Rever um velho conhecido, depois de muitos anos sem contato, pode ser recompensador. Imediatamente, podem borbulhar nas duas mentes uma série de boas lembranças e a sensação de que nunca estiveram separados, de tão entrosados que ainda estão. Por outro lado, pode ser também bastante frustrante. Você já deve ter reencontrado uma paquera das antigas e pensado “como eu fui me interessar por essa tranqueira?”. E ao esbarrar com um amigo de outros tempos, não é raro que um dos dois, ou mesmo ambos, tenham mudado tanto, que a conversa não flua direito e se resuma a perguntas genéricas e um indisfarçável desconforto.

No futebol, as coisas também podem funcionar dessa forma. O retorno de um antigo ídolo merece ser comemorado, mas arrisco dizer que costuma trazer mais decepções do que novas conquistas. Boca Juniors e Carlos Bianchi não parecem ter mudado muito desde o seu último encontro. Claro, o tempo lhes deixou algumas marcas, embora os fios brancos já fossem comuns na cabeça do treinador e sigam não tendo vez no manto auriazul do clube. Difícil imaginar que não bata aquela cumplicidade de antigamente. Mas é bem possível que, na primeira noitada reunidos, eles percebam que andaram perdendo o mojo. E o que era pra ser uma gandaia regada a cúmbia, pode terminar ao som da fossa de um belo tango.

Será a terceira passagem de “El Virrey” como técnico dos bosteros. Na primeira, entre 1998 e 2001, foi duas vezes campeão da Libertadores (torneio que já havia conquistado em 1994, no comando do Vélez Sarsfield), duas do Apertura e uma do Clausura. Voltaria em 2003 para levantar o Apertura, a Libertadores e o Mundial. Sua trajetória vitoriosa seria interrompida no ano seguinte, quando o Boca foi derrotado pelo Once Caldas (lembra dele?), na final da principal competição sul-americana. Na época, Bianchi renunciou ao cargo, dizendo que isso seria o melhor para o clube, mas era notória a sua insatisfação com a venda de tantos jogadores da equipe multicampeã que ele havia montado.

Desde então, apenas uma passagem rápida e pouco vitoriosa pelo Atlético de Madrid, entre 2005 e 2006. Bianchi até voltou a trabalhar no Boca, mas como diretor técnico. Nunca mais treinou uma equipe, jejum que será saciado a partir de janeiro. Nesse meio tempo, esteve nos sonhos de muitos torcedores e dirigentes brasileiros, especialmente pelas suas conquistas na Libertadores, nas quais costumava trucidar adversários saídos daqui, alimentando a mística que envolve o clube em todo o continente. Sempre alegou questões pessoais para não ir adiante com as negociações, o que fez com que muitos pensassem que ele não voltaria a atuar como treinador.

Mas ele atendeu a um novo chamado do Boca. Ao firmar contrato, mencionou que tinha outras propostas, mas preferiu voltar para o clube onde se sente em casa. O que parece é que ele não queria mesmo saber de grandes aventuras em outros países. Natural para quem já tinha uma longa e bem sucedida carreira. Não só como treinador, pela qual passou também por alguns clubes franceses e pela Roma, mas também como jogador, já que é considerado até hoje o delantero que mais vezes foi às redes em torneios de primeira divisão na Argentina, com 385 tentos em 546 partidas disputadas. Com um currículo desses, ele pode muito bem recusar novos desafios sem ser chamado de covarde, né não?

O tempo não para. Não?

É difícil mensurar o quanto um período de seis anos parado influencia nas capacidade de um treinador. O futebol está constantemente se renovando, especialmente na parte tática, mas nada impede que alguém, mesmo afastado, possa se manter atualizado. Aliás, um tempo de descanso, vendo muito futebol e estudando detalhadamente o jogo e as suas várias possibilidades, pode ser bem mais proveitoso do que pular de galho em galho como fazem alguns técnicos brasileiros, que não parecem entender a importância de não desgastar a própria imagem. Não sabemos como Bianchi encarou o futebol durante a sua ausência. Ele pode muito bem ter ficado o tempo todo de pijama, jogando paciência.

Alguém pode até dizer que treinar um clube é que nem andar de bicicleta. Mas mesmo sem esquecer de como se pedala, El Virrey pode já não ter o mesmo espaço quando retomar a essa ciclofaixa. Será fundamental que o consagrado treinador faça uso de sua experiência, mas assimile com humildade que terá de reaprender alguns conceitos. O maior dos problemas, no entanto, é que o Boca está longe de meter medo, como nos melhores dias da parceria agora retomada. Que o digam Fluminense e Corinthians, que derrubaram os xeneizes recentemente (embora o Flu tenha recebido o veneno de volta). Que o diga Romarinho, que não demonstrou a menor cerimônia em sua estreia na famosa Bombonera.

O retorno de Bianchi pode significar também a volta do outro grande nome do Boca Juniors na década passada, esse dentro de campo. Riquelme está parado não há seis anos, mas há seis meses, o que pesa muito mais para um atleta. Ainda mais em se tratando de um jogador que já demonstrava acentuado declínio físico, embora ainda seguisse incomodando em alguns momentos, graças à sua atemporal categoria. O meia deixou o clube por não se entender com o ex-técnico Falcioni, mas pode se deixar seduzir pela vontade do antigo professor. A essa altura, ambos não têm muito a perder. Se triunfarem novamente, só reforçarão suas condições de mitos do clube. Se fracassarem, não há quem apague o que já fizeram.

Sósia do comediante Larry David (embora eu não me arrisque a afirmar que os dois não se tratam da mesma pessoa, de tão parecidos que são), que criou junto com Jerry Seinfeld uma comédia sobre o nada, Carlos Bianchi certamente não terá muito do que rir se o seu retorno ao Boca resultar em coisa alguma. Pior mesmo será para o clube, que parece ver nesse revival a esperança de voltar a ser soberano dentro da Argentina e também América do Sul afora. Apontar Bianchi como treinador pode ter sido a última manobra da diretoria para se esquivar do descontentamento de uma torcida mal acostumada, que não gosta nada nada de ver seu clube ser apenas mais um.