Copa do Mundo

Onze marcas que ajudarão a guiar as lembranças sobre a Copa de 2018

A Copa do Mundo sempre deixa memórias profundas. São momentos vividos tão intensamente que, dentro de alguns anos, você vai se lembrar de onde estava quando viu algum gol ou jogo marcante, do que compartilhou com amigos durante as alegrias, do que causou ilusão em você. E há impressões que ficam, símbolos do que foi cada Mundial, que servem como uma identidade. Aspectos dentro de campo, mas também fora dele, que no futuro possivelmente se tornarão ponto de partida para se revisitar a memória. Abaixo, destacamos 11 marcas da Copa de 2018 que formam o contexto e o desenrolar de muito do que aconteceu na Rússia. Confira:

O VAR veio para ficar

Não foi uma Copa do Mundo imune a discussões sobre arbitragem. Enquanto existirem lances interpretativos (ou seja, sempre), pontos de vista diferentes poderão se confrontar. No entanto, não há muitas dúvidas que o VAR ajudou bem mais do que atrapalhou. Quantos gols em impedimento foram anotados no Mundial? Pois é, nenhum. Pênaltis que poderiam ter passado batidos foram anotados – embora alguns continuaram ignorados. E, conforme a Fifa apresentou ao final da primeira fase, a margem de acerto superou os 99%, ainda que 95% destes teriam acontecido com ou sem a consulta à central de vídeo.

O ponto é que existem protocolos e situações a serem aprimorados. Durante a Copa, a Fifa percebeu isso e, por exemplo, o número de consultas ao vídeo se tornaram menores nos mata-matas. Os problemas se concentram mais nas recomendações e na preparação aos árbitros (alguns deles, acomodados pela “muleta” de terem uma ajuda extra), assim como na falta de transparência, com a necessidade de uma abertura maior aos áudios das conversas. O que precisa ficar claro ao público geral, entretanto, é que o VAR acaba sendo uma ferramenta de auxílio, e não uma garantia de perfeição. Decisões contestáveis e divergências de interpretação são inerentes enquanto a avaliação depender do olhar humano. Ao menos, proporcionalmente não foram muitos os jogos de arbitragem discutível – uma pena que um deles tenha sido justamente a final, com as discordâncias botando em xeque lances decisivos. De qualquer maneira, o balanço é positivo. A urgência de inovação era enorme e as melhoras devem ser paulatinas para que o recurso se integre de vez nas grandes competições.

A tática fez diversos azarões serem competitivos

As seleções não costumam ter muito tempo para treinar. Diferentemente dos clubes, precisam se contentar com amistosos espalhados ao longo dos anos e algumas semanas para pegar embalo rumo à Copa do Mundo. Naturalmente, fica mais difícil trabalhar jogadas e o entrosamento para que as equipes funcionem ofensivamente. Assim, a arte da defesa se torna um caminho mais seguro, dependendo mais da consciência tática dos jogadores e do nível de concentração. Não foram poucos os times no torneio que preferiam jogar sem a bola. A campeã França foi um destes, apenas o 18° time em posse. De qualquer forma, a estratégia se tornou funcional a muitos times que peitaram os grandes e conseguiram fazer papéis dignos no torneio. Irã, Islândia, Suécia, Rússia e México são exemplos deste trabalho, em certas partidas. Já no caminho contrário, destaque ao Japão, que montou uma equipe de ótimo trabalho com a bola e superou as expectativas. Mostra como o treinamento e o afinamento coletivo podem fazer cada vez mais diferença nas Copas, dentro de uma preparação física de alto nível em qualquer canto. Não é apenas uma questão de talento, e a bagunça da Argentina comprova o outro lado da moeda.

A bola parada foi um tesouro

Outra questão fundamental dentro deste plano de pouco tempo para treinar é o altíssimo número de gols de bolas paradas. As jogadas ensaiadas costumam ser uma oportunidade não apenas para pegar as defesas desmontadas, como também para encontrar um espaço diferente aos ataques. E isso prevaleceu durante toda a competição. Foram 51 tentos de bolas paradas e mais outros 22 em cobranças de pênalti, representando 43% do total, um recorde desde 1998. Além disso, 26 se originaram em escanteios, 16 em cobranças de falta e outros sete em tiros livres diretos. Alguns times se valeram bastante do recurso, como a Inglaterra e a própria França. Fato é que um treinamento bem feito neste aspecto, principalmente na defesa, foi precioso ao longo da competição. Cabe mencionar ainda o recorde de gols contra, 12 no total. A mudança na interpretação sobre o que é ou não gol contra inflacionou a quantia, mas é preciso considerar também que os lances de bola parada pressionam as defesas e tornam os erros mais decisivos neste sentido.

Uma Copa de gols agonizantes

Apesar das defesas bem armadas, que diminuíram a emoção em alguns jogos, a Copa do Mundo terminou relativamente generosa em gols. O modorrento França x Dinamarca foi o único com o placar zerado ao longo do Mundial. Foram 169 tentos, apenas dois a menos em relação a 1998 e 2014, os dois mais prolíficos desde que a competição passou a contar com 32 seleções. Neste aspecto, destaque aos gols no fim. Mesmo que alguns confrontos se arrastassem, eles ganhavam o seu clímax e os contornos épicos nos instantes finais. Ao todo, 18 gols empataram ou desempataram os duelos depois dos 40 do segundo tempo ou dos 10 do segundo tempo da prorrogação. Naturalmente, os times costumam aumentar a sua pressão para buscar o resultado nos minutos derradeiros. Ainda assim, as doses de apoteose foram constantes em um quarto dos embates. Deixaram “buzzer beaters” memoráveis, como o contra-ataque mortal da Bélgica contra o Japão ou a cobrança de falta de Toni Kroos.

Os homens que pensaram o jogo foram os melhores

Em meio aos jogos de nervos e de defesas bem montadas, foi importante contar com jogadores que pensassem o jogo, que aguentassem a pressão, que soubessem administrar o tempo, que chamassem a responsabilidade. França, Croácia e Bélgica tiveram essas peças, cada qual com a sua característica, mas que terminaram entre os melhores da Copa. Antoine Griezmann jogou como um legítimo camisa 10, uma função que não costuma ser a sua, e se deu muito bem. Soube controlar partidas e dar a força que os Bleus precisavam na hora de decidir, enquanto companheiros como Kylian Mbappé e Paul Pogba aceleravam. Pela Croácia, Luka Modric ajudava a ditar o ritmo e se entregava incansavelmente, embora pudesse alternar seus momentos com outro maestro, Ivan Rakitic. Já na Bélgica, com De Bruyne oscilando, Hazard foi quem fez de maneira mais constante este trabalho de controlar e partir para cima quando necessário, com seus dribles sendo um caminho não apenas para o gol, mas também para a superioridade. Caras inescapáveis para se falar sobre o sucesso dos times e que, não à toa, terminaram reconhecidos.

A quantidade de zagueiros (e outros defensores) excepcionais

Se foi uma Copa das defesas, obviamente, as linhas de zaga se sobressaíram. O início até pareceu dos centroavantes, mas eles não conseguiram entregar tudo o que se esperava na reta final, sobretudo os mais badalados. Diferentemente dos defensores, constantes do início ao fim. Raphaël Varane se botou na primeira prateleira pela campanha que fez com a França e teve um parceiro potente em Samuel Umtiti. Dejan Lovren e Domagoj Vida atuaram acima de suas capacidades e por isso levaram a Croácia tão longe. Toby Alderweireld mais uma vez se mostrou um excelente defensor, despontando na linha da Bélgica. Andreas Granqvist liderou o milagre da Suécia, Ilya Kutepov teve muita personalidade pela Rússia. Thiago Silva e Miranda beiraram a perfeição enquanto estiveram presentes na competição, assim como Diego Godín e José María Giménez no Uruguai. E ainda há outros nomes que ficaram pelo caminho cedo, com menção bastante honrosa a Yerry Mina, que marcou três gols, mas também foi impressionante por sua agressividade defensiva nas três partidas que disputou.

Além dos zagueiros, a Copa do Mundo apresentou laterais direitos em bom nível em uma profusão acima do que se vê normalmente, como Sime Vrsaljko, Thomas Meunier, Kieran Trippier, Mário Fernandes e outros. Os goleiros também valeram demais ao sucesso de suas equipes, com Thibaut Courtois e Jordan Pickford um passo à frente, Hugo Lloris e Danijel Subasic um passo atrás por aquilo que ocorreu na final, e vários bons destaques que caíram antes, entre eles Kasper Schmeichel, Guillermo Ochoa e David Ospina. Por fim, N’Golo Kanté e Casemiro apenas reafirmaram que, como volantes de contenção, são dois extraclasse.

As gerações que se provaram

Há times que deslumbram no papel, mas não funcionam em campo. Bélgica e França fugiram das frustrações desta vez. São equipes fortíssimas por seus nomes, mas que se afirmaram por aquilo que aconteceu durante a competição. Os Bleus poderiam montar outro time de qualidade apenas com os nomes que ficaram de fora da competição. Souberam usar as suas peças ao longo do Mundial, com o devido protagonismo a quem merecia. Dão a impressão de que podem ainda mais, com um time que até pareceu não jogar em seu máximo e que segue em estágio de amadurecimento. Os Diabos Vermelhos não passaram pelos campeões, mas foram exuberantes em diversos momentos, podendo ganhar o rótulo de futebol mais vistoso. Da mesma maneira, os bons jogadores apareceram e fizeram acontecer. Já a Croácia merece uma menção por sempre se indicar um time que podia mais do que fazia em suas disputas internacionais. Desta vez, se superaram.

A Europa, mais uma vez, manda dentro da Europa

A África fez uma Copa do Mundo decepcionante, sem classificar um time sequer à fase seguinte pela primeira vez desde 1982. Marrocos, o mais competitivo, caiu no grupo mais difícil. A Ásia não carregava grandes expectativas, mas saiu com um desempenho digno graças à superação do Japão e o empenho do Irã. A Concacaf, mais uma vez, dependeu apenas do México, sem que a Costa Rica engrenasse. E a América do Sul caiu lutando com quase todos os seus representantes, mas aquém do que se espera por seu histórico. Assim, a Copa na Rússia terminou dominada por europeus – como, exceção feita em 1958, é praxe nas vezes em que a competição foi disputada no continente.

A adaptação ao ambiente sempre foi um argumento usado para explicar essa diferença em outros tempos. Com tantos jogadores atuando na Europa, muitos deles na própria Rússia, fica mais difícil usar tal ponto para justificar a falta de vigor dos outros, sobretudo dos sul-americanos. É complicado afirmar de maneira contundente o que explica tal preponderância europeia – se é algo possibilitado pelo bom trabalho das gerações atuais, se é reflexo da concentração do futebol de alto nível na própria Europa, se é apenas algo pontual de partidas. Mas não parece uma mera coincidência, em meio às repetições. França, Bélgica e Inglaterra deixaram os melhores sul-americanos pelo caminho para alcançar as semifinais.

O descobrimento da Rússia

Haviam várias acusações ou estereótipos sobre a Rússia que contraindicavam a realização da Copa do Mundo no país. Temia-se a violência das torcidas, temia-se o preconceito, temia-se a falta de receptividade da população. Fato é que o Mundial terminou como um sucesso, muito pelo acolhimento que a população local ofereceu. Não são poucos os relatos de que os russos se distanciaram de qualquer frieza para abraçar o restante do mundo. A princípio, não existiram grandes episódios de violência ou discriminação envolvendo os russos, apesar dos episódios de assédios e agressão protagonizados por estrangeiros. Ainda assim, distante dos maiores temores. De certa maneira, a Copa proporcionou a descoberta do povo russo pelo restante do planeta e reforça a vocação turística no país. Além do mais, a seleção também ajudou. A campanha histórica feita pelo time de Stanislav Cherchesov, superando todos os prognósticos, exibiu a veia mais apaixonada da torcida anfitriã. Algo que impulsionou a febre de bola a se alastrar pelas diferentes cidades da Rússia.

O calor da torcida latina

Tudo bem, os europeus dominaram em campo. Mas os melhores momentos nas arquibancadas, quase sempre, vieram dos povos das Américas. Não importava muito a crise econômica ou as dificuldades em pagar as contas usando euros: todos os países do continente tiveram presenças massivas (e barulhentas) de suas torcidas. Foi um espetáculo ver o que fizeram brasileiros, mexicanos, argentinos e colombianos, mais acostumados com a competição. Mesmo pequenos, os costarriquenhos e os uruguaios também cantaram alto. Os panamenhos não perderam a oportunidade histórica, sabe-se lá quando se repetirá. E o mais bonito veio com os peruanos, depois de 36 anos de ausência, em uma jornada que já tinha pintado de vermelho outros cantos do mundo durante a preparação. Talvez o Mundial de 2014 tenha acendido uma chama que não se apagou, e que pode se repetir na Copa América de 2019. Os europeus, por outro lado, decepcionaram nos estádios, mesmo países de torcidas mais fanáticas. Restou se contentar com a recepção em casa, diante das erupções ocorridas nas ruas de Bruxelas, Zagreb e Paris.

A política e a sociedade, cruas na Copa

Futebol, política e sociedade não são elementos alheios. As associações constantes se evidenciam em vários cantos do mundo, e ainda mais durante uma Copa do Mundo. Outra vez, foram vários os episódios que escancararam esta relação, de diferentes maneiras. As ondas migratórias que levaram à miscigenação da seleção francesa; a posição política dos croatas, dentro de um contexto denso nos Bálcãs; a maneira como o Uruguai vê sua identidade através da seleção; as mulheres iranianas ganhando liberdade para visitar um estádio, como não acontecia desde os anos 1980; o gesto escancarado de Granit Xhaka e Xherdan Shaqiri para rememorar a Guerra da Iugoslávia; e outros ainda, que tomariam páginas e mais páginas de um livro. O extracampo afetou até mesmo outros países que não estavam na Copa, mas não menos apaixonados, e sentiram as consequências dessa intensidade, de brigas no Bangladesh à queda do premiê do Haiti. Houve ainda o futebol como ferramenta de solidariedade, com a Copa servindo de trampolim para aproximar o planeta em meio ao caso dos garotos tailandeses que passaram semanas de medo enclausurados em uma caverna. E se o futebol pode ser um palanque para se gritar o que se pensa, também pode tentar manipular. Foi o populismo que se viu a muitos estadistas, que pareciam querer ser mais importantes que os próprios jogadores, ciceroneados por Gianni Infantino nas tribunas dos estádios russos.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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