmissões esportivas. Foi ele o principal narrador das partidas exibidas ao vivo pela Record – claro, incluindo as da Seleção e as decisivas -, com Hélio Ansaldo nos comentários e um sobrecarregado Flávio na reportagem (às vezes, Silvio o ajudou). Se já gritava o “éééééé” nos gols, naquela Copa Silvio também celebrizou seu grito de gol para a Seleção Brasileira: “É mais um gol brasileiro, meu povo! Encha o peito, solte o grito da garganta e confira comigo no replay!” De quebra, sua intimidade com os jogadores possibilitava histórias engraçadas. Como a vivida com Rivellino. Irritado por ficar fora da equipe escalada por Cláudio Coutinho (primeiro, por lesão; depois, por opção), na que seria sua última Copa, o camisa 10 brasileiro se recusava a falar com a imprensa. Silvio foi mais um a ouvir a negativa. Mas retrucou: “Ah, não? Então eu vou falar com seu pai”. O narrador morava próximo ao posto de gasolina de Nicola Rivellino, pai e procurador do jogador, e o conhecia. Telefonou e revelou tudo. No dia seguinte, na concentração brasileira em Mar del Plata, Rivellino viu o narrador e reclamou: “Você tinha que caguetar para o meu pai que eu não estava falando com ninguém?!” E concedeu a Silvio Luiz a primeira entrevista exclusiva que dava naquela Copa.

Além do trio Silvio Luiz-Hélio Ansaldo-Flávio Prado, viajaram à Argentina pela Record Milton Peruzzi, como segundo narrador, e Dionísio da Ponte, como terceiro na função. A Record ainda teve mais um comentarista, Hamilton Bastos. Da Argentina ainda era gerado o “Telesporte”, noticiário diário sobre a Copa. Dos estúdios da emissora – então, próximos ao Aeroporto de Congonhas -, Braga Jr. narrou os videotapes noturnos, com os jogos não transmitidos ao vivo, contando ainda com dois argentinos comentando os VTs: Carlos Cavagnaro, técnico do Vélez Sarsfield, e Roberto Perfumo, histórico no Cruzeiro e no Racing, além de ter no currículo em campo a Copa anterior.

Globo

Narração: Luciano do Valle, Tércio de Lima e Fernando Vannucci
Comentários: Sérgio Noronha, Ciro José e Pedro Luiz Paoliello
Reportagens: Juarez Soares, J. Hawilla, Maria Luiza, José Regal, Francisco José, Michel Laurence
Participações: Carlos Valadares, Celso Itiberê e Cláudio Mello e Souza

Se sobre as Copas de 1970 e 1974, Armando Nogueira falava que a TV Globo ainda fazia seu “laboratório” sobre como transmitir um torneio de tal porte, 1978 foi o primeiro vestibular em que a emissora do Jardim Botânico carioca foi “aprovada”. A começar pelas palavras do próprio Armando, diretor de jornalismo, em depoimento ao jornalista Alberto Léo (1950-2016): “Montamos com muito know-how a Copa de 78, foi a primeira em que nós fizemos realmente um grande investimento. Levamos uma equipe enorme, distribuída nas várias sedes, e transmitimos não só os jogos do Brasil, mas transmitimos todos os jogos da Copa”. Comparada ao que viria em coberturas posteriores, nem era uma equipe tão grande: 73 pessoas, coordenadas por Armando Nogueira; Pedro Luiz Paoliello; diretor de esportes da TV Globo, após longa e vitoriosa carreira no rádio de São Paulo; e Alpheu de Azevedo, diretor de operações.

No entanto, os programas já eram mais incrementados. Havia o “Boletim da Copa”, informativo diário sobre o torneio (duas edições, às 12h50 e às 22h20). Havia o “Globo na Copa”, abrindo as transmissões dos jogos, com expectativas dos comentaristas – e da torcida no Brasil, em casos de jogos da Seleção. Havia o “Quem é quem”, já dentro da transmissão, informando sobre as seleções que jogariam. Havia miniboletins durante a programação – cuja abertura seria a base do futuro “Globo Esporte”, aberto em agosto de 1978. E havia, acima de todos, o “Bate-Bola”, mesa-redonda organizada pela Globo para debater o dia da Copa. Antes mesmo que ela começasse, aliás, houve um “Bate-Bola” especial: em 21 de maio, o debate sobre as perspectivas da Copa teve a mediação de Armando Nogueira, com as participações dos jornalistas José Maria de Aquino, Ruy Carlos Ostermann e Celso Itiberê; de Osmar Santos, narrador e chefe de esportes da Rádio Globo paulista; dos técnicos Zagallo e Rubens Minelli; e do ex-árbitro Armando Marques. Durante o Mundial, o “Bate-Bola” voltava, com Armando Nogueira mediando, e o corpo de debatedores fixo tendo Ruy Carlos Ostermann, Rubens Minelli e Pedro Luiz Paoliello – sem contar convidados periódicos, como Pelé.

Enfim principal narrador da Globo nos jogos de futebol, Luciano do Valle tinha como comentarista nos jogos do Brasil Sérgio Noronha, que chegara à emissora em 1975, após carreira já longa em revistas e jornais no Rio de Janeiro natal. Como segunda dupla, o narrador carioca Tércio de Lima (1936-2009), na Globo desde a década de 1960, tendo a seu lado Ciro José – ambos trabalharam nas partidas da Holanda contra Irã e Peru, na primeira fase, e narraram o historicamente polêmico Argentina 6×0 Peru. Finalmente, participou dos jogos da anfitriã Argentina na fase de grupos a terceira dupla. Comentando nela, Pedro Luiz. E narrando, um mineiro de Uberaba, que chegara à Globo carioca no ano anterior, como apresentador: Fernando Antonio Vannucci Braz, vulgo Fernando Vannucci.

Como a Globo tinha três narradores, cabia a uma das duplas gravar, ao vivo no estádio, o jogo que iria para o VT noturno. No entanto, caso algo saísse errado – e caso o áudio falhasse nas transmissões ao vivo -, estava a postos no Rio de Janeiro a dupla formada pelo narrador Carlos Valadares (primeira Copa na tevê do narrador mineiro, principal repórter esportivo da Globo Minas então) e por dois comentaristas – ora Celso Itiberê, ora Cláudio Mello e Souza (este, editor de esportes do jornal O Globo naquela época). E um erro impróprio rendeu um fato de sorte a Valadares: com problemas técnicos vitimando Luciano do Valle e Sérgio Noronha em Mendoza, para Brasil x Polônia, último jogo brasileiro num dos quadrangulares da segunda fase, o mineiro narrou o gol de Nelinho que abriu o placar.

A programação da TV Globo para os jogos da primeira fase da Copa (Reprodução/Folha de São Paulo, em 1º de junho de 1978)

Entre os repórteres, além de célebres nomes – faziam suas primeiras Copas na televisão Juarez Soares, que chegara à Globo paulista junto de Luciano do Valle e Ciro José, e José Hawilla, vindo de longa passagem na Rádio Bandeirantes -, Maria Luiza era a primeira mulher a trabalhar numa cobertura televisiva em Copas do Mundo. Em depoimento ao jornalista Alberto Léo, ela lembrou do espanto que a presença causou até no país-sede: “Num domingo à noite, durante a Copa, eu cheguei ao hotel cansada e encontrei uma equipe de reportagem me esperando. Eles faziam um programa de variedades na televisão local e queriam que eu fosse dar uma entrevista ao vivo. (….) Fomos, e eu tive de falar dos jogos, do meu dia a dia, se meu pai tinha deixado eu ser repórter, se eu não tinha namorado, por que eu tinha escolhido uma profissão tão pouco feminina, quem era meu cabelereiro etc. Parece que Córdoba inteiro assistiu ao tal programa, pois no dia seguinte eu estava de folga e fui ao comércio, Foi terrível. As pessoas vinham falar com “la chica periodista” do Brasil. Era criança pedindo autógrafo e eu fugindo. Até aí tudo bem. Pior foi aturar as brincadeiras da equipe técnica…”.

Outras duas histórias pitorescas vieram de Francisco José. Mais vinculado ao jornalismo geral e conhecido pelos documentários que produz para o “Globo Repórter”, o repórter cearense radicado em Pernambuco foi um dos únicos a conseguir entrevistar o ditador argentino Jorge Rafael Videla, durante o Mundial – “e só porque a Argentina tinha ganho, senão ele não falaria”, divertiu-se Francisco ao projeto “Memória Globo”. Outra história engraçada foi contada pelo jornalista sobre um treino secreto da Polônia, um dia antes do jogo contra o Brasil: “Como o treino seria num estádio desativado, eu fui lá um dia antes. Notamos uma escada que dava acesso ao estádio – sem ser pelo portão normal, que certamente seria vigiado. Construímos uma cabine de madeira, e depois eu levei cola de sapateiro. Renato Maurício Prado [cobrindo a Copa pelo jornal “O Globo”] disse ‘eu vou com você’, mas na hora que ele sentiu o cheiro da cola, perguntou para que servia. Eu disse: ‘Renato, o exército vai entrar nesse estádio com os cachorros, e eles vão cheirar tudo. A cola, eles não vão cheirar. A gente tem de suportar o cheiro, colocar um lenço, e eu vou ficar aqui com meu cinegrafista”. Renato se negou, e foi para outra cabine. Resultado: foi removido do treino secreto. Francisco José suportou o cheiro da cola, e saiu ileso do treino – com a matéria.

A cobertura da TV Globo terminou com problemas entre Pedro Luiz (que deixou a emissora tão logo terminou a Copa) e Armando Nogueira. Ainda assim, já foi gigante. Mas pareceria pequena, diante do que se viu em 1982.

(Argentina 3×1 Holanda, a final da Copa de 1978, com o áudio da TV Globo – narração de Luciano do Valle e comentários de Ciro José. Nesta montagem, imagens da televisão russa)

Na próxima parte: nunca a televisão brasileira vira overdose tão grande de futebol quanto a que a Globo ofereceu na Copa de 1982, mudando paradigmas. Mas a TV Record segue como opção, por meio do rádio