Presidente do Schalke 04, Clemens Tönnies recebeu uma enxurrada de críticas durante a semana, e com motivos. O dirigente realizou uma declaração de cunho racista, que ocupou o noticiário esportivo da Alemanha. Em evento no qual discursava sobre o aumento de impostos e o aquecimento global, Tönnies sugeriu que os alemães deveriam financiar usinas na África, pois assim “os africanos parariam de derrubar árvores e de produzir crianças quando fica escuro”. A revolta é óbvia e culminou no afastamento do cartola, que pediu uma licença pelos próximos três meses. E a resposta mais importante aconteceu neste sábado: em jogo pela Copa da Alemanha, a própria torcida azul mostrou o cartão vermelho para o mandatário.

O Schalke visitou o pequeno Drochtersen Assel, da quarta divisão, e goleou por 5 a 0. Antes que a bola começasse a rolar, porém, a torcida do clube de Gelsenkirchen já se fazia notar. Dezenas de cartazes vermelhos foram distribuídos no setor visitante, contrastando com o azul tão tradicional da equipe. “Nós estamos mostrando o cartão vermelho ao racismo”, era a mensagem bem clara. Pouco depois, a faixa foi substituída por outra, que afirmava: “Nós estamos mostrando o cartão vermelho a Tönnies”. Já durante a partida, uma faixa com a inscrição “Tönnies fora!” permaneceu nas tribunas.

O posicionamento da torcida enfatiza a manifestação de antigos ídolos do Schalke, que rebateram Tönnies. Entre os que se manifestaram está Gerald Asamoah, um dos maiores símbolos do clube. Imigrante ganês que cresceu na Alemanha, ele defendeu os Azuis Reais por mais de 300 partidas e se tornou o primeiro negro a atuar pela seleção alemã. “Para ser honesto, estou um pouco sem palavras. Trabalho com Tönnies há um longo tempo e somos amigos. Ele nunca teve comportamentos racistas comigo. Sua declaração me surpreendeu, me chocou e me machucou”, declarou o ex-atacante, que participa de ações sociais da agremiação.

Já o ex-atacante Cacau, que atualmente é o comissário de integração da federação alemã, foi enfático: “As palavras de desdém me chocaram. Quanto mais penso nisso, mais inimaginável se torna que um homem fale de maneira tão generalizada e depreciativa sobre a população de um continente inteiro. Nós, jogadores e dirigentes, temos uma responsabilidade especial e devemos usá-la autenticamente, lutando com todas as nossas forças contra o racismo”. Segundo o veterano, o episódio está sendo analisado pela comissão de ética da federação.

Diante das respostas, Tönnies pediu desculpas pela afirmação. Disse que foi uma colocação “errada e impensada”. Já o conselho do Schalke considerou que o presidente violou o estatuto do clube, que se expressa claramente contra a discriminação. Apesar disso, não impôs qualquer sanção. Foi o próprio dirigente que preferiu se afastar, o que não parece satisfazer os torcedores. Tönnies ocupa a presidência do Schalke 04 desde 2001.