Copa do Mundo

Contos Russos #06 | Um futebol sem grandes

Das sete seleções campeãs do mundo, só três ganharam na estreia, duas garantindo a vantagem no chuveirinho dos instantes finais, Uruguai e Inglaterra, e uma com o gol da vitória, contra, faltando coisa de dez minutos, a França. Cada jogo com particularidades e nível de adversário, óbvio ululante. Mas com cara e duelo mental bem parecidos, diante do fato de que nenhum time com troféu na estante conseguiu matar o seu jogo.

Claro, tiremos o empate entre Espanha e Portugal, o melhor jogo da Copa, se não dos últimos tempos do futebol de seleções, um duelo felizmente atípico para quem está curtindo a Copa. E Portugal é só campeã europeia e teve o melhor jogador do mundo numa jornada rara e única até mesmo para ele próprio.

De resto, de forma geral, o que se viu foram jogos em que a camisa mais pesada não conseguiu colocar sua proposta de jogo definitivamente acima do adversário. Há posse de bola, há chances desperdiçadas, há uma expectativa para o gol até o fim, mas seria exagero dizer que houve um massacre diante de um rival nas cordas. Vários bons inícios, momentos em que parece que o jogo vai ser encaminhado com facilidade, mas a foto que resume o jogo é a da disputa de bola, a do equilíbrio. Uma Copa do Mundo em que os grandes não andam tão grandes, superiores em tese, mas não temidos. Respeitados e, acima de tudo, estudados, mas a todo momento alcançados.

A Inglaterra começou o jogo voando, em 15 minutos se desapegou dos últimos fracassos e antes do intervalo deu tantos chutes no gol que as estatísticas foram voltar lá ao time campeão de 1966, de Charlton e Hurst – mas toma o gol e volta a escancarar problemas e ver sumir a intensidade. O Brasil, idem: inicia em bom ritmo, mostra as credenciais, se apresenta com um golaço, volume, belos passes… até levar o empate e sentir o peso do mundo nas costas. A Argentina, com menos repertório, tinha Messi querendo jogo, Aguero marcando pela primeira vez em Copas, mas surgem os buracos na defesa, o gol do empate e pronto, toca para o craque e torce, com a fila de conquistas carregada nos meiões.

A França, quem diria, poderia ter saído com um empate diante da Austrália e ninguém remeteria à injustiça dos deuses do futebol ou atuação perfeita do goleiro rival. O Uruguai, animado com novos ventos no meio do campo e com uma dupla de ataque com qualidade, recorreu à boa e velha pressão no fim. E a Alemanha, pior ainda – também terminou o jogo rondando a área do azarão assim como seus colegas de título mundial, mas com desvantagem no placar e contra o time que fez a atuação mais completa dentre os adversários dessa série de partidas.

Para quem pegou as partidas de rabo de olho, viu só os melhores momentos ou foi atravessado por cervejas no boteco, não é um grande exagero dizer que as seleções brasileira, argentina, inglesa, alemã e uruguaia terminaram seus jogos mais ou menos no mesmo tom. A transmissão só em meia tela, no contraste do favorito se mantendo coerente com a ideia de futebol ou desesperando numa luta incansável pela vitória, até sair de campo sem conseguir, de fato, colocar o jogo debaixo do braço.

No Mundial sem espaços, os grandes estão menos grandes. Ainda considero que o desempenho da Espanha se salvou – mesmo com o empate, erros individuais e Ronaldo, controlou os nervos do jogo ao seu estilo. De resto, as palmas ficam para México, Islândia e Suíça. Estão igualando com personalidade, sem medo de estrela no peito, numa Copa especialmente difícil para as camisas das capas dos livros.

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