O empate do Irã com a Austrália no Estádio de Melbourne, em 1997, valeu mais do que a classificação para a Copa do Mundo na França. A comemoração pela vaga no Mundial também desdobrou uma pequena revolução no país. Proibidas de frequentarem as arquibancadas, as mulheres saíram em peso às ruas para celebrar o resultado. Três mil delas puderam entrar no Estádio Azadi, em Teerã, o principal palco dos festejos, enquanto outras dezenas furaram o bloqueio policial para participar do evento. Momento simbólico no questionamento sobre os direitos das mulheres iranianas, restritos pelas autoridades religiosas desde a Revolução Islâmica de 1979, que levou os aiatolás ao topo do poder.

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Dezessete anos depois, aquele 29 de novembro continua reverberando no Irã, ainda que as mulheres não desfrutem de todas as liberdades pretendidas. O próprio acesso aos estádios chegou a receber a aprovação do ex-presidente Mahmoud Ahmadinejad, mas acabou vetada pelos religiosos. E as autoridades se anteciparam para vetar as mulheres nas partidas que garantiram a vinda do Irã para a Copa de 2014. Fora do país, no entanto, o governo persa não pode limitar as mulheres. E, por isso mesmo, a Copa da Ásia se tornou uma grande chance de protestos contra as proibições.

Apesar da campanha insatisfatória, com a seleção treinada por Carlos Queiróz caindo nas quartas de final para o Iraque, os iranianos tiveram passagem marcante na Austrália. Sobretudo, pela presença massiva de imigrantes no país da Oceania – são quase 35 mil pessoas nascidas no Irã com residência australiana atualmente, sem contar os seus descendentes. Por isso mesmo, apenas os anfitriões e os japoneses tiveram melhores públicos durante a fase de grupos, com o Irã atraindo mais de 45 mil espectadores aos seus jogos. Ao contrário do que acontece nos estádios persas, com centenas de mulheres nas arquibancadas.

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“Por causa das restrições no Irã, este é o único momento em que eu posso ir ao estádio como mulher. É sensacional e estou muito empolgada. Há um sentimento maravilhoso por estar aqui. Antes, eu pensava que o futebol era apenas para homens, e por isso eu não gostava tanto de futebol no Irã. Porque era apenas para homens”, declarou uma das torcedoras no estádio para ver o jogo contra os iraquianos, em entrevista ao Guardian.

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Para tentar não provocar outra onda de revolta no país e maquiar o que estava realmente acontecendo na Austrália, os chefes da federação iraniana proibiram que os jogadores tirassem fotos com mulheres. Contudo, a presença dela nos estádios permaneceu livre. E algumas delas aproveitaram o momento para gritar um pouco mais por liberdade. No jogo decisivo contra o Iraque, um dos cartazes dizia “Nós estaremos em todos os jogos, em todos os estádios”, além de trazer a foto de Ghoncheh Ghavami, jovem presa por tentar ver um jogo de vôlei no Irã em 2014.

“Esta é uma oportunidade de ouro para a comunidade iraniana protestar, expressar as suas vontades, colocar pressão sobre o governo. Os canais de televisão estatais são especialistas em manipular as transmissões, eles têm feito isso há 30 anos. Mas o governo não pode censurar o nosso protesto. Quando a câmera for em direção ao cartaz, eles não poderão perder isso”, afirmou uma das organizadoras do protesto.

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Os protestos dos iranianos, entretanto, não se limitavam ao direito das mulheres. Muitas mensagens políticas também apareceram nos estádios australianos. Além da bandeira atual, com o símbolo islâmico ao centro, também podiam ser vistas outras, apenas com o nome do país ou com o leão – marca do período anterior a 1979, quando os persas eram governados pelos xás. Também surgiam camisas com o rosto de Habib Khabiri, ex-capitão da seleção que foi executado por se opor ao regime em 1984. Ainda assim, a maioria dos olhares se voltava às mulheres, como a garota que ganhou destaque na imprensa internacional ao escrever um pedido de casamento ao goleiro Alireza na bandeira nacional.

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A eliminação do Irã diminuiu o espaço aos protestos, mas não cessará a luta das mulheres. Por mais que haja menos limitações de gênero no Irã do que em outros países islâmicos, para boa parcela das mulheres o cenário ainda está longe de satisfazer. E, por isso mesmo, a abertura para frequentar os estádios, algo que parece tão banal, ganha tanta força nas vozes das iranianas. “Quando as mulheres não podem ir aos jogos, isso não é algo político, é algo social. É direitos humanos. Não tem nada a ver com política. É um insulto aos seres humanos, eu penso. Espero que meus compatriotas olhem para assuntos como este, sem ter que acontecer com eles para reagir”, analisa Majid Varess, jornalista iraniano presente no estádio. Muitas mulheres pensam como ele, e já reagem há tempos.

* A maioria das informações deste texto vem da excelente reportagem publicada pelo Guardian. Vale demais a leitura, com outras informações e declarações sobre as liberdades das mulheres no Irã. Clique aqui para conferir, em inglês.