Por Leandro Stein, da Trivela, e Emmanuel do Valle, do Flamengo Alternativo

Neste domingo, Manchester United e Southampton se encontram em Wembley. As duas equipes da Premier League decidirão quem vai ficar com a taça da Copa da Liga Inglesa. Enquanto os Red Devils buscam o primeiro título sob as ordens de José Mourinho, os Saints tentam ratificar a excelente fase atravessada nos últimos anos, agora dirigidos por Claude Puel. Duelo de grande significado, por mais que o torneio não seja a prioridade dos clubes ingleses.

Esta é a quarta vez que United e Soton se cruzam na Copa da Liga. Nenhum dos confrontos anteriores aconteceu na final. Mas não dá para dizer que são menos importantes. Afinal, um deles impulsionou até mesmo a chegada de Sir Alex Ferguson. Tempos de craques tanto em Old Trafford quanto em The Dell, como Alan Shearer, Mark Hughes, Matt Le Tissier, Bryan Robson. Abaixo, relembramos a história de cada um desses jogos.

Manchester United 2×0 Southampton
30 de novembro de 1982 – Oitavas de final

Os Saints, que até a temporada anterior tinham Kevin Keegan no elenco, haviam se reforçado com o goleirão Peter Shilton, titular da seleção inglesa. O time ainda contava com o zagueiro Mark Wright (que depois jogaria no Liverpool e disputaria a Copa de 90 pela Inglaterra), o volante Nick Holmes (remanescente da final da FA Cup de 1976 entre os dois clubes), o dinâmico meia Steve Williams (mais tarde vendido ao Arsenal) e o ponta Danny Wallace (que no fim da década se transferiria para o próprio Manchester United).

Mas não foi o suficiente para eliminar ou mesmo forçar o replay contra os Red Devils, que reuniam no elenco uma verdadeira seleção britânica. Além dos cinco ingleses titulares naquela partida (o goleiro Gary Bailey, o lateral Mike Duxbury, o volante Remi Moses, o meia Bryan Robson e o ponta Steve Coppell), havia também dois escoceses (o zagueiro Gordon McQueen e o lateral-esquerdo Arthur Albiston), dois irlandeses (o zagueiro Kevin Moran e o centroavante Frank Stapleton) e um norte-irlandês (o meia-atacante Norman Whiteside). O toque “continental” era dado pelo meia-esquerda holandês Arnold Muhren.

Vitória tranquila do United em Old Trafford, com gols de McQueen e Whiteside, numa temporada em que os Red Devils chegariam às decisões de ambas as copas na Inglaterra, vencendo a FA Cup diante do Brighton. Na da Liga, após despachar os Saints, o time de Manchester golearia o Nottingham Forest de Brian Clough (4 a 0) e bateria o Arsenal em dois jogos (incluindo um 4 a 2 em Highbury), antes de perder a final na prorrogação para o Liverpool em Wembley.

Manchester United -1982-83

Manchester United 0x0 Southampton
29 de outubro de 1986 – 16-avos de final

Southampton 4×1 Manchester United
4 de novembro de 1986 – Replay dos 16-avos de final

O confronto pela terceira fase do torneio na temporada 1986/87 ficou marcado pela goleada dos Saints no replay e pelo que ela causaria: a demissão do técnico Ron Atkinson depois de cinco anos no comando do Manchester United. Para seu lugar viria um certo escocês chamado Alex Ferguson. Desfalcado de seu lesionado capitão Bryan Robson, o United vivia início de temporada claudicante, e a eliminação da Copa da Liga acabou servindo de estopim para a troca de treinadores.

Após um modorrento empate sem gols em Old Trafford, os Red Devils – que ainda contavam com bons jogadores como o zagueiro irlandês Paul McGrath, e o ponta dinamarquês Jesper Olsen, além de Duxbury, Albiston, Moses, Whiteside e Stapleton, remanescentes da vitória sobre os Saints em 1982 – foram goleados em The Dell (antigo estádio do Southampton) por 4 a 1.

O nome do jogo foi um garoto de 18 anos recém-completados, que estreara no time de cima do Southampton apenas três meses antes, e anotaria o terceiro (encobrindo o goleiro Chris Turner) e o quarto gols, vindo do banco de reservas naquela vitória elástica: o meia-atacante Matthew Le Tissier.

Antes disso, George Lawrence já havia aberto o placar no primeiro tempo com um chute cruzado de fora da área e o baixinho Danny Wallace havia se aproveitado da indecisão da zaga do United para fazer o segundo, já na etapa final. Depois, Wallace daria lugar ao garoto Le Tissier, que completaria o estrago, antes de Peter Davenport descontar, aproveitando-se de uma bola mal recuada pela defesa dos Saints.

Dois dias depois do jogo, o United anunciava a demissão de Atkinson e a contratação de Ferguson. Enquanto isso, o Southampton de Chris Nicholl seguiria na competição, eliminando posteriormente o Aston Villa e o Shrewsbury Town, antes de cair nas semifinais para o futuro vice-campeão Liverpool.

Southampton 1×1 Manchester United
16 de janeiro de 1991 – Quartas de final

Manchester United 3×2 Southampton
23 de janeiro de 1991 – Replay das quartas de final

Cinco anos depois da goleada que mudou a história do Manchester United, as duas equipes voltaram a se cruzar na Copa da Liga. Os Red Devils viviam a afirmação de Alex Ferguson à frente da equipe, conquistando a Copa da Inglaterra na temporada anterior, seu primeiro título pelo clube. O Southampton, por sua vez, vinha de uma boa campanha no Campeonato Inglês, terminando a temporada anterior na sétima colocação, ainda sob as ordens do ex-lateral Chris Nicholl.

Na primeira partida, a igualdade prevaleceu em The Dell. O Southampton contava com a inflamada torcida e pressionou bastante desde o primeiro tempo, mas parou nas boas defesas do goleiro Les Sealey – que ganhou a titularidade de Jim Leighton naquela temporada e meses depois seria negociado com o Aston Villa, cedendo espaço a Peter Schmeichel. Rod Wallace, sobretudo, comandava os Saints. Só no segundo tempo é que o time da casa abriu o placar, em ótima enfiada de Barry Horne que Alan Shearer, com apenas 20 anos, não perdoou. Le Tissier poderia ter feito o segundo, mas isolou de frente para o gol. O erro custou caro: aos 33, os Red Devils foram resgatados por Mark Hughes, principal referência ofensiva naqueles anos, ao lado de Brian McClair. O capitão Bryan Robson desviou de cabeça e o camisa 10 acertou um belíssimo chute cruzado, vencendo Tim Flowers, futuro arqueiro da seleção inglesa.

O empate forçou o reencontro uma semana depois, em Old Trafford. Um verdadeiro épico, estrelado outra vez por Shearer e Hughes. A novidade na escalação do Manchester United era Denis Irwin, compondo a defesa ao lado de Steve Bruce, Gary Pallister e Clayton Blackmore. Já o Southampton sentiu a falta de seu craque, Matt Le Tissier, substituído naquela noite pelo debutante bielorrusso Sergei Gotsmanov, meia que fez história no Dinamo de Minsk e defendeu a seleção soviética, mas teve passagem fugaz pelos alvirrubros.

O primeiro tempo foi dominado pelo United. Os Red Devils botaram pressão sobre os visitantes, apostando principalmente no jogo aéreo, diante do gramado castigado. Também incomodaram muito pelo lado direito, com a parceria entre Neil Webb e Denis Irwin. Porém, faltou sorte e competência para abrir o placar. Os defensores do Southampton salvaram duas bolas em cima da linha. Já pouco antes do intervalo, quando o árbitro apontou para marca da cal, Steve Bruce isolou a cobrança de pênalti.

O melhor ficaria mesmo para a etapa complementar. O United saiu em vantagem aos seis minutos, após festival de chutões. Webb levantou a bola e Hughes aproveitou para arrancar, fugindo da linha de impedimento. De frente para Tim Flowers, não desperdiçou. Dois minutos depois, o Southampton empatou com um sem-pulo de Shearer. E os Red Devils já retomariam a dianteira no placar logo na sequência, com Lee Sharpe avançando à linha de fundo e cruzando para Hughes escorar.

A situação se complicou aos Saints quando o capitão Jimmy Case foi expulso. Bryan Robson tropeçou na própria perna em lance que partia rumo ao gol, mas o árbitro entendeu que ele foi derrubado, mostrando o cartão vermelho ao defensor. Em vantagem numérica, o United matou o jogo a partir de um erro do zagueiro Mick Adams, com Mark Hughes completando o hat-trick após passar pelo goleiro Tim Flowers. Por fim, após pênalti sofrido por Rod Wallace, Shearer descontou e deu números finais ao confronto.

Depois da batalha, o Manchester United venceria o Leeds nos dois jogos da semifinal em ida e volta, mas perderia de maneira surpreendente o título em Wembley para o Sheffield Wednesday, que havia acabado de conquistar o acesso na segunda divisão e era a única equipe de fora da elite entre os quadrifinalistas da Copa da Liga. Naquele ano, ao menos, o time de Alex Ferguson faturou a Recopa Europeia, derrotando o Barcelona na final em Roterdã. Mark Hughes, sempre ele, fez os tentos na vitória por 2 a 1.