Estávamos em meados de setembro e, entre os times recém-promovidos à Premier League, o que pintava como sensação era o Norwich. Com um estilo de jogo expansivo, havia conseguido derrotar o Manchester City, atual campeão de todos os torneios da Inglaterra. No entanto, prestes a entrarmos na pausa internacional de novembro, com 12 rodadas disputadas, quase um terço do Campeonato Inglês, o intruso na parte de cima da tabela é o Sheffield United.

Ambos eram candidatos ao rebaixamento, mas, por enquanto, apenas o Norwich cumpre a profecia. Desde a zebra contra os homens de Guardiola, a equipe de Daniel Farke tem sofrido com um volume extenso de lesões, comete falhas defensivas com frequência e os gols de Teemu Pukki desapareceram – como na maior parte da carreira do finlandês. Enquanto isso, o Sheffield United tem conseguido complicar a vida de times mais ricos e poderosos com frequência e aparece em quinto lugar, com os mesmos 17 pontos do Arsenal e um a mais que o United.

Aliás, talvez com exceção do Norwich, todos os times da Premier League são mais ricos e poderosos do que o Sheffield United. Chris Wilder conseguiu o acesso, o segundo em três temporadas, com uma arrancada no final da Championship que o levou ao segundo lugar da tabela e um time cheio de jogadores de segunda e terceira divisão. Ao garantir vaga na elite, houve um investimento próximo a € 50 milhões, mas em atletas com pouca ou nenhuma experiência no mais alto nível.

E quando pegou o Chelsea, empatou. Quando pegou o Everton, em Goodison Park, venceu. Quando pegou o Liverpool, perdeu apenas por causa de uma falha grotesca do seu goleiro. Está há cinco rodadas sem ser derrotado, que incluíram partidas contra West Ham e Burnley, times estabelecidos na Premier League. E, claro, a vitória contra o Arsenal e o empate contra o Tottenham, fora de casa, no último fim de semana.

O mais legal é a maneira como eles alcançaram esses resultados.  Por mais que haja a impressão de que Chris Wilder, 51 anos, é um técnico inglês à moda antiga e consequentemente treina uma equipe inglesa à moda antiga, comanda um time que depende da posse de bola para colocar em ação a sua principal armadilha: os zagueiros-laterais (tradução livre de overlapping centre-backs, termo sendo utilizado pela imprensa inglesa).

A ideia é atribuída a Alan Knill, auxiliar de longa data de Wilder. Eles se trombaram em 2008, no Bury, quando Knill era o treinador principal, e Wilder, seu assistente. Eventualmente, trocaram de lugar. Quando o Sheffield United tem a bola, os alas do esquema 3-5-2 centralizam um pouco e abrem o corredor para que os zagueiros Jack O’Connell à esquerda e Chris Basham à direita cheguem à linha de fundo para o cruzamento.

O objetivo é furar defesas fechadas. Poucos times instruem seus atacantes a acompanharem os zagueiros até o fim e, quando bem executada, a manobra cria uma superioridade numérica nas pontas. George Baldock pela direita contra o lateral esquerdo adversário; O’Connell e Enda Stevens pela esquerda contra o lateral direito. Ainda há o apoio dos meias John Lundstram e John Fleck, às vezes criando um triângulo. A bola é colocada na área para os dois atacantes e o camisa 10, Oliver Norwood.

Para que haja equilíbrio, apenas um dos zagueiros sobe ao mesmo tempo. “Quando um vai, o outro fica”, explica Knill, ao Telegraph. “No passado, tivemos os dois no ataque e um cruzando para o outro. Na verdade, descobrimos que faz com que o adversário recue. O atacante deles tende a recuar para marcar e isso os força a atuar mais para trás. Se continuarmos fazendo isso, eles são obrigados”.

“Precisamos da posse de bola para que nosso sistema funcione e felizmente temos as peças. Temos sorte de ter Chris Basham, que é um meia, um zagueiro, um ala, ele pode jogar em qualquer lugar. Jack O’Connell foi diferente porque ele é um zagueiro que atua pela esquerda e demorou para o encorajarmos a subir, mas pensamos que ele poderia melhorar seu jogo e ficar mais atraente para os clubes grandes. Precisamos dos jogadores certos, mas o problema é que encontrar outro Basham é difícil”, completou.

O segundo aspecto que impressiona no Sheffield United é seu espírito de luta e união, inspirados por dois filhos da cidade: o próprio Chris Wilder, jogador dos Blades no começo dos anos noventa, e Billy Sharp, prata da casa que rodou a Inglaterra inteira antes de se firmar como artilheiro do seu clube de coração. “Os adversários estavam muito organizados e senti um espírito sensacional no estádio e no time, foi uma atmosfera muito boa”, disse Jürgen Klopp, depois da vitória do Liverpool por 1 a 0, graças a uma falha do goleiro Dean Henderson. “Lutando, uma unidade completa de luta. Eles estavam realmente preparados para nós”.

É comum que equipes que sobem à Premier League digam “muito obrigado” aos jogadores que a ajudaram a chegar lá e montem um elenco completamente diferente. Com menor ou maior sucesso e profundidade, foi o que Fulham e Aston Villa fizeram recentemente, mas o Sheffield United decidiu apostar na coesão entre seus jogadores e na ideia de jogo do seu treinador e está colhendo os frutos, já com quase metade dos pontos que precisa para não ser rebaixado, ainda o principal objetivo dos Blades. Por enquanto.