Copa do Mundo

Guia da Copa do Mundo de 2018: Arábia Saudita

Como foi o ciclo da seleção até a Copa

A Arábia Saudita volta à Copa do Mundo, mas o ciclo do país foi bastante conturbado. A seleção saudita trocou de técnicos quatro vezes ao longo dos últimos quatro anos, depois de ficar fora do Mundial de 2014. Quando o ciclo começou, o comandante era o romeno Cosmin Olaroiu.

A primeira competição foi a Copa da Ásia de 2015 e os sauditas tiveram uma campanha fraca. Apesar do grupo modesto, com Uzbequistão, China e Coreia do Norte, só conseguiu vencer os norte-coreanos. Perderam dos outros dois. Eliminados ainda na fase de grupos, resultado que custou o emprego de Olaroiu. Faisal Al Baden ficou interinamente de março até agosto de 2015. Ele fez o primeiro jogo das eliminatórias, mas quem dirigiu pelo resto da campanha foi o holandês Bert van Marwijk, finalista com a Holanda na Copa 2010.

Ao longo dos últimos anos, a Arábia Saudita ganhou força no seu futebol local e o Al-Hilal, o maior time do país, teve sucesso internacional. Em 2014 e 2017, o time foi finalista da Champions League da Ásia, mas perdeu as duas. Se tornou a base da seleção, a ponto de ter nove jogadores entre os 23 convocados. Outros sete são do Al-Ahli local (um nome comum entre os países árabes).

Sem acordo para renovação do contrato, Marwijk deixou o cargo dias depois de garantir a classificação para a Rússia. Veio então Edgardo Bauza, ex-San Lorenzo e São Paulo, além da seleção argentina. Mas ele durou pouco: cinco jogos, de setembro e novembro. O técnico argentino não aceitou mudanças na sua comissão técnica, nem morar na Arábia Saudita nos meses antes do Mundial, embora a justificativa da demissão tenha sido mau desempenho nos amistosos. Problema parecido com o que Bert van Marwijk enfrentava.

O técnico holandês, aliás, foi procurado após a demissão de Bauza e recusou voltar dois meses depois de deixar o time – ele acabaria assumindo a Austrália, em janeiro de 2018. O escolhido então foi Juan Antonio Pizzi, técnico demitido do Chile após não conseguir classificar os sul-americanos para a Copa. Em termos de desempenho, não melhorou, mas vai ter que ser assim mesmo. Por isso, as expectativas sauditas não são altas.

Como joga

Pizzi tem colocado o time para jogar em um 4-2-3-1, ainda tentando encontrar a melhor formação. Com um trabalho tão recente e com resultados ruins, é provável que o técnico continue mudando o time em busca de uma formação mais segura. Com seu modo de pensar futebol, Pizzi mudou a abordagem do time, que tem mais posse de bola e se tornou mais perigoso ofensivamente. Se antes era um time de contra-ataque, o que dá para esperar do time de Pizzi é mais posse de bola – e mais fragilidade defensiva, que sofre com a velocidade dos ataques adversários, além de pouca experiência em um nível alto de competitividade.

Time base: Yasser Al-Mosailem; Mohammed Al-Breik, Omar Hawasani, Osama Hawasani e Yasser Al-Shahrani; Abdullah Otayf e Taisir Al-Jassim; Fahad al-Muwallad, Yahya al-Shehri e Salem al-Dawsari; Mohammad Al-Sahwali. Técnico: Juan Antonio Pizzi.

Dono do time

Fahad al-Muwallad

Fahad al-Muwallad, de 23 anos, é um dos três jogadores que atua no exterior entre os convocados. Segundo o ex-jogador da seleção e craque da Copa de 1994, Sami Al-Jaber, Muwallad é o Messi da Arábia Saudita. Não tão bom quanto o argentino, alerta o ex-jogador, mas tão importante para os sauditas quanto o craque do Barcelona é para os argentinos. É o destaque ofensivo do time, o mais criativo e habilidoso.

Bom coadjuvante

Yahya Al-Shehri

Yahya Al-Shehri, 28 anos, é considerado um dos talentos do país e foi emprestado pelo Al-Nassr ao Leganés em janeiro de 2018. Não jogou pelo clube espanhol, mas segue como um dos melhores jogadores sauditas. É criativo e um dos jogadores que deve dar trabalho às defesas adversárias. Se por um lado o atleta chega descansado à Rússia, a falta de ritmo de jogo se torna um problema.

Fique de olho

Abdullah Al-Khaibari

Abdullah Al-Khaibari é o mais jovem jogador entre os convocados da Arábia Saudita, com 21 anos. Foi trazido ao elenco por Pizzi e tem apenas quatro jogos pela seleção. Foi um dos destaques da última temporada da liga saudita jogando pelo Al-Shabab.

Personagem

Salem al-Dawsari

O ponta Salem al-Dawsari é um destaque do time e é alguém de muita personalidade. Em 2015, ele tentou dar uma cabeçada em um árbitro em clássico do seu time, Al-Hilal, contra o Al-Nassr. Aos 26 anos, é um dos jogadores que chegaram em janeiro para jogar emprestados na Espanha. Dawsari foi para o Villarreal e, assim como os seus compatriotas Yahya Al-Shehry e Fahad Al-Muwallad, jogou pouco. O jogo que ele entrou, porém, foi bastante significativo.

Foi na última rodada do Campeonato Espanhol, no dia 19 de maio, e contra um adversário de peso: o Real Madrid. O Villarreal perdia por 2 a 0, gols de Gareth Bale e Cristiano Ronaldo. Animado por ter marcado um dos gols da Arábia Saudita contra a Grécia dias antes, ele entrou como ponta direita e causou problemas ao gigante merengue. Aos 25 minutos, participou de uma bela troca de passes com Rodri e Pablo Fornals, que acabou no gol de Roger Martínez. Depois, aos 40, Samu Castillejo empatou o jogo para o Villarreal. A atuação de Dawsari foi positiva e ele saiu de campo com moral. Seu primeiro e único jogo pelo Villarreal teve visibilidade e uma atuação de destaque nos 33 minutos disputados. Talvez ajude a chegar com confiança na Rússia para a Copa do Mundo.

Técnico

Juan Antonio Pizzi

Pizzi, técnico da Arábia Saudita

Juan Antonio Pizzi, 49 anos, é argentino de nascimento, mas espanhol por naturalização. Ficou famoso como jogador na Espanha atuando, principalmente, pelo Barcelona entre 1996 e 1998, ao lado de nomes como Ronaldo e Giovanni. Chegou à Espanha em 1991 para atuar pelo Tenerife e passou também pelo Valencia. Jogou a Eurocopa de 1996 e Copa de 1998 pela Espanha.

Como técnico, é um seguidor de Bielsa e, até por isso, tenta implantar um jogo baseado, em alguma medida nos conceitos de “El Loco”. Seu trabalho de maior destaque foi mesmo com a seleção do Chile, onde substituiu Jorge Sampaoli. Ele conseguiu ganhar a Copa América Centenário de 2016 em final contra a Argentina, além de ter levado a seleção à final da Copa das Confederações contra a Alemanha.

A campanha que culminou no fracasso à classificação chilena para a Copa 2018 rendeu a ele o famoso bilhete azul, a demissão. No fim, ele não conseguiu levar o Chile à Copa, mas vai para o Mundial pela Arábia Saudita. É uma grande chance para mostrar o que ele consegue fazer com uma das seleções mais fracas da Copa.

Uma história da seleção nas Copas

A Arábia Saudita estreou a sua história em Copas do Mundo em 1994, nos Estados Unidos. A estreia foi pesada, contra a Holanda. Até marcaram primeiro, mas tomaram a virada por 2 a 1, deixando o campo de cabeça erguida. No segundo jogo, os sauditas surpreenderam e venceram Marrocos, de virada, por 2 a 1. Mas a classificação era improvável: era preciso vencer a Bélgica. E foi com um golaço de Saeed Owairan, driblando meio time, que os sauditas venceram por 1 a 0 e foram às oitavas de final. A campanha acabaria ali, em uma derrota por 3 a 1 para a Suécia.

O golaço chamou a atenção do mundo. Apelidado, com uma boa dose de exagero, de “Maradona das Arábias” – uma referência ao gol do craque argentino em 1986 -, o atacante atraiu atenção de clubes europeus. O problema é que a lei saudita não permitia que um jogador do país atuasse no exterior. Ele ficou mesmo no seu primeiro e único clube, Al-Shabab. Se tornou uma estrela do país, fazendo propagandas para diversas empresas. Ganhou um carro de luxo pelo desempenho nos Estados Unidos e foi eleito o jogador da Ásia naquele ano. Esse, porém, foi o apogeu. Viria a queda.

Durante o Ramadã, em 1996, Owairan foi flagrado no Egito em uma boate com prostitutas. Foi afastado dos gramados por um ano, julgado pelas restritivas leis do país, condenado e preso, mas cumpriu apenas seis meses na cadeia. Voltaria a tempo de jogar a Copa das Confederações de 1997 e a Copa de 1998, mas em ambas o país teve campanha ruim, sem passar da fase de grupos. Owairan não marcou mais gols e nem repetiu as boas atuações. Fora de forma física e técnica, decidiu se retirar dos gramados em 1999, aos 32 anos, sem corresponder às expectativas criadas sobre aquele jogador que brilhou em 1994.

Participações em Copa: quatro (1994, 1998, 2002, 2006)
Melhor campanha: oitavas de final (1994)

Como o futebol explica o país

O futebol na Arábia Saudita possui uma ligação grande com o governo. A federação foi fundada em 1956, mas o campeonato local era regionalizado até os anos 1970. A profissionalização de vez veio só nos anos 1990. E os efeitos foram vistos rapidamente. São quatro Copas do Mundo desde então, estreando em 1994 e jogando 1998, 2002 e 2006. Volta em 2018, depois de ausência nas duas últimas edições. Novamente, não por acaso em um momento que o país ganha força na Fifa. Mais fora de campo que em campo.

A Arábia Saudita nunca foi uma potência no futebol, ao menos em campo, mas nos últimos anos vem ganhando espaço em termos de força política. Por exemplo, os sauditas são muito assediados para uma das decisões mais importantes da Fifa, a escolha da sede da Copa 2026. A candidatura tripla Estados Unidos, México e Canadá visitou a Arábia Saudita recentemente para tentar conquistar os votos dos sauditas e não é por acaso. O país virou líder de um bloco, a Federação de Futebol do Sudoeste da Ásia. Com isso, influencia diretamente 12 votos em decisões da Fifa, como essa. E esse é só um dos indícios de poder dos sauditas no futebol.

O governo da Arábia Saudita comanda também o futebol do país, através da família real. O futebol é parte de um plano maior do governo saudita de modernizar o país e ficar menos dependente do petróleo, em processo comandado pelo príncipe-herdeiro Mohammed bin Salman (exaltado na foto acima). A nação tem investido em esportes, por exemplo, ao fechar contrato com a WWE (luta livre) e com a Fórmula E para ter uma corrida por lá. Nesta semana, fecharam a realização da Supercopa Italiana, entre Juventus e Milan. Há também um desejo de se criar uma rede de televisão de esportes.

Mais: a nova federação, que fica abaixo da AFC, a confederação asiática, tem por objetivo criar uma nova competição e financiar o desenvolvimento de esporte, algo que foi anunciado por dirigentes sauditas aos novos integrantes desse bloco, presenteados com relógios caros na reunião. Há suspeitas que sejam atitudes ilegais dentro do regulamento da Fifa, mas por enquanto passou batido pela entidade maior do futebol.

A Arábia Saudita está por trás de uma proposta que mexeu com a Fifa nos últimos meses: um consórcio, do qual os sauditas fazem parte, ofereceu US$ 25 bilhões para criar um novo Mundial de Clubes e uma Liga Mundial de Nações. A ideia foi bem recebida pelo presidente Gianni Infantino, mas encontrou resistência em outros lugares, especialmente na Uefa. De qualquer forma, foi uma demonstração de força dos sauditas, que agora possuem trânsito com as principais lideranças do futebol do mundo, algo que raramente aconteceu.

Isso logo quando o vizinho Catar sediará uma Copa, em 2022, exercendo um poder que construiu ao longo dos anos. Não parece coincidência, já que desde 2017 há um bloqueio econômico ao Catar liderado pela Arábia Saudita. Há temores que isso afete a Copa de 2022, se não mudar o cenário político até lá. Os sauditas apoiam uma medida que a Conmebol pede à Fifa: que a Copa com 48 seleções já passe a valer em 2022. Com isso, a Copa não poderia ser apenas no Catar, que é um país muito pequeno para abrigar um aumento de 50% no número de seleções. Só que os países vizinhos bloqueiam o Catar. Significaria um enorme problema para o Catar. E um grande ganho para a Arábia Saudita, em termos políticos – e muito além do futebol.

O modus operandi da Arábia Saudita no futebol mostra muito da atuação do país politicamente: muito dinheiro para comprar influência nos círculos mais altos do poder. E vem mais por aí, com o Estado Saudita oferecendo grande ajuda aos clubes do país com vista a tornar os clubes potências regionais na Ásia. A mesma fórmula é usada dentro e fora de campo: despejo de dinheiro em busca da força – esportiva em campo, política fora dele.

O que a Copa de 2018 significa para a seleção

A Arábia Saudita tem na Copa do Mundo da Rússia uma oportunidade de buscar fazer o mesmo barulho que causou em 1994. Só que desta vez é um pouco mais difícil, ainda que o grupo, por si, não seja dos mais difíceis. A Copa é uma oportunidade da Arábia Saudita tentar ser em campo o que tem se tornado fora dele: alguém com poder e influência. Em campo, nunca foi. Uma classificação às oitavas de final, em um grupo que tem o Uruguai, bicampeão do mundo, e a anfitriã Rússia, além do Egito do badalado Mohamed Salah, seria um grande feito para um país que quer ser muito mais influente até 2022 – em campo e fora dele.

Jogos na Copa

Quinta-feira, 14/06 – 12h – Rússia x Arábia Saudita

Quarta-feira, 20/06 – 12h – Uruguai x Arábia Saudita

Segunda-feira, 25/06 – 11h – Arábia Saudita x Egito

Ficha técnica

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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