A sensação é que o governo diminuiu as tarifas sobre importação de laterais e todo mundo está aproveitando. Depois de Rafinha, Filipe Luis, Adriano e Daniel Alves, o espanhol Juanfran, 34 anos, ex-Atlético de Madrid, tornou-se a nova aquisição do futebol brasileiro. Defenderá o São Paulo até o fim de 2020, em uma contratação sem dúvida interessante, mas que também levanta algumas questões.

Mesmo se não fechasse o negócio, a mera tentativa de contratar um jogador como Juanfran mostra que o São Paulo estava expandindo os horizontes do seu mercado, tentando algo diferente, o que é sempre positivo. Financeiramente, o Brasil e a América do Sul não podem sempre competir com centros como os Estados Unidos, Oriente Médio ou Ásia por jogadores veteranos, mas oferecem um desafio esportivo superior e a chance de participar de uma cultura que, com todos os seus problemas, ainda tem um forte apelo.

Os brasileiros que retornaram recentemente evidentemente têm ligações com o país, mas, entre os motivos que levaram Daniele De Rossi a aceitar jogar pelo Boca Juniors, estava justamente a possibilidade de viver a experiência de jogar a Libertadores em uma Bombonera pulsante. E agora Juanfran, por intermédio de Diego Lugano, diretor do São Paulo, via Diego Godín, companheiro do ex-zagueiro na seleção uruguaia e do lateral direito no Atlético de Madrid, abraçou uma aventura similar, refutando abordagens do Chicago Fire, da MLS, e do futebol catariano.

Isso é positivo por abrir o mercado para uma gama diferente de jogadores que podem agregar ao futebol brasileiro. Juanfran traz a experiência de quem defendeu o Atlético de Madrid mais de 350 vezes, conquistou o Campeonato Espanhol e a Eurocopa (sem entrar em campo), disputou duas finais de Champions League e é tido como um profissional exemplar e um jogador que luta o tempo inteiro.

Técnica e taticamente, porém, há duvidas. Começando pelo fato de que a própria posição de defensor pelos lados foi algo que ele precisou aprender. Criado nas categorias de base do Real Madrid, saiu do gigante espanhol jovem, em busca de minutos de jogo, como fazem muitas das pratas da casa merengues. Passou uma temporada emprestado ao Espanyol e depois acertou com o Osasuna, o qual defenderia entre 2006 e 2011. E em todo esse período ainda era ponta.

Quando chegou ao Atlético de Madrid, no começo da década, o então treinador Gregorio Manzano decidiu testá-lo na lateral direita. Diego Simeone gostou da ideia e o manteve por ali. “Cheguei como ponta e nunca gostei de defender. Agradeço a Manzano, que confiou em mim e decidiu que eu jogaria (de lateral direito). E agradeço Diego (Simeone) que me ajudou a ser o jogador que sou hoje em dia, por ter me ensinado conceitos defensivos e o desejo de que eu precisava ser importante”, afirmou, ao se despedir do Atlético de Madrid.

Quando deixou de ser ponta para começar a defender contra pontas, Juanfran conseguiu se tornar um jogador eficiente. Cumpriu quase sempre bem o seu papel pela lateral direita, dentro da engrenagem de Diego Simeone, e teve convocações para a seleção espanhola. Nunca, porém, mostrou-se excepcional, além da força de vontade.

Acontece que uma coisa é atuar no Atlético de Madrid de Simeone. Juanfran não precisava subir com frequência em um time que não ataca com muitos jogadores, nem o tempo inteiro. E quando defendia, estava frequentemente cercado por dois ou três companheiros, dentro da estrutura muito compacta que o treinador argentino organiza. O São Paulo adota uma estratégia diferente. Cuca é famoso por preferir um sistema de marcação individual, raridade na Europa. E a notícia de que a primeira responsabilidade de um lateral é defender, e não atacar, às vezes parece não ter chegado ao Brasil ainda.

Esses são os desafios de Juanfran daqui para a frente, além de todas as particularidades do futebol brasileiro, como clubes com mais de 70 jogos por ano no calendário. Sua chegada indica que Daniel Alves pode ser mais utilizado no meio-campo do que na defesa e, de qualquer maneira, oferece ao São Paulo dois laterais experientes para rodar o time titular.

Não foi divulgado ainda o salário de Juanfran, mas certamente não será baixo, e também se pode questionar se vale o investimento em um jogador como o espanhol, experiente e sólido, mas não exatamente brilhante.  Sem poupar esforços financeiros para reforçar o seu time, a responsabilidade do São Paulo por bons resultados aumenta ainda mais.