Contos Russos #07 A nostalgia Senegal

O gol de M'Baye Niang em Moscou tem um tanto daquela troça na Coreia do Sul

Quando saiu a tabela, comemorei: a Copa do Mundo de 2002 começaria num feriado. Assim a dúvida estava adiada, ao menos para os dois primeiros dias, sobre o que fazer com a escola. Jantamos na noite de quinta, o maior Corpus Christi da história, um resguardo católico mundialista, e não consegui dormir.

Aos 14 anos, a ESPN é um mundo, e o Guia da Copa do Lance! um latifúndio para percorrer durante toda a madrugada. O campinho desenhado por Paulo Vinícius Coelho era simples, mas otimista. “Os lançamentos que tentam encontrar a velocidade do atacante Henri Camara são o ponto forte da equipe. Com essa jogada, por muito pouco os senegaleses não conseguiram vencer Camarões na decisão da Copa da África. Os adversários franceses, uruguaios e dinamarqueses devem tomar cuidado também com El-Hadji Diouf. Marrocos não tomou cuidado, e levou um gol decisivo”.

Essa era a seleção de Senegal, o time para a história de toda uma geração de adolescentes que viu maturar o time francês campeão em casa e acordou cedo naquela sexta-feira, se é que pregou os olhos, para ver o pouco conhecido elenco africano diante do melhor onze do mundo. Para ver Henry e Trezeguet, voando. Na inocência do clichê, eu esperava uma goleada. Todo mundo que eu conhecia, aliás.

Menos o Tadeu. O Tadeu, dono da banca, me contou que o jornal ia chegar à tarde, já que os jogos eram de madrugada. E que apostava comigo, um sonho de doce de leite, que daria Senegal. Minutos antes da bola rolar em Seul, ele recorreu a Milão, três Copas antes, para narrar emocionado o gol camaronês contra a Argentina. É sempre assim: de tempo em tempo um africano apronta, é 1-0 Senegal, pode escrever.

Voltei ao campinho do PVC. “Djorkaeff substituirá Pires, mas não mantém o nível de 1998. Lizarazu avança demais e Desailly já não tem a mesma velocidade. Lebouef também não tem jogado bem desde que foi para o Marseille”.

Dito e feito. A revista dava a pista, o Tadeu, a zica. Aquele time senegalês, formado em geral por jogadores de relevância mediana em equipes espalhadas pela própria França, fez o jogo dos nossos sonhos, o 1-0 do sonho do Tadeu, aliás, que nunca paguei. Diouf era o melhor do mundo, e Fadiga caminhava numa fineza só – para que Zidane? A dança na bandeira de escanteio foi a folia virtuosa, o lugar do mundo onde nós, meninos e meninas de 14 anos, gostaríamos de estar naquela manhã, ou noite.

Esse time foi longe, não exatamente às quartas-de-final de uma Copa do Mundo, mas alcançou um tempo remoto que pega a estrada da memória e vai que vai, sem fim. Mais de meia vida depois, o gol de M’Baye Niang em Moscou tem um tanto daquela troça na Coreia do Sul. Nem que seja só coisa das nossas cabeças, abstraídas desde 2002, sem ainda ter levantado do gol caído de Papa Boupa Diop.