Copa do Mundo

Há 10 anos, a Itália tornava real o sonho do tetra contra a França na Copa 2006

Foram caminhos muito distintos até a final. A Itália tinha passado pela batalha de Dortmund contra a anfitriã Alemanha, com vitória na prorrogação. A França tinha sofrido para classificar, mas passou por Espanha, Brasil e Portugal nos mata-matas. O dia 9 de abril reunia as duas seleções em busca de glórias. O grande craque era Zinedine Zidane, mas a Itália tinha suas estrelas. Entre elas, Gianluigi Buffon, um goleiro que deixaria sua marca naquela final. E um jogo que entraria para a história das Copas do Mundo.

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Aquela era a Copa do Mundo que muitos analistas criticavam a falta de atacantes. Muita gente deixou de jogar com dois jogadores no ataque para jogar no 4-5-1, diziam. A percepção era que os times tinham ficado mais defensivos, e isso, para alguns, é um crime mortal. Ainda mais com a Itália avançando com uma defesa muito forte e reforçando o estereótipo de um time calcado na defesa.

Faltava perceber que o que acontecia era uma tendência que se tornaria padrão: o 4-2-3-1, com muitas variações entre si, mas com um jeito de jogar que ocupava melhor os espaços. Vale lembrar que o Brasil, comandado por Carlos Alberto Parreira, ainda tentava jogar com um 4-4-2 bem brasileiro, na verdade um 4-2-2-2. O quadrado mágico de Kaká, Ronaldinho, Adriano e Ronaldo se tornou uma vergonha eliminada pela França de Zidane nas quartas de final. Demorou a entender que 4-2-3-1 não era uma falta de atacantes, era uma adaptação para ocupar melhor os espaços.

O dia 9 de julho consagrava dois times que atuavam exatamente assim. Os dois times se moldaram ao longo da competição para jogar assim.

A Itália entrou em campo com Buffon; Zambrotta, Cannavaro, Materazzi e Grosso; Gattuso e Pirlo; Camoranesi, Totti e Perrotta; Toni. O time era treinado por Marcelo Lippi.

Já a França entrou em campo com Barthez; Sagnol, Thuram, Gallas e Abidal; Makelélé e Viera; Ribéry, Zidane e Malouda; Henry. O time era dirigido por Raymond Domenech.

Era uma final para consagrar Zidane, o craque que anunciou a aposentadoria para depois da Copa do Mundo. A primeira fase apagada não o impediu de, no mata-mata, virar um monstro, derrubar, pela ordem, Espanha, Brasil e Portugal. Sempre essencial nesses jogos, Zidane chegava gigantesco à final.

Outro personagem seria um grande protagonista naquela decisão: Marco Materazzi. O zagueiro se tornou titular da Itália e fazia uma boa Copa. Logo a sete minutos, Malouda entrou na área em velocidade e Materazzi o atropelou. Pênalti bem marcado pelo árbitro Horacio Elizondo. Zidane, então, teve o seu primeiro ato. Cobrou o pênalti com cavadinha. Em uma final de Copa do Mundo. A bola bateu no travessão, pingou dentro do gol e saiu. A arbitrahem validou o gol. A França saía em vantagem.

Veio então algo positivo para a Itália. Desta vez, Materazzi mudou de papel. Pirlo cobrou escanteio aos 19 minutos e o zagueiro subiu muito bem para empatar o jogo em 1 a 1 com uma cabeçada certeira. Os dois times voltavam a ficar iguais. E assim ficariam assim até o final da prorrogação.

O segundo ato foi com Zidane impedido de atuar como herói. Ele deu uma cabeçada certeira, quando o jogo já estava na prorrogação, que seria gol em quase todas as situações. Quase, porque no gol tinha Gianluigi Buffon. Um craque de luvas que impediu a consagração definitiva de Zidane. Seriam duas finais de Copa e dois gols em cada uma. Que jogador poderia fazer isso? Ainda mais porque àquela altura, seria difícil que a França não saísse com a vitória.

O terceiro ato veio de forma dramática. As câmeras de TV não mostravam. O jogo parou. O árbitro Horacio Elizondo, então, foi consultar os árbitros assistentes. Em conversa com o site da Fifa, ele diz que nenhum dos dois bandeirinhas sabia o que tinha acontecido e por que Materazzi estava no chão. Mesmo entre os jogadores, nem todos viram. A maioria acompanhava a bola, que já estava longe dali.

Cannavaro fala com Zidane, que tinha agredido Materazzi (AP Photo/Jasper Juinen)
Cannavaro fala com Zidane, que tinha agredido Materazzi (AP Photo/Jasper Juinen)

Quem viu foi Luis Medina Cantalejo, que informou Elizondo da cabeçada de Zidane no zagueiro italiano. O árbitro, então, tentou deixar claro o que tinha acontecido: foi até a beira do campo, falou com Dario Garcia, mas já sabia o que tinha acontecido. Era só para mostrar que ele estava sendo informado e deixar claro, tanto para quem estava no estádio, quanto para quem estava vendo na TV, que Zidane seria expulso por uma agressão fora do lance. Assim foi feito. O último ato como jogador de futebol de Zidane foi deixar o gramado do Estádio Olímpico de Berlim de cabeça baixa, passando ao lado da taça que ele ajudou a França a levantar em 1998 e que passara muito perto de fazer de novo aquele dia.

Nos pênaltis, Trezeguet errou. Grosso acertou a cobrança final. Os italianos comemoravam. Era o tetra mundial. Era a consagração de um time com Buffon, Cannavaro, Gattuso, Pirlo, Totti, Luca Toni, De Rossi e Del Piero no banco. Era um time que entraria na história como mais uma grande Itália de defesa forte. Um título que consagrou todos estes jogadores, mas que também ia além de só ter uma defesa forte. Era um time que tinha seus talentos e soube aproveitá-los. Naquela final, tão equilibrada e tão marcante, a Itália conseguiu a vitória por pouco. Um pouco que significa tudo. Significa a quarta estrela no peito da Azzura.

Assista abaixo os melhores momentos do jogo, entrevistas com Cannavaro e o árbitro Horacio Elizondo, além de uma exposição com objetos daquela final.




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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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