Copa do Mundo

O dia em que Zidane elevou o futebol como arte (ou os 10 anos do França x Brasil de 2006)

Bastaram 30 segundos. Metade de um minuto para que Zidane recebesse a primeira bola na Commerzbank Arena, em Frankfurt. Para que começasse a destruir a seleção brasileira na Copa de 2006. O camisa 10 dominou e protegeu de Zé Roberto. Quando chegou Juninho Pernambucano, para dobrar a marcação, bastou um giro que deixasse ambos no vácuo. E Gilberto Silva, que vinha para o bote, se perdeu nas pernas do craque que se trançavam. Campo livre, três adversários para trás, passe longo. Tudo bem, o lance acabou nem dando em nada. Mas, naquele momento, a mentalidade do time de amarelo desabava, em ruínas. Havia um gigante do outro lado. Havia Zinedine Zidane.

VEJA TAMBÉM: A cabeçada de Zidane que decidiu a Copa de 2006

Se você conhece alguém que desdenha da beleza do futebol, apenas apresente o vídeo abaixo. Oito minutos em que os lances de Zidane contra o Brasil em 2006 foram compilados. Uma verdadeira aula. Uma obra-prima. O surrealismo do que o meia conseguia com a bola era mesmo realidade. Feito um gênio pós-impressionista, ressaltava as características mais intrínsecas de sua arte, os fundamentos. Fazia o simples com um refinamento nunca visto. E impressionava.

Zizou teve participação no lance decisivo do jogo, ao cobrar a falta para que Henry completasse às redes. Mas sua maestria naquela noite vai muito além. Está em cada domínio perfeito. Em cada drible que desorientou os rivais. Em cada passe milimétrico. Zidane desmantelou um time talentoso do Brasil porque ele, sozinho, teve mais talento durante os 90 minutos. Um a um, colocou os grandes nomes do outro lado no bolso. Porque, acima da exuberância, tinha uma confiança enorme para executar cada movimento. Porque teve o brio que muito faltou à maioria dos craques brasileiros.

Zidane jogou em um ritmo diferente de todos os outros em campo naquele 1° de julho. Movimentos suaves, mas firmes. Era como se plasticidade da câmera lenta conseguisse ser mais rápida que a marcação acelerada. Tudo porque Zizou pensava frações de segundo antes de todos os outros. A velocidade de raciocínio vencia toda a pressa do corpo. Dava um nó no tempo-espaço. O momento em que a Teoria da Relatividade foi provada dentro de um campo de futebol, graças à genialidade anos-luz à frente dos outros.

Em vários instantes, o camisa 10 mais parecia um toureiro. Fez da bola a sua capa vermelha. E os touros, de amarelo, em vão rompiam os ares a cada olé. Movimento a movimento, a lista de truques foi vasta. Era como se Zidane fosse intocável, ungido por uma força sobre-humana. Ninguém conseguia invadir o seu campo de ação. E, mesmo quando tentavam rompê-lo, cometiam a falta, mas não roubavam seu tesouro. A bola decidiu obedecer apenas Zizou em Frankfurt, e a quem mais ele a mandasse. Enxergava o que nenhum outro podia.

Ronaldinho-Vs-Zidane

“Aconteceu algo de mágico sobre o campo comigo, assim como com a maioria dos meus companheiros naquele dia. Tenho ótimas lembranças. Nós realmente tínhamos uma bela geração de jogadores. Foi um belo momento”, relembrou, anos depois, em entrevista à Fifa. O ‘algo de mágico’, na verdade, não estava exatamente em Zidane. O elixir tinha efeito visual. Estava do lado oposto, no amarelo vivo que entrava por seus olhos. “Jogar contra o Brasil sempre me inspirou. Diante dos brasileiros, eu sempre consegui elevar o meu nível e o dos meus companheiros. Sempre que eu os enfrentava, sabia que eles eram capazes de tudo, nunca éramos favoritos. E, nestes casos, você consegue atingir o seu máximo. Assim aconteceu conosco”.

VEJA TAMBÉM: O Barrilete Cósmico redefiniu a órbita dos planetas no universo futebol

Zidane nunca fez uma partida menos do que ‘excelente’ contra o Brasil. Gastou a bola no Torneio da França de 1997, em ocasião que acabou mais lembrada pelo gol antológico de Roberto Carlos. Foi mais decisivo do que nunca na final da Copa do Mundo de 1998. Teve uma atuação secular no amistoso de 2004, que serviu para comemorar o centenário da Fifa. E, na Alemanha, é até difícil encontrar um adjetivo que realmente meça o que Zizou foi capaz de fazer. Naquela que, sem exageros, pode ser colocada entre as maiores exibições individuais da história do futebol.

Como brasileiros, tornou-se mais difícil admirar a grandiosidade de Zidane no exato momento em que brotou em campo. Que se negue a torcida ao time da CBF, não há como não se contrariar com o sentimento de impotência que o agigantamento do francês sempre provocou diante da Seleção. Por sorte, uma sensação passageira. A humilhação causada por Zizou fere, mas logo cicatriza. A quem ama o futebol, é impossível ter ódio ao vê-lo em sua essência pura. Afinal, é preciso aceitar que o destino manifesto para o francês se transformar em uma lenda era mesmo o Brasil.

“Quando eu era criança e jogava com meus amigos nas ruas do bairro onde cresci, a gente organizava as nossas versões da Copa. E sempre todo mundo queria ser o Brasil. Depois, esse país faria parte da minha vida. O sonho se tornou realidade, eu disputei a Copa do Mundo de verdade e tive a chance de enfrentar o Brasil. Então, eu pensei comigo: ‘Vamos lá, aproveite! Não pode acontecer nada. Mesmo se você perder, as pessoas não te culparão. Seja bom, arrebente!'”. E arrebentou. Por mais que possa doer, não há honra maior do que ter um carrasco como Zidane em seu ápice.

Mostrar mais

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo