A Turquia está abalada com o atentado terrorista deste domingo, que matou 37 pessoas em Ancara, capital do país, e a tragédia ganhou novos contornos nesta segunda-feira, quando tornou-se pública a informação de que Kemal Bulut, pai do atacante do Galatasaray e da seleção turca Umut Bulut, foi uma das vítimas do ataque. A consternação é tão grande que a torcida do rival Fenerbahçe está propondo uma medida peculiar de solidariedade às vítimas e de posicionamento contra o terrorismo: torcida mista no maior clássico turco.

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O 12Numara, maior grupo de torcedores do Fenerbahçe, com mais de um milhão de seguidores apenas no Twitter, criou a campanha #DerbideOmuzOmuza, ou “Dérbi dos Ombros”. A ideia é de que o clássico entre Galatasaray e Fenerbahçe, no domingo, seja realizado com torcidas mistas, todos se abraçando, ombro a ombro, nas arquibancadas e em campo. “Torcer para sua equipe não basta. Se você quer passar uma mensagem forte contra o terrorismo, dê seu apoio escrevendo #DerbideOmuzOmuza”, dizia um dos tuítes do 12Numara, nesta segunda-feira.

A campanha já conta com o apoio de milhares de pessoas, com a hashtag tendo sido reproduzida quase 47 mil vezes. Um dos apoiadores é o jornalista esportivo Yalçın Çetin, que compartilhou o desenho dos jogadores de ambos os times abraçados, escrevendo que é possível tornar a cena realidade.

Para isso, no entanto, os torcedores terão a tarefa de convencer a Federação e a Liga Turcas, o que será difícil, já que, antes do atentado, a determinação era inclusive de torcida única, diante do histórico de violência entre rivais. É justamente esse retrospecto que torna ainda mais especial um potencial encontro pacífico entre os rivais, em nome da solidariedade e da resistência ao terror. Vale lembrar que, em 2013, as torcidas do trio de ferro da Turquia se uniram nos protestos contra o governo de Recep Tayyip Erdoğan – formando o chamado “Istambul United”, que combinava os escudos de Besiktas, Fenerbahçe e Galatasaray.

O atentado e o desenrolar da história de Kemal Bulut

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Segundo o site Turkish-Football.com, Kemal Bulut estava em Ancara para assistir das arquibancadas ao jogo entre Gençlerbirligi e Galatasaray, que acabou em 1 a 1. O portal conta que o motivo principal da ida de Kemal ao Estádio 19 de Maio era dar apoio moral ao filho Umut Bulut, que vinha sendo duramente criticado pelos torcedores do Gala pela falta de gols na temporada.

Kemal então voltava para a barbearia que seu filho abriu para ele, na área de Kizilay, em Ancara, quando o carro-bomba foi detonado, vitimando ele e mais 36 outros civis. A notícia de que o pai do atacante do Galatasaray estava entre as vítimas veio apenas na manhã desta segunda. Umut Bulut treinava com o restante do elenco, quando seu irmão lhe informou.

Imediatamente, o treino foi encerrado, Umut partiu para Ancara para ficar próximo de sua família, e o restante dos jogadores do Galatasaray deverá se dirigir até a cidade para o enterro de Kemal, que acontece, coincidentemente, no aniversário de 33 anos do atacante do Galatasaray.

Mais do que a dor de um país, cujo governo acusa os rebeldes do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (o PKK) como autores dos ataques, o atentado passa a ser também uma dor para o futebol turco, que se une em homenagens e, possivelmente, numa cena inédita nas arquibancadas da Arena Türk Telekon, neste domingo.