Mas se a Alemanha sofreu contra um adversário mais fraco tecnicamente e achou a vitória no abafa, nos acréscimos, porque a jornada de Kroos dá um épico e a de Neymar, um drama mambembe?

Por que o tetracampeão do mundo mostra que está mais vivo do que nunca, premiando o esforço com um gol de sua maior referência técnica, fria como o gelo, enquanto o penta não se cansa de escancarar fraquezas, numa liderança torta do irritado camisa 10?

Pensando alto sobre o tema do fim de semana, primeiro chego à empatia. Difícil problematizar porque o gol de Kroos me tira um sorriso que o de Neymar nem coça. (Aqui, descartemos a ideia de torcer – torcer de verdade é um ato nobre, é comprar a briga e sofrer junto, e penso mais na identificação com o esforço, no afeto pelo desfecho, esse sentimento que temos a cada jogo de Copa, escolhendo os lados das brigas.) Vai ver é essa exagerada estética do sofrimento vendida pelo brasileiro, somada a duas coisas que incomodam no futebol global e midiático atual e que o dez canarinho usa e abusa: o cai-cai e a insistente mania de perseguição com árbitros e rivais; e a representação desses artistas de plástico, que mal falam por si e se amarram rodeados por assessores, contratos de publicidade, bajuladores oficiais da imprensa e um eterno publi-editorial, uma marca em campo, um patrimônio por cima do ponta-esquerda.

Penso também no trauma. A seleção brasileira vem de três Copas do Mundo e – lembram? – três edições de Copa América bem, para ser respeitoso, toscas. São seis competições em que não se conquistou nem resultados, nem boas memórias. Times esquecíveis, ou melhor, com cara de inesquecíveis, mas que não resistem a meia hora de Youtube. A nostalgia de 2006 que o diga, aquela peça de museu apática na Alemanha. Então, se a história das seleções é contada nas competições, as últimas seis do Brasil fazem lembrar que estamos em fase de reconstrução da camisa, há mais de uma década sem chegar numa final.

Depois, o 7 a 1. Se insisto que a Copa é dos nervos, já que mal há espaço em campo, há uma diferença inevitável de narrativa entre a seleção brasileira, com o mundo nas costas e meia-dúzia que viveu o maior vexame da história, e a alemã, tentando retomar o caminho, com o frescor do sucesso. Entram em campo a pilha de Neymar, que parece jogar para se vingar, e a de Kroos, uma geladeira desfrutando da jornada do herói de Sochi. Um se vê responsável por recolocar um país boleiro na trilha do sucesso, o outro já ganhou esse troço ali atrás.

Por fim, vale lembrar do distanciamento da seleção com a torcida, os jogos mandados em Londres, essa gente tão diferente da gente que veste a camisa que sonhamos vestir. Talvez muitos não tenham mesmo mais saco, e os escândalos de corrupção, e as convocações comprovadamente tocadas pelos financiadores dos jogos, e carta da Dona Lúcia… é uma montanha de antipatias. Mas pode ser só birra, também, sei lá, pronta para ser calada por um gol-desabafo nas redes do Instagram em final de Copa a caminho.

Sem verdades absolutas, é um bom papo.