São vinte Copas registradas em papel timbrado e cantadas ao mundo todo, mas a Seleção nunca superou uma série de cinco jogos eliminatórios como neste torneio na Rússia. Foram disputas menores, regulamentos com fases de grupo intermediárias, quedas em meio de caminho ou situações em que o Brasil podia até se permitir uma derrota na estrada mundialista.

Vale lembrar que em 2014 havia um risco de eliminação em caso de derrota para Camarões na última rodada da fase de grupos, mas o time africano já chegava sem qualquer chance matemática. Feito agora, uma arrancada em jogo eliminatório tão precoce para um título, com o rival podendo vencer, avançar e eliminar os brasileiros, abrindo uma série de finais ainda a cinco jogos da taça… nunca.

Também que o Brasil só foi campeão duas vezes no formato de sete jogos, e em ambas a terceira partida não tinha essa carga toda. Em 1994, entrou classificado e se satisfez com um empate diante da Suécia; em 2002, poupou titulares já na boa contra a Costa Rica; em 1998, a outra vez que foi à final em sete partidas, podia até perder para a Noruega que já tinha o primeiro lugar assegurado – e perdeu.

Curioso como a novidade competitiva diante de algumas disputas iniciais tão protocolares fica evidente em dois vícios de raciocínio que pude ouvir nos debates da tarde-noite pós-jogo de sexta-feira. Uns falaram na vantagem de se jogar depois do grupo oposto, sugerindo a ideia da possibilidade de se escolher o rival das oitavas (como?); outros cogitaram um papo sobre poupar Neymar (sério?), o irritadiço atacante que tem um cartão amarelo e, se seguir nesse tom, será inevitavelmente suspenso.

E voltamos ao insistente tema do controle emocional da equipe brasileira, que sabe-se lá por quais motivos disputa a Copa do Mundo com um nível de tensão desproporcional à demanda do campo. A seleção tem um bom técnico, se classificou com antecedência, tem um estilo de jogo bem definido, jogadores atuando como titulares dos principais times da Europa e, talvez para desespero da narrativa “contra tudo e contra todos”, um elenco querido pela torcida e muito bem aceito pela imprensa. Um contraste evidente com outras Copas de guerra travada com crítica ou rua. Diante disso, preocupa imaginar o time reagindo diante de um gol que o elimine na primeira fase, uma tragédia que atravessa gerações inteiras, já que tem muito avô que nunca viu tamanha queda – o último desastre de grupo inicial foi em 1966.

A Sérvia é forte. No jogo de fundo da segunda rodada, fez um dos duelos mais interessantes da Copa, um encontro em que não se reconhece favorito e azarão, e que ninguém jogou, ah!, por uma bola. Perdeu tanto quanto podia ter ganho, tem um centroavante querendo jogo e um onze firme, que vai a campo para o jogo de suas vidas. No óbvio paradoxo, o mata-mata prematuro é um bomba de adrenalina nos homens de Tite, mas pode se tornar a casca necessária para os jogos grandes que vão se atropelar nos dias seguintes.


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