Copa do Mundo

Hassen precisou de 14 minutos para viver a Copa ao máximo, do heroísmo à comoção

Uma noite de Copa do Mundo pode mudar a carreira de qualquer jogador. E o goleiro Mouez Hassen parecia disposto a transformar sua história nesta segunda-feira, em Rostov. Em apenas três minutos, já tinha realizado uma das defesas mais impressionantes do Mundial. Mais um pouco, outra boa intervenção, até sentir o ombro após uma saída do gol. E aos 11 minutos, novo milagre, que não impediu Harry Kane de estufar as redes no rebote. Diante da pressão incessante da Inglaterra, o arqueiro precisou de pouco tempo para se tornar óbvio destaque. Até que as dores não dessem mais trégua para a sua consagração. Aos 14 minutos, o camisa 22 desabou. Não dava mais para ele, o incômodo era insuportável. O acaso lhe tirava os holofotes, que precisou de tão pouco para conquistar. As lágrimas eram incontroláveis no caminho direto aos vestiários. Se o melhor que a Copa oferece é a emoção, o jovem de 23 anos viveu isso ao máximo, da alegria à tristeza: foi o herói precoce de um país e comoveu parte do planeta.

Estar sob aquelas traves, em um jogo de Copa do Mundo, já parecia algo inesperado a Hassen. O goleiro é um dos tantos filhos de tunisianos que nasceu na França. Veio ao mundo em Fréjus, cidadezinha de 50 mil habitantes na costa do Mediterrâneo. A partir dos 15 anos, se juntou às categorias de base do Nice, que logo o levaram às seleções menores da França. Mesmo sem ser titular, passou por todas as categorias, do sub-16 ao sub-21, com destaque ao vice-campeonato do Europeu Sub-19 em 2013 – atuando ao lado de Adrien Rabiot, Anthony Martial e Aymeric Laporte, curiosamente, todos ausências contestáveis da Copa de 2018. E também fazia suas aparições pelo time principal do Nice, a partir de 2013.

Reserva de David Ospina, Hassen ganhou uma chance como titular em 2014/15, quando o colombiano foi vendido ao Arsenal. Assumiu a titularidade aos 19 anos e disputou 30 partidas pela Ligue 1, em momento no qual figurava no meio de tabela. Entretanto, não contava com muita confiança nas Águias. Perderia espaço ao final da temporada e disputou apenas 14 partidas no ano seguinte. Deixado de lado, teve um empréstimo pouco relevante pelo Southampton, até retornar à França na última temporada. Enfim, voltou a desfrutar a titularidade, mas emprestado ao modesto Châteauroux, mero figurante na Ligue 2.

O destino de Hassen, entretanto, mudou no primeiro semestre de 2018. Em meio à busca da comissão técnica tunisiana por jogadores aptos a defender a seleção, foi convidado a participar dos amistosos preparatórios em março. Já era um alvo antigo da federação magrebina, ao menos desde 2014, mas as recorrentes chances nas seleções de base da França o afastavam da terra de seus pais. Diante das perspectivas atuais, todavia, resolveu atender o chamado. E não poderia ter tomado decisão mais sábia. Logo se tornou solução aos alvirrubros.

Reserva contra o Irã, Hassen estreou e fechou o gol contra a Costa Rica em março. Ficou como titular. Ainda fez partidas contra Portugal e Turquia, além de permanecer no banco contra a Espanha. O arqueiro de 23 anos passou a ser considerado uma “grata surpresa” das Águias de Cartago. Acabou desbancando Aymen Mathlouthi, de 33 anos, dono da meta tunisiana por 11 anos e mais experiente do elenco convocado à Copa do Mundo. Apesar da década de serviços prestados, o veterano perdeu espaço justamente por não vir em sua melhor forma, decepcionando no duelo contra a Espanha. O novato transmitia mais segurança nas saídas pelo alto e apresentava um ótimo tempo de reação. Tornou-se a escolha contra a Inglaterra.

Então, Hassen mostrou-se disposto a retribuir a confiança. Com três minutos, a defesa sensacional diante de Jesse Lingard. Após a rebatida na área, a bola sobrou limpa ao inglês, que chutou forte, rasteiro. Mesmo em seu contrapé, o camisa 22 se recuperou a tempo e esticou o pé esquerdo para salvar os tunisianos quase em cima da linha. Teria uma bola alta que subiu no terceiro andar para bloquear e, na tentativa de fechar o ângulo em novo ataque, caiu de mal jeito e sentiu o ombro esquerdo. Atendido pelos médicos, ficou em campo. Com o mesmo braço esquerdo, operou uma defesa inacreditável em cabeçada de John Stones. O arqueiro saltou e inclinou o corpo para trás, afastando o risco espetacularmente. Deu azar do rebote sobrar para Kane, sozinho. Lamentou o gol sofrido.

Tomar o gol, contudo, faz parte do ofício do goleiro. Hassen está acostumado a buscar a bola no fundo das redes, por mais que faça o seu melhor. Bem mais penoso é aceitar a contusão que o tirou de campo. Pior, o tirou do jogo que poderia lhe valer tanto, e já vinha valendo, em plena Copa do Mundo. O camisa 22 tentou resistir à dor, mas não foi possível. Em prantos, precisou ser consolado por companheiros. O lugar que conquistou de maneira repentina, graças ao talento, já não seria mais dele. Voltou ao banco de reservas no segundo tempo, com o braço na tipoia. Viu o substituto Farouk Ben Mustapha ser superado também por Kane, no gol que assegurou a vitória à Inglaterra.

Ainda não há informações sobre a gravidade da lesão de Hassen. Não dá para saber se ele poderá ou não enfrentar Panamá e Bélgica, enfim mostrar o seu valor na Copa do Mundo. Os 14 minutos, de qualquer forma, bastaram para tirá-lo do anonimato. Para render o reconhecimento de pessoas que nunca ouviram falar o seu nome e perceberam, por algumas bolas, que ali há um goleiro jovem e de potencial. A breve aparição ainda não proporciona uma afirmação. Mas talvez renda uma nova chance, que não seja no Mundial. Os milagres em Rostov já marcam o nome do tunisiano.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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