O relógio na Itália marcava pontualmente as seis da manhã quando, mais em consonância com o horário da China, a Internazionale anunciou a tão esperada notícia: Antonio Conte será o novo treinador do clube na próxima temporada. Os nerazzurri mais madrugadores, que liam o noticiário antes de ir para a labuta, se animaram. Após a confirmação de que Luciano Spalletti realmente não seguiria em Appiano Gentile, o anúncio do novo técnico se tornou questão de horas. Não horas tão matutinas, é verdade. Mas o dia que raia em Milão traz uma nova expectativa sobre o clube, para que o histórico vencedor do novo comandante incida e ele coloque ordem na casa. Seu contrato inicial é de três anos.

Escolhido a dedo pela Inter, Conte é também uma prova de ambição do clube. Os nerazzurri investiram no técnico, pensando em um nome de peso para elevar a competitividade do time e colocá-lo novamente entre os candidatos ao Scudetto. O próprio currículo do veterano fala por si, entre os títulos conquistados por Juventus e Chelsea, além da boa passagem pela seleção italiana. Obviamente, espera-se que o elenco também se encorpe nos próximos meses, com a resolução de pendências e a chegada de reforços. O dinheiro dos donos chineses é outro impulso. O treinador tende a representar um projeto de médio prazo, ainda que as exigências comecem instantaneamente.

“São seus gestos, a imagem que ele transmite e os detalhes que definem Antonio Conte. Desde criança, sua vida tem sido dedicada ao futebol. Sua paixão e seu amor pelo futebol significam que isso se tornou um objetivo a perseguir e resultou em se tornar jogador. Ele vê o futebol como a melhor maneira de se expressar e deixar uma marca, no campo ou no banco. Determinado e ambicioso, Antonio Conte agora está começando sua aventura com a Inter. Bem aqui diante de nós, temos duas entidades com o mesmo objetivo e perspectiva: vencer. […] Agora, o desafio de Conte é o mesmo de todo o mundo nerazzurro: continuar avançando e trazer a Inter de volta ao ápice do futebol europeu”, escreveu o clube, em emotivo texto de apresentação.

De certa maneira, a contratação de Conte relembra a aposta da Inter em Giovanni Trapattoni, durante os anos 1980. Em um momento no qual os novos investidores queriam alçar a equipe novamente ao topo, confiaram em um treinador com fama e currículo para assumir as rédeas. Assim como a velha lenda, Conte possui uma capacidade especial para organizar os seus times e montar sistemas eficientes. Será mais do que necessário, até pelas oscilações que viveram os nerazzurri ao longo dos últimos meses. O novo comandante tende a encaixar o sistema defensivo e, a partir disso, fazer o jogo fluir de uma maneira mais direta. Resta saber como aproveitará as peças à disposição.

Além do mais, Conte adiciona energia à beira do campo. As suas costumeiras vibrações e o discurso vigoroso costumam ter força na motivação dos jogadores. O problema é quando sua personalidade forte começa a provocar atritos. A própria saída do Chelsea se torna um asterisco em sua contratação. E não será fácil lidar com os vestiários da Internazionale, considerando as cisões no grupo que atrapalharam as últimas campanhas. Spalletti, um treinador que vê sua reputação cada vez mais opaca, teve problemas para contornar a questão.

O próprio discurso de Conte em sua chegada já é bastante firme: “Um novo capítulo da minha vida está começando. Estou realmente empolgado. Através do meu trabalho, tentarei retribuir toda a confiança que o presidente e os diretores colocaram em mim. Escolhi a Inter por conta daquilo que o clube é, por causa da base sólida do projeto e pela maneira como isso é ambicioso. Por causa da história da Inter. Fiquei impressionado com a transparência do clube e o desejo de trazer a Inter de volta ao lugar que pertence”.

Um desafio particular a Conte será lidar com a própria resistência da torcida da Juventus. Ídolo em seus tempos de jogador, o treinador criou uma relação muito forte em seu retorno como técnico em Turim e marcou o seu nome após iniciar a atual série de conquistas dos bianconeri. Todavia, muitos juventinos veem seu ato como uma “traição”, optando assumir um dos maiores rivais. Há até uma petição para a retirada da estrela dedicada ao antigo capitão no Estádio Allianz. Será interessante acompanhar esta pressão a mais. Profissional, o veterano segue em frente na sua nova missão, sem precisar prestar contas a ninguém. Mais uma vez, lembra Trapattoni, que deixou a Juve para assumir a Inter, logo após conquistar todos os títulos possíveis com a Velha Senhora.

Vale dizer também que, do outro lado, os próprios ultras da Internazionale mandaram o seu recado a Conte. Fizeram questão de frisar que “a Inter não é a Juve” e vencer não é o único que importa no clube. “Apontamos firme e decisivamente que a Curva Nord não pode esquecer seu passado bianconero. Aceitamos o fato de que o novo treinador esta ‘livre’, tendo reparado as sentenças que eram aplicáveis, embora a ‘culpa’ por sua longa militância seja indelével, em um clube que consideramos anos-luz de distância em termos de estilo e valores. Nossa preocupação, acima de tudo, é o aspecto moral. Ser Inter é vencer o oponente, aceitar as derrotas e não procurar desculpas. Boa sorte a Conte, com a esperança de nos mostrar rapidamente que é digno da Inter”, escreveu a Curva Nord.

Os objetivos de Conte são claros. A obrigação é manter a Internazionale no G-4 da Serie A, embora a reconquista do Scudetto surja como o desejo maior. Além disso, os nerazzurri aguardam campanhas mais longas em suas participações nas competições continentais, com o retorno aos mata-matas. O treinador, por si, faz acreditar que é possível – ainda que seja uma bomba-relógio por sua personalidade. Mas, neste primeiro momento, os prognósticos são favoráveis à chegada. Era o passo contundente que os interistas precisavam dar.