Copa do Mundo

Foi na tática, na técnica e, principalmente, na garra: a Alemanha bate Argentina e é tetra

A crônica

Um grande campeão não tem apenas um tipo de método para chegar ao título. A Alemanha, que na semifinal deu um banho tático no Brasil e goleou, não teve a mesma facilidade na final contra a Argentina e, diante disso, recorreu à garra, tão característica do oponente deste domingo, para ficar com sua quarta conquista de Copa do Mundo. Um belo gol de Mario Götze no segundo tempo da prorrogação garantiu a vitória por 1 a 0 e foi o toque final de uma campanha marcante para a Nationalmannschaft, que, durante a caminhada, ganhou a simpatia e até mesmo a torcida de grande parte dos anfitriões.

Como era esperado, a Alemanha valorizou a posse de bola e a teve por todo o primeiro tempo. No entanto, diferentemente do jogo no Mineirão com o Brasil, o adversário, desta vez a Argentina, oferecia resistência com qualidade. Alejandro Sabella povoou o meio de campo e pareceu ter conseguido entrar na mente de seus comandados ao destacar a importância da marcação intensa. Lucas Biglia não deixava Toni Kroos sozinho, Mascherano seguia como o cão de guarda de sempre, e Lavezzi e Pérez, pontas direita e esquerda, nesta ordem, voltavam para marcar com qualidade.

Com uma marcação tão boa, a Argentina oferecia pouco espaço, atraía a equipe da Alemanha para seu campo e ganhava terreno para contra-ataque. A primeira boa chance assim veio após cobrança de falta dos alemães. Depois de uma jogada ensaiada deveras desnecessária, a bola acertou a barreira, e Lavezzi pegou a redonda e arrancou para o contra-golpe. Ganhou a dividida com Hummels, foi à frente na base da vontade e tocou à frente. Após um bate-rebate, Higuaín pegou a sobra e bateu cruzado, e a bola passou rente à trave.

A final de uma Copa do Mundo era o grande palco em que faltava Lionel Messi brilhar, e o peso dessa responsabilidade pareceu não pesar sobre os ombros do camisa 10. Aos oito minutos, a primeira mostra do quão leve estava, apesar das circunstâncias: uma grande arrancada, deixando Hummels bem para trás. Da direita – lado bastante explorado pela Argentina por causa da fragilidade defensiva do improvisado Höwedes por ali -, tentou o cruzamento rasteiro, mas a atenta defesa alemã chegou para interceptar.

Apesar de ter mais a bola e propor o jogo nos 20 minutos iniciais, a Alemanha não levava tão perigo quanto a Argentina, que apostava nos contra-ataques incisivos e quase sempre perigosos. Ainda assim, mesmo com os dez minutos de boas investidas, a Albiceleste havia dado uma estagnada, com a Nationalmannschaft crescendo e neutralizando os comandados de Sabella. Isso até Toni Kroos dar um presentaço a Higuaín. O meio-campista tentou recuar a bola de cabeça, errou na força, e o atacante recebeu sozinho, de frente para Neuer. Para o camisa 9, o peso da partida foi relevante. Sem sequer olhar para o gol, pegou mal na bola, mandando-a à direita da trave.

A resposta da Alemanha veio pelo lado direito do ataque, sete minutos depois. Philipp Lahm cruzou baixo, de trivela, Müller não alcançou a bola, mas Romero precisou dar uma bela ponte para evitar o gol do lateral direito. Na seqüência desse lance, a Argentina protagonizou a jogada de mais emoção da etapa inicial.

No meio do campo, Messi transforma um tijolo de um companheiro em um passe ao dominar com sucesso, tirando do alcança do marcador, e virando o jogo com maestria para Lavezzi. O atacante então cruzou para Higuaín, que pegou de primeira, no contrapé de Neuer, para balançar a rede. No entanto, o gol foi bem anulado pela posição de impedimento do camisa 9.

Certeza na escalação alemã até minutos antes do jogo começar, Khedira foi desfalque da Alemanha após sentir lesão durante o aquecimento no gramado do Maracanã. Com isso, quem ganhou uma chance na grande decisão foi Christoph Kramer, que nunca havia sido titular na seleção. A participação do jovem de 23 anos, no entanto, durou menos que ele gostaria. Aos 31 minutos, o volante, que havia levado uma pancada de Garay em lance no começo do jogo, teve de deixar o campo por complicação daquela dividida. Em seu lugar entrou André Schürrle, em uma alteração que mudou também a disposição tática dos comandados de Löw. Kroos foi recuado, Özil posicionado mais ao centro, e o jogador do Chelsea colocado aberto pela esquerda, onde antes estava o atleta do Arsenal.

Depois de ter completado a goleada alemã sobre o Brasil com dois gols no segundo tempo do jogo no Mineirão, Schürrle mostrou ser mesmo um bom substituto, levando perigo a Romero pouco depois de entrar. Após boa jogada de Müller pela esquerda, o meia-atacante completou com uma forte finalização, parada brilhantemente pelo goleiro argentino.

Eventualmente, a bola chegava nos pés de Lionel Messi no ataque da Albiceleste, e quando isso acontecia era quase certeza de risco à defesa alemã. Aos 39, o camisa 10 recebeu na intermediária, arrancou em direção ao gol, conseguiu se manter de pé apesar da forte marcação e, após ajeitar a bola com a cabeça, finalizou na saída de Neuer, que fechou o ângulo e desviou a trajetória da bola, evitando que o placar fosse inaugurado.

Nos acréscimos da etapa inicial, a Alemanha conseguiu sua melhor chance em cobrança de bola parada. Após escanteio, Höwedes subiu na pequena área e cabeceou forte, acertando a trave. Na volta, a bola bateu no impedido Müller e caiu nas mãos de Romero, muito seguro durante todo o jogo.

Para o segundo tempo, Alejandro Sabella voltou com Agüero no lugar de Lavezzi. Tecnicamente, o substituto era melhor, mas, mal fisicamente, não poderia reproduzir o ímpeto na marcação que Lavezzi havia apresentado na primeira etapa, fechando com o meio-campo. E foi justamente isso que o treinador pretendia para a etapa complementar. A Argentina mudou sua postura, começou a jogar mais solta e mais ofensiva, equilibrou mais a posse de bola e diminuiu a troca de passes da Alemanha em seu campo.

Logo aos dois minutos, aquela que poderia ser a bola da final caiu nos pés de Lionel Messi. O craque argentino recebeu bom passe e saiu na cara de Manuel Neuer. À esquerda, o canhoto não estava no melhor lugar para a finalização, mas ainda assim tentou o chute rasteiro, cruzado, e viu a bola passar rente à trave do alemão.

A Argentina estava com uma marcação diferente no segundo tempo. Não marcava mais com a mesma intensidade, já que tinha mais posse de bola que antes. Dava mais espaço para o meio de campo alemão, mas estes não conseguiam manter o padrão de jogo da etapa inicial. A Alemanha não conseguia mais envolver os argentinos no passe e, quando chegavam ao ataque, lhe faltava capricho no último toque ou mesmo coragem para arriscar a finalização de fora da área.

Na metade do segundo tempo, a Argentina empurrava ainda mais a Alemanha contra o campo de defesa. Com a dificuldade na armação de jogadas, a Albiceleste apostava em sua grande arma, Lionel Messi. Em duas vezes seguidas, o camisa 10 foi buscar a bola na ponta direita e, com boas jogadas individuais, se livrou da marcação e bateu com perigo, mas sem sucesso. Aos 36 minutos, a última boa chance de ambos os lados de abrir o placar ainda no tempo regulamentar veio com os alemães. Mesut Özil fez a jogada pela direita e ajeitou para trás. Kroos chegou batendo rasteiro, colocado, mas errou por muito o alvo.

Se a expectativa para o tempo extra era de mais precaução que nos 90 minutos normais, isso foi quebrado antes mesmo do primeiro minuto. Aos 30 segundos, Schürrle recebeu bom passe dentro da área e pegou forte, de primeira, mas sem precisão, mandando a bola em cima de Romero. No minuto seguinte, em contra-ataque, a Argentina também levou perigo, mas Agüero bateu cruzado, rente ao gol, e a bola saiu pela linha lateral.

Aos seis minutos, a Argentina teve mais uma da série de chances incríveis de gol. Após cruzamento vindo da esquerda, Hummels subiu mal e não alcançou a bola. Palacio então dominou no peito e, vendo a aproximação de Neuer, tentou encobrir o goleiro alemão, mas errou o alvo.

Depois de vários minutos sem nenhuma grande chance, a Alemanha chegou ao gol do título talvez no único “vacilo” da defesa argentina, se é que podemos classificar assim. Aos oito minutos do segundo tempo da prorrogação, em jogada similar ao sétimo gol contra o Brasil, Schürrle cruzou na primeira trave, e Götze dominou no peito, batendo em seguida no alto, sem deixar a bola cair, para fazer o gol do tetracampeonato alemão.

Eleito o melhor jogador da Copa do Mundo pela Fifa, Messi teve a grande chance de empate da Argentina aos 17 minutos. A cobrança de falta era de longe, mas a bola estava com o grande craque do planeta nos últimos cinco anos. Infelizmente para o argentino, o momento de brilhar era mesmo da coletividade dos alemães, e não de sua individualidade. O chute passou longe, por cima do travessão.

Dessa maneira, com emoção, com a tática de lado e a garra como recurso, a Alemanha chegou à sua quarta conquista de Copa do Mundo, igualando a Itália e ficando a uma taça do recordista Brasil. Assim como foi com brasileiros e italianos, foram necessários 24 anos de espera entre o tricampeonato e o tetra. Seis Mundiais depois, sendo um deles em sua própria casa, a Nationalmannschaft colhe os frutos que plantou nos últimos anos e está no topo do mundo mais uma vez.

FICHA TÉCNICA

Alemanha 1×0 Argentina

Alemanha

Alemanha escudoManuel Neuer; Philipp Lahm, Jérôme Boateng, Mats Hummels e Benedikt Höwedes; Christoph Kramer (André Schürrle, 31’/1T), Bastian Schweinsteiger e Toni Kroos; Thomas Müller, Miroslav Klose (Mario Götze, 42’/2T) e Mesut Özil (Per Mertesacker, 15’/2TP). Técnico: Joachim Löw.

Argentina

Argentina escudoSergio Romero; Pablo Zabaleta, Martín Demichelis, Ezequiel Garay e Marcos Rojo; Lucas Biglia, Javier Mascherano, Ezequiel Lavezzi (Sergio Agüero, intervalo), Lionel Messi e Enzo Pérez (Fernando Gago, 41’/2T); Gonzalo Higuaín (Rodrigo Palacio, 33’/2T). Técnico: Alejandro Sabella.

Local: Maracanã, no Rio de Janeiro

Árbitro: Nicola Rizzoli (ITA)

Gols: Mario Götze, 8’/2TP

Cartões amarelos: Bastian Schweinsteiger, Benedikt Höwedes, Javier Mascherano, Sergio Agüero

Cartões vermelhos: Nenhum

O cara

Mario Götze
Mario Götze, herói aos 22 anos
Mario Götze, herói aos 22 anos

Entrou no final do tempo regulamentar, já para a disputa do tempo extra, e, aos 22 anos, deu o título à Alemanha com um lindo gol. Estrela maior que isso não existe. Apesar de não ter feito uma grande campanha individual no Mundial, deixa a competição como herói máximo.

Os gols

8’/2TP: GOL DA ALEMANHA!

André Schürrle cruza a bola da esquerda, Mario Götze domina no peito e bate no alto, sem deixar a bola cair, abrindo o placar para a Alemanha.

A Tática

As escalações iniciais de Alemanha e Argentina
As escalações iniciais de Alemanha e Argentina

Como contra o Brasil, a Alemanha trabalhava mais a bola, com aproximações dos jogadores para passes curtos, sempre com mais de uma opção de toque. Com a bola, Kramer ia para a frente, posicionando-se na frente da área, como opção de passe; Özil descia em diagonal para o meio, e Kroos também se aproximava. Para marcar os alemães, a Argentina povoou muito bem o meio do campo. Além dos cabeças de área Biglia e Mascherano, Lavezzi e Pérez desciam para ajudar na marcação. Messi, à frente, flutuava com liberdade atrás de Higuaín.

A Estatística

171

O gol de Mario Götze, que deu à Alemanha o título da Copa, foi o de número 171 nesta edição do Mundial, igualando a Copa de 1998 como aquela com mais gols.

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Leo Escudeiro

Apaixonado pela estética em torno do futebol tanto quanto pelo esporte em si. Formado em jornalismo pela Cásper Líbero, com pós-graduação em futebol pela Universidade Trivela (alerta de piada, não temos curso). Respeita o passado do esporte, mas quer é saber do futuro (“interesse eterno pelo futebol moderno!”).

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