É constrangedor o saldo da reunião dos dirigentes do futebol argentino com Jorge Sampaoli. Em resumo, o treinador topou o trabalho desde que fosse até a Copa de 2022, mas a gestão foi avaliada de forma tão negativa em absolutamente todos os aspectos que agora ninguém mais quer que ele siga com o boné. O técnico mantém o combinado – o foco era o próximo, e para romper o contrato é só pagar a multa. Não há dinheiro para demitir. O funcionário não pediu para sair. Fica por isso mesmo.

Ouvi ou li alguns comentaristas ou colunistas que, ao tratarem da sequência de Tite, foram para o caminho de que em qualquer lugar que o futebol fosse tratado de forma séria nem haveria dúvidas sobre a manutenção do treinador. Como assim? Que futebol tão sério é esse? Que não pode questionar um treinador que tem números ótimos mas que cai no primeiro adversário de maior nível técnico? Que viu várias de suas apostas jogarem mal ou que viajou com atletas fora da condição física adequada? Seriedade é sinônimo de unanimidade?

Trabalhos de longo prazo dependem de resultados, é do jogo. Muita gente deve ter achado de muito bom tom a renovação de Joachim Löw no comando técnico da Alemanha – esticou o contrato até a próxima Copa antes mesmo de jogar este Mundial. Semanas depois, boa parte pode ter considerado que o mais sensato seria que o treinador alemão entregasse o cargo depois do desempenho pífio na Rússia. O que fazer quando o campo te entrega exatamente o contrário do que a experiência no cargo poderia te dar?

Löw comandou a seleção pela terceira Copa consecutiva e, ao invés de remodelar o time com base em novos jogadores, entrou em campo com uma cópia mal feita dos melhores momentos da equipe campeã do mundo. Mas os líderes não estavam mais lá, os que ficaram eram quatro anos mais velhos e muitos distantes da melhor forma, e o plano do técnico se mostrou pavoroso. E aí?

O resultado atravessa e pontua o trabalho, é inevitável. Vamos ao caso de Gareth Southgate. Assumiu a seleção da Inglaterra por acaso, após a demissão de Allardyce por conta de um escândalo que o tirou do cargo após apenas um jogo. O projeto também era voltado para 2022, mas aí foi montado um time coeso, capaz de vencer jogos em sequência numa Copa (o que já é bastante para o retrospecto recente inglês) e ter chances reais de final e até título. Nesse caso, a falta de responsabilidade sobre o torneio pesou favoravelmente. Mas estaríamos falando o contrário em caso de queda nos pênaltis nas oitavas de final. Southgate teria sido mais um que mostrou boas coisas, mas no fim das contas teria vencido só Tunísia, no sufoco, e Panamá.

Seja qual for o contexto, a Copa faz lembrar que não há receita óbvia para o cargo de treinador de seleção. Muito difícil prever o exato prazo de validade dos conceitos e do próprio desgaste interno. Saber quando a continuidade fará bem, ou quando já chegou ao limite. Tanto quanto apostar em ideias para daqui a quatro anos, com jogadores indo e vindo, além de vitórias e derrotas no caminho. Veremos o que a última semana reserva para nossas decisões efêmeras de hoje e previsões, muitas delas furadas, para o distante fim de 2022.


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