Copa do Mundo

Courtois marcou a diferença entre uma grande noite e uma vitória histórica à Bélgica

Há uma responsabilidade que se carrega ao vestir a camisa 1 da Bélgica. O país diminuto teve a honra de contar com alguns dos melhores goleiros da história. Com monstros, que também brilharam em Copas do Mundo. Jean-Marie Pfaff e Michel Preud-Homme provocaram o espanto tantas vezes por seus milagres sob as traves, reconhecidos por atuações espetaculares em Mundiais, a ponto de fazerem os Diabos Vermelhos irem além de suas possibilidades. Não se negava que, em questão de talento, Thibaut Courtois estava no nível de seus antepassados na posição. O jogo desta sexta, no entanto, serve como um divisor de águas para qualquer arqueiro. A noite em que um craque de luvas se torna herói nacional. Se os belgas avançam às semifinais da Copa de 2018, em sua maior vitória na história do torneio, é por causa do camisa 1. Uma apresentação gigante, e que não se apagará.

A capacidade de Courtois sob as traves está fora de questão. E mesmo na Copa do Mundo de 2014, decepcionante à Bélgica, o goleiro tinha se despedido acima da crítica. Fez defesas importantes na fase de grupos, para evitar uma impressão pior quanto à falta de embalo dos Diabos Vermelhos. Nas oitavas de final, assim como Tim Howard, trabalhou dobrado, e operou uma defesa fundamental para garantir a classificação, diante de jogada ensaiada dos americanos. Por fim, sem ter o que fazer no gol da Argentina, salvou uma bola que deu sobrevida à sua equipe. Nada que merecesse visões negativas, muito pelo contrário.

O ciclo de Courtois antes do Mundial de 2014 era favorável. O goleiro de 22 anos recém-completados vinha de três temporadas fantásticas com o Atlético de Madrid, essencial aos sucessos recentes do clube na Liga Europa, na Copa do Rei e no Campeonato Espanhol. Pelo potencial que apresentava, não havia muitas dúvidas que ele poderia se tornar o melhor goleiro do mundo – em uma época na qual já figurava entre o suprassumo da posição. Os quatro anos seguintes com o Chelsea, todavia, não se preencheram por completo. Courtois não deixou de se mostrar um goleiraço, foi importante para novas conquistas com os Blues e seguiu intocável na seleção. Sua curva de progressão, ainda assim, dava impressão de não atingir o nível que se previa no Atleti.

Durante a Copa do Mundo de 2018, uma bola ou outra suscitou resmungos contra Courtois. Sua participação na primeira fase não passou da discrição. E contra o Japão, bem pior que os dois gols que tomou, foi o frangaço que quase engoliu durante o primeiro tempo. A sorte lhe sorriu e, devido reconhecimento, o camisa 1 faria defesas importantes para evitar o terceiro tento dos nipônicos. A reação dos Diabos Vermelhos dependeu diretamente do arqueiro, inclusive iniciando o contra-ataque que consumou a virada no último lance.

Contra o Brasil, obviamente, a exigência seria maior a Courtois. O goleiro correspondeu e ratificou a importância de se contar com um grande goleiro numa competição tão intensa como a Copa do Mundo. Durante o primeiro tempo, o camisa 1 belga contou com um bocado de sorte no desvio de Thiago Silva. Depois, passou a se agigantar para segurar a vantagem. Foram quatro defesas antes do intervalo, as duas melhores depois do segundo tento. Em um chute desviado de Marcelo, ele teve agilidade o suficiente para mudar o corpo de direção e rebater a escanteio. Pouco depois, Philippe Coutinho buscou o canto e o gigante aproveitou sua envergadura para espalmar.

A exaltação a Courtois, de qualquer forma, vem pelo segundo tempo irretocável que fez. O Brasil martelou. Finalizou 17 vezes, contra apenas uma da Bélgica. Seis delas foram em direção ao gol. E ainda que não tenha conseguido evitar o tento de Renato Augusto, foram várias as defesaças do belga. Quando Paulinho invadiu a área, Courtois abafou. Douglas Costa bateu cruzado e o arqueiro se esticou para espalmar. De novo contra Douglas Costa, encaixaria com segurança e rebateria outra vez em tiro cruzado. Por fim, a grande intervenção viria no último lance de perigo da partida. A última esperança da Seleção, negada pelo paredão.

O chute de Neymar não veio com tanta força, não seguiu tão ao canto. Mas tinha sido arrematado com esmero para dar o empate ao Brasil no terceiro minuto dos acréscimos. Vinha com curva. Caía com veneno. Tinha endereço. E só não entrou porque Courtois apareceu. Um passo, o salto, mão trocada, ponta dos dedos na bola, a salvação passando sobre o travessão. A expectativa, de um lado aliviada pelo milagre, por outro se destroçava na certeza do que não aconteceria. Se o gol foi negado tantas vezes no segundo tempo, não seria depois da defesaça que a Seleção conseguiria. O camisa 1 tratou de encerrar a campanha brasileira. De empurrar os belgas à frente.

A Bélgica conquistou contra o Brasil aquele que, até o momento, é o grande resultado de uma geração. Courtois merece o reconhecimento como um dos protagonistas. Se a sua forma não se manteve nos últimos tempos, um jogo de Copa do Mundo basta para alimentar o imaginário e eternizar os grandes jogadores. Foi um passo que o camisa 1 deu nesta sexta-feira, em Kazan. Todos os seus predicados, aliás, estiveram à mostra. As saídas de gol seguras, a elasticidade, a envergadura, o bom posicionamento, agilidade. Foi o seu melhor, quando o Brasil botou isso à prova.

A história que esta Bélgica deseja é o título mundial. Courtois continuará sendo testado, e qualquer goleiro não pode se dar ao luxo de se sentar no trono por apenas uma atuação de alto nível. A cobrança segue em frente, até pela maneira como o belga se porta, em dose de confiança que cruza a linha tênue com a arrogância. Mas ele tem a consciência que, taça em mãos, entrará para um panteão seleto. A sequência do torneio será importante para o seu futuro, considerando o fim do seu contrato com o Chelsea em junho de 2019. Será importante também para a maneira como os torcedores o verão no futuro. A partidaça contra o Brasil, ainda assim, já é um legado a tudo que a camisa 1 belga representa.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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