A Copa do Brasil eternizou ainda mais um Galo imortal

De maneira irrepreensível, o Atlético Mineiro coroou a milagrosa campanha que fez no maior clássico de sua história

Vontade. Não há melhor palavra para definir a conquista do Atlético Mineiro na Copa do Brasil. Por desejar a taça é que o Galo conseguiu ir além daquilo que parecia insuperável. O time que ignorou o impossível ao eliminar Flamengo e Corinthians, quando muitos o consideravam eliminado. Que cresceu ainda mais diante do imponente Cruzeiro, para triunfar no clássico mais importante da história. Para um título nacional que os seus torcedores com menos de 50 anos nunca tinha experimentado. Com todos os méritos, o Galo se sagrou campeão. E também se consagrou como um especialista em mata-matas, em uma dobradinha marcante após a Libertadores. Duas taças inesquecíveis, nascidas dos milagres.

O Mineirão era o palco digno de uma final histórica, por mais que as arquibancadas não fizessem jus à ocasião. A energia demonstrada pelas torcidas durante os 180 minutos de duelos, no entanto, só ajudou a engrandecer um momento que já era enorme. E o Atlético soube capitalizar essa força de uma maneira muito mais decisiva. A vitória no Independência tinha nascido a partir dessa pressão. E se repetiu no mando do Cruzeiro, no estádio que virou o salão de festas alvinegro desde a sua renovação. Tanta fome de bola que até parecia que os 2 a 0 no jogo de ida não eram atleticanos.

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Afinal, ninguém ignoraria melhor a ilusão que a vantagem o placar agregado poderia gerar. Os alvinegros reverteram duas vezes a lógica ao longo da campanha, quando uma só já era impensável. Não queriam ter a sensação reversa. Por isso mesmo, partiram para cima do Cruzeiro e foram superiores, quando o natural indicava que apenas se defenderiam. Os gols perdidos por Dátolo e Diego Tardelli até aludiam que os atleticanos estavam receosos em repetir a tranquilidade vivida por corintianos e flamenguistas. No entanto, coube justamente aos dois a jogada decisiva, no final do primeiro tempo. O gol do título.

Se quisesse ser campeão, o Cruzeiro precisava ser o Atlético das fases anteriores. Mas sequer conseguia assumir a própria identidade, apático, criando pouquíssimas chances de gol. Pelo contrário, quem parecia querer competir em estilo era o Galo, apresentando um futebol ofensivo que desafiaria o melhor dos celestes no bicampeonato do Brasileirão. Desta vez, não houve necessidade nem mesmo de se rezar por São Victor. Não tinha milagre, os alvinegros estavam no céu bem antes do apito final.

Brazil Brazilian Cup

Se a virtude do Atlético nos últimos tempos foi a de sempre acreditar, esta acabou sendo uma falha dos cruzeirenses. O time não parecia ter forças para buscar os quatro gols precisava, com pernas cansadas após duas temporadas extenuantes. A torcida, aos poucos, começou a deixar as cadeiras do Mineirão ainda mais vazias. E coube ao time de Levir Culpi administrar o jogo, quase conseguir o segundo gol em uma pancada de Dátolo no travessão. Nem mesmo a expulsão de Leandro Donizete estragou a comemoração evidente, cravada aos 45 do segundo tempo.

As Minas Gerais têm motivos de sobras para terminar 2014 celebrando. Parte dos cruzeirenses protagonizou uma bela cena ao seguirem cantando nas arquibancadas, apesar da atitude infantil de seus jogadores em comemorarem o Brasileirão. Não entenderam que a noite desta quarta e a madrugada desta quinta, pelo menos, são do Atlético. Campeão irrepreensível da Copa do Brasil e hegemônico no clássico há oito jogos. Os heróis da noite eram alvinegros.

Após desbravar as Américas, o Galo arranca um grito entalado na garganta desde 1971: 43 anos depois, conquista um título nacional. O atleticano que torceu por Dario reviveu as memórias. O que lamentou as injustiças com Reinaldo, se encheu de orgulho. Aquele que sequer pôde ver um grande time, sorriu como nunca. E os mais jovens agora formam uma nova geração de alvinegros. Que sofreu com o sucesso que não via e com a desgraça que quase aconteceu, de novo, nas campanhas vitoriosas. Mas que poderá contar por muito tempo os feitos de um grande time. Campeão da Libertadores e da Copa do Brasil de um jeito para não se desgrudar mais da retina. Para dar esperanças de uma era ainda mais reluzente pelo brilho das taças.