Copa do Mundo

Guia da Copa do Mundo de 2018: Portugal

Como foi o ciclo da seleção até a Copa

Renovação foi a palavra de ordem na seleção portuguesa, depois da campanha trágica na Copa do Mundo do Brasil. Com apenas uma vitória e um Cristiano Ronaldo longe da melhor forma física, Portugal foi eliminado na fase de grupos, atrás dos Estados Unidos no saldo de gols. Paulo Bento ainda foi mantido no cargo, mas uma derrota para a Albânia, na estreia das Eliminatórias para a Eurocopa de 2016, foi um teste duro demais para a paciência dos dirigentes da federação lusa.

Fernando Santos apareceu para tocar o barco, condecorado pelo bom trabalho na seleção grega, que dirigiu às oitavas de final da Copa do Mundo pela primeira vez na história. A classificação para a França foi alcançada sem problemas, com sete vitórias seguidas depois daquela derrota para a Albânia. A convocação de Santos para a Euro contava com apenas 11 jogadores que estiveram no Brasil: Rui Patrício, Eduardo, Pepe, Bruno Alves, João Moutinho, William Carvalho, Cristiano Ronaldo, Nani Vieirinha e Rafa Silva. Ah, e Éder.

Santos deu as primeiras chances para alguns jogadores que, embora não sejam craques de bola, se tornariam coadjuvantes importantes da seleção, como João Mário, Adrien Silva, Cédric Soares e Raphael Guerreiro. Além de apostar no ainda muito jovem Renato Sanches. O resultado na França foi o melhor possível. Com gol de Éder na prorrogação da final contra a dona da casa, Portugal conquistou o primeiro título da sua história.

A renovação continuou, e os resultados acompanharam-na. Portugal classificou-se para a Copa do Mundo da Rússia com nove vitórias e uma derrota, vencendo a Suíça na rodada final e decisiva. Na convocação para o Mundial, Santos levou apenas 13 jogadores que haviam sido campeões europeus. Abriu espaço para uma nova geração talentosa, com nomes como Bernardo Silva, Gonçalo Guedes, Bruno Fernandes e Gelson Martins. O futuro parece promissor.

Como joga 

Embora tenha mais opções ofensivas, Fernando Santos não abrirá mão de uma retaguarda sólida, grande trunfo da seleção na Eurocopa. O estilo mais cauteloso não levou brilho aos olhos de ninguém, mas foi eficiente. Portugal sofreu gol em apenas três dos sete jogos na França. Em dois deles, foi vazado apenas uma vez. A exceção foi o thriller contra a Hungria (3 a 3). A ironia é que os problemas estão justamente na defesa.

Portugal passou três dos quatro jogos da Copa das Confederações em branco e não foi vazado em sete dos dez das Eliminatórias Europeias, inclusive os últimos três. Mas os amistosos ligaram um sinal amarelo. Em sete partidas, foram sete gols sofridos, com destaque para três da Holanda, que não estará no Mundial, e dois da Tunísia, que não é mundialmente renomada por ter um ataque feroz. A questão são as fases dos jogadores.

O nome indiscutível da zaga é Pepe, mas já tem 35 anos e está mais perto do fim do que do auge da carreira. O seu parceiro é uma dúvida séria de Santos. Na Eurocopa, José Fonte e Ricardo Carvalho revezaram-se ao lado do então jogador do Real Madrid. Carvalho, agora um quarentão, não fez parte dos planos depois da Eurocopa, e Fonte, outro veterano, de 34 anos, foi para a China depois de uma passagem ruim pelo West Ham. Está na lista russa, mas não inspira muita confiança. E a dimensão do problema aumenta à medida em que nos aprofundamos no setor.

O terceiro nome que Santos levou para a Rússia é Bruno Alves, 36 anos. Alves jogou três vezes na Copa das Confederações e foi o terceiro zagueiro mais utilizado por Santos nas Eliminatórias, depois de Fonte e Pepe. Mas, além da idade avançada, não vem de boa temporada pelo Rangers. Após sofrer uma lesão no joelho, jogou oito partidas em 2018 e completou 90 minutos em apenas quatro delas. Rúben Dias fecha a zaga. O jovem de 21 anos tem apenas 30 aparições pela equipe principal do Benfica e fez sua estreia pela seleção no final de maio, em amistoso contra a Tunísia. Ou sobra experiência e falta físico, ou falta experiência e sobra energia.

Santos utiliza dois sistemas táticos: o 4-4-2 tradicional ou o 4-3-3, com um volante mais recuado, geralmente William Carvalho, o único “trinco” do elenco. Um enigma antigo da seleção portuguesa era a posição de Cristiano Ronaldo: bom demais para se prender à ponta, isolado demais quando era o único centroavante. A solução mais óbvia seria mesmo usar dois atacantes, mas aí entrava a falta de qualidade. O surgimento de André Silva resolveu o problema. Longe de ser um craque, o atacante do Milan faz o trabalho sujo que permite a Cristiano Ronaldo mais espaços para finalizar. E ainda deixa seus golzinhos: nove na campanha das Eliminatórias, vice-artilheiro do time. O artilheiro, suponho que vocês já saibam, foi Ronaldo.

João Moutinho e William Carvalho lideram a briga pelas posições centrais do meio-campo, com Bruno Fernandes em ascensão, Adrien Silva como opção, e Manuel Fernandes ainda um pouco em dúvida sobre o que foi fazer na Rússia. A abundância de opções de Fernando Santos está nos extremos. Bernardo Silva e João Mário devem começar jogando, mas Gelson Martins, Gonçalo Guedes e Ricardo Quaresma oferecem bastante profundidade ao setor.

Time-base: Rui Patrício; Cédric Soares, Pepe, Bruno Alves e Raphael Guerreiro; William Carvalho, João Moutinho, Bernardo Silva e João Mário; André Silva e Cristiano Ronaldo. Técnico: Fernando Santos

Dono do time

Cristiano Ronaldo

Cristiano Ronaldo, capitão de Portugal (Foto: Getty Images)

A companhia melhorou nos últimos anos, com o surgimento de boas promessas portuguesas, mas Cristiano Ronaldo ainda é a diferença entre uma campanha média ou decepcionante e as glórias. Foi destaque no título da Eurocopa da França mais pela liderança do que pelos gols que marcou (apenas três) e nunca conseguiu explodir em Mundiais. Será a quarta participação do craque. Ainda era uma jovem revelação na Alemanha. Portugal nem fez gol na África do Sul, com exceção da goleada contra a Coreia do Norte. E problemas físicos impediram-no de brilhar no Brasil, ao fim de um dos melhores anos da sua carreira. Ronaldo, porém, aprendeu. Aceitou ser poupado de algumas partidas menos importantes do Campeonato Espanhol para chegar voando à reta final. Foi assim nas últimas duas temporadas, quando concentrou a maior parte dos seus gols no segundo semestre. Tende a chegar mais fresco do que nunca à Rússia.

Bom coadjuvante

Pepe

Se alguém precisa arrumar a defesa de Portugal, ninguém melhor que Pepe. Aos 35 anos, mais maduro e mais calmo, o zagueiro tem mais uma vez a missão de ser uma rocha na defesa da seleção portuguesa, como foi na campanha da Eurocopa de 2016. O zagueiro trocou o Real Madrid pelo Besiktas, um ano depois da conquista, já encaminhando o final da carreira. Depois de uma boa sequência de partidas, sofreu algumas lesões e terminou a temporada participando de 35 das 51 partidas da sua equipe, que teve a melhor defesa do Campeonato Turco. Em um setor pulverizado pelo tempo, a qualidade de Pepe será determinante para a sorte de Portugal na Copa.

Fique de olho

Gonçalo Guedes

Guedes brilhou pela seleção portuguesa (Foto: Getty Images)

Foi a temporada em que Gonçalo Guedes se firmou como um jogador para o futuro. Saiu do Benfica ainda muito jovem para o Paris Saint-Germain, mas ficou apenas seis meses na França. Emprestado ao Valencia, e com 21 anos, foi um dos melhores jogadores da excelente campanha do clube no Campeonato Espanhol. Na sequência de oito vitórias seguidas no começo da liga, fez três gols e deu seis assistências. Caiu de rendimento na metade final do campeonato, como o resto da equipe, mas mostrou o que pode fazer. Atua preferencialmente pelo lado esquerdo, mas já foi utilizado por Fernando Santos como segundo atacante.

Personagem

Raphaël Guerreiro

Portugal tem um jogador chamado Raphael Guerreiro no seu elenco. Nada demais, não fosse o fato de que na verdade seu nome é Raphaël, com trema na letra “e”, o que, agora sim, é pouco comum na língua portuguesa. Acontece que o lateral esquerdo é português de coração, mas francês de nascimento, porque seu pai, Adelino, ainda adolescente, tornou-se um dos aproximadamente dois milhões de lusos (números do Banco Mundial, em 2013) que deixaram Portugal para trás em busca de uma vida melhor em outro país. A maior parte deles foi para a França: 530 mil, segundo o Observatório da Emigração (2014), ou 8,9% do total de estrangeiros na nação de Emmanuel Macron.

Guerreiro nasceu em Le Blanc-Mesnil, subúrbio de Paris, onde moram muitos portugueses, não muito longe do aeroporto Charles de Gaulle. Adelino, o pai, conseguiu passar o sonho de ser jogador de futebol para apenas um dos seus quatro filhos, o mais novo. Aos 12 anos, foi convidado a treinar na máquina de craques de Clairefontaine. Foi recrutado pela academia do Caen e teve que superar uma grave lesão na perna que o deixou afastado por oito meses antes de solidificar a carreira.

Destacando-se na segunda divisão, foi abordado pelos seus dois passaportes. França e Portugal queriam o garoto. A decisão de Guerreiro é uma explicação muito didática do quanto a nacionalidade é algo muito pessoal, discussão frequente no futebol de seleções globalizado de hoje em dia. Tomou a decisão de escolher a seleção portuguesa em detrimento da francesa “com o coração”. Nascido e criado na França, Guerreiro se reconhece como português. Passa as férias em Portugal. Torce por Portugal. Adora a cozinha portuguesa. Sabe cantar la Marseillaise, mas “quando canto o hino português é diferente”. Só tem uma certa dificuldade para falar a língua – que, convenhamos, não é a mais fácil do mundo.

Em 2013, foi contratado pelo Lorient e se destacou na Ligue 1 de 2014/15. Chegou a ser abordado pelo Paris Saint-Germain que procurava um escudeiro para Maxwell. A proposta deve ter sido tentadora, mas Guerreiro estava com a cabeça no lugar. A um ano da Eurocopa no seu país natal, não quis arriscar afundar-se no banco de reservas. Não só foi convocado para o torneio francês como levantou a taça de campeão no Stade de France, construído dois anos depois do seu nascimento, a 20 minutos de carro de onde morou na infância. A grande transferência apareceu novamente, para o Borussia Dortmund, e Guerreiro se consolidou como um belo jogador. De Portugal.

Técnico

Fernando Santos

Fernando Santos é levantado pelos jogadores (AP Photo/Martin Meissner)

A língua portuguesa é muito boa para trocadilhos, então imagina a felicidade da imprensa de Portugal quando descobriu que Fernando Santos era formado em engenharia eletrotécnica e de telecomunicações. Ao sair do Estoril, em 1994, pensou em se afastar do futebol, mas ainda bem que não o fez. Recebeu convite do Estrela da Amadora e, quatro anos depois, finalmente abriu mão da segunda profissão para ser treinador em tempo integral. Foi contratado pelo Porto e conquistou o título português de 1998/99, o quinto seguido da sequência dos Dragões. Claro que seu apelido virou “Engenheiro do Penta”.

Sério, comprometido, muito católico e pragmático, Santos foi um jogador comum e se tornou um treinador competente. Aquele título com o Porto, porém, foi o mais importante da sua carreira (por clubes). Chegou às quartas de final da Champions League e saiu, em 2001, para o seu segundo país. Quando não treina em Portugal, Santos treina na Grécia. Assumiu o AEK Atenas, com ótimos resultados. Conquistou a Copa da Grécia de 2001/02, e perdeu o Campeonato Grego para o Olympiacos no saldo de gols. Uma diferença de apenas dois. Saiu por divergências com a diretoria.

Retornou a Portugal e foi terceiro colocado com o Sporting. Seu maior pecado talvez tenha sido na pré-temporada. Escalou um dos seus jogadores mais promissores em um amistoso contra o Manchester United, o jogo que deixou Alex Ferguson obcecado por Cristiano Ronaldo. “Agora eu me arrependo de tê-lo posto em campo. Uma semana antes, havia perdido Quaresma para o Barcelona, dois dias depois ele foi para o Manchester United”, lembrou. O treinador voltou para o AEK, com um segundo e um terceiro lugar, antes de treinar o Benfica, por uma única temporada, e fechar o ciclo dos três grandes de Portugal.

Adivinha para onde Santos foi depois do Benfica? De volta para a Grécia. Assumiu o PAOK e conseguiu ser vice-campeão grego. Depois de tantos trabalhos sólidos com as equipes do país, foi chamado para assumir a seleção, no lugar de Otto Rehhagel, que havia sido campeão europeu e estava no cargo desde 2001. Dando sequência ao estilo ultra-defensivo da Grécia, conseguiu quartas de final da Eurocopa e oitavas da Copa do Mundo – esta pela primeira vez na história do país.

Após o fracasso de Paulo Bento na Copa do Mundo de 2014, e de uma terrível derrota para a Albânia no início das Eliminatórias da Euro, Santos foi chamado para comandar a nau portuguesa. Com mais poder de fogo, manteve uma estratégia cautelosa, tanto que, na Euro de 2016, conseguiu ganhar pela primeira vez no tempo normal apenas na sexta tentativa, na semifinal contra o País de Gales. E foi a única – o gol do título saiu com Éder, na prorrogação. Já consagrado, Santos leva seus comandados para a Rússia com a intenção de se tornar um treinador lendário no país, talvez o engenheiro do inédito título mundial. Trocadilho intencional.

Uma história da seleção em Copas
Peter Crouch e Cristiano Ronaldo (Foto: Getty Images)

Sintoma do seu tamanho nos primeiros anos de futebol internacional é a quantidade de vezes que Portugal levou pauladas humilhantes de seleções melhores. Na década de vinte, perdeu por 6 a 1 para a Itália, o que pareceria uma exibição defensiva até que consistente diante do 9 a 0 que a Espanha aplicou em 1934. Nos anos quarenta, veio a derrota mais pesada dos lusos na história: 10 a 0 para a Inglaterra, em pleno Estádio Nacional.

A goleada ficaria presa na garganta por muito tempo. Mais ainda porque a Inglaterra continuou sendo soberana em amistosos, com exceção de uma vitória portuguesa por 3 a 1 em 1955, e saiu por cima do duelo com Portugal na Eliminatória para a Copa do Mundo do Chile. As duas seleções caíram juntas em um triangular ao lado de Luxemburgo, que foi goleado três vezes, mas, em casa, conseguiu derrotar os lusos por 4 a 2, na penúltima rodada. Portugal chegou à última partida precisando golear a Inglaterra, mas perdeu por 2 a 0 em Londres e não garantiu passagem à América do Sul.

A chance da vingança surgiu quatro anos depois e fazia os portugueses salivarem. Na década de sessenta, impulsionado pela geração brilhante do Benfica, de Coluna e Eusébio, e treinado por Otto Glória, Portugal fez uma grande Copa do Mundo em 1966. Ganhou os três jogos da fase de grupos, inclusive contra o então bicampeão mundial Brasil, virou para 5 a 3 a partida de quartas de final contra a Coreia do Norte, depois de estar perdendo por 3 a 0, e chegou às semifinais. A próxima adversária seria a anfitriã.

Seria talvez um pouco otimista demais imaginar que a Inglaterra perderia a semifinal de uma Copa do Mundo, em casa, por 10 a 0 (talvez por 7 a 1?), mas Portugal, que nunca havia feito nada de relevante nos grandes palcos e disputava seu primeiro Mundial, poderia ser a zebra que eliminaria o time local, amplamente favorito. E o jogo realmente mostrou que, em 30 anos, suas forças se aproximaram. Bobby Charlton marcou pela segunda vez e fez 2 a 0 apenas aos 35 minutos do segundo tempo. Eusébio ainda descontou, de pênalti, dois minutos depois.

Portugal voltou à Copa do Mundo apenas em 1986 e adivinha contra quem foi a estreia? Em Monterrey, Carlos Manuel marcou o único gol da partida, e finalmente veio uma vitória relevante contra a Inglaterra. Mas ela perdeu importância à medida que o grupo se desenvolveu, e os portugueses perderam para Polônia e Marrocos. Com apenas dois pontos, foram os lanternas do grupo e deixaram o México ainda na primeira fase.

A vingança de fato saiu apenas nas quartas de final da Eurocopa de 2004. Em casa, Portugal eliminou os ingleses nos pênaltis. Mas ainda faltava fazer a mesma coisa na Copa do Mundo. Dois anos depois, jogo tenso e pegado em Gelsenkirchen, pela Copa da Alemanha, terminou em 0 a 0. A polêmica foi a expulsão de Wayne Rooney por um pisão em Ricardo Carvalho. Cristiano Ronaldo, à época ainda jovem e companheiro do ídolo inglês no Manchester United, pressionou o árbitro a dar o cartão vermelho, o que não pegou muito bem com o pessoal da Inglaterra.

Mesmo com um a mais, Portugal de Felipão não conseguiu marcar. A decisão foi para os pênaltis e os lusos novamente saíram vencedores. Lampard, Gerrard e Carragher desperdiçaram suas cobranças. Simão Sabrosa, Hélder Postiga e Cristiano Ronaldo marcaram as suas. Portugal, enfim, devolveu um soco bem dado à Inglaterra e saiu da Alemanha com sua melhor campanha em Mundiais desde… 1966.

Participações em Copas: 6 (1966, 1986, 2002, 2006, 2010, 2014)

Melhor resultado: terceiro lugar (1966)

Como o futebol explica o país
Os protestos de Coimbra

A ditadura portuguesa já havia passado da marca dos 40 anos quando António Salazar, por problemas de saúde, deixou o cargo de primeiro-ministro, em 1968. Marcelo Caetano assumiu o poder, prometendo modernizar o regime. Diminuiria a repressão e a censura. Os primeiros anos do seu governo, quando as pessoas ainda acreditavam nele, foi chamada de Primavera Marcelista. As suas intenções, no entanto, não resistiriam à primeira crise.

Em 1969, houve protesto de milhares de estudantes ao redor do edifício de Matemáticas que seria inaugurado na Universidade de Coimbra. Pediam a democratização do ensino e uma voz aos alunos na administração da universidade. Durante a cerimônia, em que estavam presentes o Reitor, o ministro da Educação e o presidente da República, Américo Tomaz, o dirigente-geral da organização discente Associação Acadêmica de Coimbra (AAC), Alberto Martins, pediu a palavra: “Sua excelência, senhor presidente da República, dá-me licença que use da palavra nesta cerimônia em nome dos estudantes da Universidade de Coimbra? ”.

“Pedi a palavra para falar, mas ele não me autorizou e acabou por abandonar às pressas o anfiteatro onde nos encontrávamos. Subi para uma das cadeiras e fiz, mesmo assim, o discurso para os estudantes que enchiam a sala e o exterior. Falei dos problemas da universidade, do ensino em Portugal e da necessidade da sua democratização”, contou Martins, ao jornal Público. Entre 2009 e 2011, ele seria ministro da Justiça de Portugal. Naquela mesma noite, Martins foi detido pela polícia, que também passou a repreender com mais veemência os protestos dos estudantes. O Governo suspendeu todos os dirigentes da Associação Acadêmica de Coimbra que, em resposta, iniciaram uma greve prolongada às aulas e aos exames. Instalou-se uma grave crise estudantil no país. Enquanto isso, a equipe de futebol da AAC, avançava à final da Taça de Portugal.

A Acadêmica de Coimbra vivia sua melhor fase. A temporada de 1966/67 havia sido a melhor de todas, com o vice-campeonato da liga nacional, a três pontos do Benfica, e a final da Taça de Portugal. Dois anos depois, a equipe em que brilhava o atacante Artur Jorge voltaria à decisão no Jamor. Também contra os Encarnados. E obviamente, naquele clima político, o jogo iria além das quatro linhas. Já havia sido assim na semifinal contra o Sporting. Os jogadores entraram em Alvalade vestidos de branco com uma braçadeira preta, em alusão ao “luto estudantil” que havia sido decretado pelo movimento dos alunos. Questionado, o treinador da equipe, Francisco Andrade, saiu-se com esta: “É apenas uma questão de temperatura. Ninguém vai para a praia de preto, não é? “.

O clima era tenso no Jamor. O regime precaveu-se dos protestos e não permitiu a transmissão pela televisão. Também proibiu referências ao luto no uniforme dos jogadores. Não enviou seus representantes que geralmente atendiam à final, como o ministro da Educação e o próprio presidente da República. Chegou-se até a preparar uma contingência caso a Acadêmica de Coimbra não aparecesse para a partida. O Sporting foi avisado e estava de prontidão. Como temido, as arquibancadas viraram um comício contra o regime, com faixas como “Universidade livre”, “Melhor ensino, menos policiais” e “Ensino para todos”. Eram passadas de mão em mão para a repressão não saber quem as carregava.

Para a festa ficar completa, faltou o título. A dez minutos do fim, Manuel Antônio fez 1 a 0 para a Acadêmica, mas o Benfica empatou. Eusébio, na prorrogação, deu o troféu ao Benfica. “Tenho pena de não termos vencido, mas, por outro lado, as consequências poderiam ser complicadas”, admitiu Manuel Antônio, ao Público. Em 2012, a Acadêmica de Coimbra retornaria à final da Taça de Portugal. Venceu o Sporting por 1 a 0 e ficou com o título que havia escapado 43 anos antes. E, para manter a tradição, as arquibancadas mais uma vez foram tomadas por protestos: “Quero direito a um futuro”, “Mãe, estou no desemprego” e “Propina mais alta da União Europeia”.

O que a Copa de 2018 significa para a seleção

O título da Eurocopa tirou um peso das costas da seleção portuguesa. Assim como de Cristiano Ronaldo, que conseguiu uma improvável glória com o seu time nacional. No entanto, representa uma faca de dois gumes porque, agora, Portugal precisa lidar com a expectativa de disputar a Copa do Mundo como atual campeã europeia e provar que a campanha da França não foi um acidente.

Jogos da Copa 

Sexta-feira, 15/06 – 15h – Portugal x Espanha

Quarta-feira, 20/06 – 09h – Portugal x Marrocos

Segunda-feira, 25/06 – 15h – Irã x Portugal 

Ficha técnica

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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