Excepcionalmente este ano, em comemoração aos seus 100 anos, a Copa América é co-organizada pela Conmebol e pela Concacaf. Isso significa que pela primeira vez na história das duas confederações, seleções nacionais pertencentes a ambas se enfrentarão sem ser como convidadas em busca de um título oficial. Um dos destaques desta edição especial é o significado dela para as seleções da Concacaf. Principalmente para os Estados Unidos e o México, pela participação de ambos os países em uma competição regional deste porte e pela oportunidade de competir com seleções com nível de futebol acima do que estão acostumadas e com mais tradição no esporte. Diferente das participações anteriores, desta vez a Concacaf não é convidada, é organizadora junto com a Conmebol. E isso faz muita diferença.

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Os americanos e mexicanos mantêm uma rivalidade muito forte entre si. Não só por questões históricas e geopolíticas das quais sabemos, mas também em campo. E ela se esboça desde que a Copa Ouro, o principal torneio da Concacaf, foi criada, lá em 1991. Tanto é que das 13 edições da competição que ocorreram até agora, só deu México e Estados Unidos (com cinco finais entre os dois). E olha que no início dos anos 90, o futebol no país do Tio Sam ainda estava deixando de engatinhar para andar com as próprias pernas. Nem profissional era, porque a NASL, que fez sucesso nos anos 1970, já tinha acabado.

Isso evidencia muito a fragilidade das demais seleções da Concacaf, que até hoje não formam equipes fortes o suficiente para bater de frente com os países “de baixo” da América do Norte. Além deles, a Costa Rica, a Jamaica, o Panamá e o Haiti também estarão na Copa América Centenário, tendo estas duas últimas seleções sido selecionadas por meio de playoffs de acordo com o desempenho na Copa Ouro do ano passado.

México

É o país da Concacaf com o maior número de participações em Copas do Mundo. No total, o México esteve presente em 16 edições. No entanto, nunca conseguiram levantar uma taça. O máximo aonde os mexicanos já chegaram na competição foi nas quartas de final, tanto em 1970 (caíram para a vice-campeã Itália), quanto em 1986 (perderam para a Alemanha Ocidental dos pênaltis). Nos dois anos foram anfitriões da Copa e contaram com o apoio da torcida para avançarem à antepenúltima fase.

Para os jogadores da El Tri, jogar a Copa América Centenário significa poder encarar seleções com o mesmo sangue latino que o deles. Naquele clima de Libertadores, mesmo. Só que sem convite, como já aconteceu em edições passadas e o próprio México usou algumas vezes para levar a campo jogadores reservas ou mesmo de idade olímpica. É uma competição para valer.

Vale lembrar que o México joga a Copa Libertadores, pro exemplo, o principal torneio de clubes das Américas. Só que são apenas convidados.

Estados Unidos
Christian Pulisic (17) é abraçado após marcar gol pela seleção americana . (AP Photo/Colin E. Braley)
Christian Pulisic (17) é abraçado após marcar gol pela seleção americana . (AP Photo/Colin E. Braley)

Os americanos estiveram presentes em 11 Copas do Mundo. Assim como a rival seleção mexicana, nunca venceram a competição mais importante do planeta. Não é exagero dizer que o auge da seleção norte-americana foi na Copa de 2014, ainda que tenham ido mais longe ainda nesse torneio em 1930, em sua primeira edição, quando ficaram com o terceiro lugar. Mas é válido lembrar que nessa época, a Copa contou com apenas 13 participantes, que não foram definidos através de eliminatórias ou coisa do tipo. As nações simplesmente chegaram e se inscreveram para participar. Ainda era o começo de tudo e não dá para dizer que eles chegaram à semifinal por conta de um merecimento enorme. Os 6 a 1 para a Argentina na semifinal comprovam isso.

Em tempos mais recentes, os americanos conseguiram um resultado melhor em 2002, quando foram até as quartas de final, tendo eliminado o rival México nas oitavas. Caiu diante da Alemanha, de muito mais peso e tradição. E só perderam por 1 a 0. Considerando o atual formado da Copa, é o melhor resultado americano.

Na última Copa, o bom trabalho de Jürgen Klinsmann colocou os Estados Unidos nas oitavas de final. E caíram para a Bélgica por muito, muito pouco. Foi preciso prorrogação para que os americanos acabassem eliminadas. Para os yankees, jogar essa Copa América unificada com a seleção com mais taças do Mundo, por exemplo, tem um valor competitivo imenso.

Haiti e Panamá

As duas seleções foram definidas para disputar essa edição do Copa América pelos playoffs, de acordo com o desempenho que tiveram na Copa Ouro do ano passado. São dois países que não têm histórico relevante na Copa do Mundo e nunca tiveram muita expressão no fuebol. O Haiti participou da Copa de 1974 e foi um verdadeiro saco de pancadas das demais seleções participantes. Seu único feito nesse ano foi ter quebrado a invencibilidade da defesa italiana, que não tomava  gol há dois anos (sim, eles conseguiram). Já os panamenhos formam uma seleção que está em ascensão e nunca tiveram a chance de disputar uma Copa. Para as duas nações, só de poder estar na mesma competição que seleções que foram campeões do mundo mais de uma vez já representa muito.

Costa Rica

A seleção costarriquenha foi a grande sensação da última Copa do Mundo. Quem imaginava, antes do evento, que a Costa Rica chegaria às quartas de final e, além do mais, fosse dar uma baita canseira à Holanda? Foi por muito pouco que os latino-americanos não levaram sua garra para a semifinal. Por causa disso, os costarriquenhos chegam na Copa América Centenário com certa moral, ainda que viagem para os Estados Unidos com uma baixa gigantesca: Keylor Navas, a muralha da seleção da Costa Rica, em função de uma tendinite no tendão de Aquiles do pé esquerdo, está fora do torneio especial. Além de 2014, participaram de mais quatro edições do torneio, mas não foram muito longe.

Jamaica

Os Reggae Boyz, como é conhecida a seleção jamaicana, conseguiram um feito histórico em 1998 para nunca mais. Foi sob o comando técnico de Renê Simões que a Jamaica chegou à Copa do Mundo dessa época, a sua primeira e única até hoje. Porém, junto com o Japão, também estreante em uma Copa, não conseguiu superar a Argentina e a Croácia na fase de grupos e não pode ir às oitavas de final. Já na Copa Ouro do ano passado mostraram que não são um adversário tão simples. Aliás, não foram nada simples para os Estados Unidos. Os jamaicanos derrotaram os americanos por 2 a 1 na semifinal do torneio, mas acabaram perdendo a final para o México. Agora, eles disputam a Copa América deste ano com o mesmo sentimento que a Costa Rica, mas com muito menos história e tradição no esporte.

Agora é torcer para que esta Copa América seja um sucesso. Não só no quesito político da coisa, para que a Conmebol e a Concacaf pensem em se integrar mais vezes. Mas que, em campo, seja, pelo menos, melhor do que a edição passada, na qual os erros da arbitragem (que, por sinal, favoreceu muito o time da casa) acabaram tomando o protagonismo do evento.