Durante esta semana, quem acompanha futebol na Holanda prestou mais atenção em seleção. E até que foram muitos os comentários sobre ela, tanto pela derrota para a Inglaterra (reações mistas ao 1 a 0, pela atuação promissora da defesa e pelo desalento que o ataque causou), quanto pela vitória em cima de Portugal (3 a 0 relativamente animador, em que pese o time reserva dos Tugas, por novo destaque dos zagueiros, De Ligt à frente, e pela maior mobilidade dos avantes). Com tudo isso, passaram quase despercebidas as demissões no Twente. Sim, no plural: tanto o técnico Gertjan Verbeek quanto o diretor técnico Jan van Halst viram o fim de suas passagens. É mais um capítulo da crise gigantesca que vivem os Tukkers. Enfim, com dramáticas consequências vistas no gramado – mais precisamente, com a última colocação no Campeonato Holandês.

É até surpreendente que só agora o clube de Enschede esteja aflito com a ameaça de rebaixamento, a seis rodadas do fim desta Eredivisie. Afinal, os problemas vêm fortes há pelo menos três anos, quando se descobriu o custo que teriam as parcerias feitas pelo antigo presidente Joop Munsterman. Aqui mesmo já foram citados o enorme prejuízo deixado pelas transações envolvendo o fundo de investimentos Doyen (nesta coluna, no final de 2015), a imposição do rebaixamento ao clube, como punição da federação às falhas nos balanços financeiros (em maio de 2016), e finalmente a discutível decisão de restringir as sanções apenas no campo esportivo, proibindo o Twente de disputar competições continentais pelos próximos três anos (em junho, pouco depois).

Talvez animado por essa decisão, o clube vermelho teve uma atuação surpreendentemente elogiável em 2016/17. Obviamente, para minorar a sangria dos cofres, vendeu quem pudesse vender, pelo máximo que conseguisse – Hakim Ziyech e Felipe Gutiérrez à frente. Buscou empréstimos camaradas, alguns até com clubes de ponta (caso do Manchester City). E das trevas fez-se a luz: com as boas atuações de Bersant Celina e Mateusz Klich no meio-campo, o esforço habitual dos defensores e, acima de tudo, com os gols de Enes Ünal – foram 19, disputando a artilharia até o final da temporada -, o Twente alcançou o 7º lugar na liga. Deixou os torcedores imaginando o que poderia ter sido não fosse a punição que o tirava dos torneios da Uefa: afinal, estaria na repescagem que dá direito a uma vaga na Liga Europa.

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Só que o tempo passou. Enes Ünal voltou ao Manchester City – e de lá foi vendido ao Villarreal -, Bersant Celina e Yaw Yeboah também… e o técnico René Hake precisou começar a temporada com um time ligeiramente refeito. Nem tanto na defesa, onde ainda figurariam jogadores como o zagueiro Stefan Thesker e o lateral direito Hidde ter Avest. Mas no meio-campo, setor em que o time precisaria ser reconstruído em torno de Fredrik Jensen e Mateusz Klich. E no ataque, também dizimado pelos fins de empréstimos, restaria apostar em Oussama Assaidi para dar a habitual velocidade nas pontas – e em Tom Boere, de bom desempenho na segunda divisão, para marcar os gols. E ainda vinham

Aparentemente, daria certo, já que a atuação contra o Feyenoord, na primeira rodada, foi honrosa: sim, houve derrota por 2 a 1, mas o Twente jogou bem, viu um golaço de Jensen e mostrou que, talvez, quem sabe, poderia continuar desafiando os três grandes – e brigando de igual para igual com os médios do mesmo tamanho, como Heerenveen e AZ. Pois é: não aconteceu. Foram quatro derrotas nas quatro primeiras rodadas, já despertando os primeiros temores de uma temporada na parte de baixo da tabela. Uma goleada sobre o Utrecht – 4 a 0, na quinta rodada – deu a impressão de que tudo se acalmaria, e tal impressão se fortaleceu com a vitória sobre o Heracles Almelo, que faz junto do Twente o “clássico” da região (Almelo e Enschede, as cidades respectivas, são muito próximas, na região do Twenthe, dentro da província do Overijssel), na sétima rodada. Contudo, na 8ª rodada, o revés para o Willem II (3 a 1) rendeu aquela que é, provavelmente, a decisão mais desastrada no caminho do Twente rumo à queda: a demissão do técnico René Hake.

Claro, Hake fazia um trabalho longe de ser perfeito. Mas a torcida ainda tinha por ele grande respaldo, pela surpresa positiva de 2016/17. E há longo tempo trabalhando com os jovens nas categorias de base, o treinador conquistara o respeito dos jogadores. A diretoria ainda tentou contemporizar, dizendo que a demissão era apenas um “rebaixamento” de Hake às categorias de base, mas o próprio se negou e preferiu deixar o clube de vez. Para a torcida, a impressão era de que a escolha do bode expiatório fora a errada. Ali a crise financeira do Twente começava a ter, enfim, as consequências dentro de campo.

Gertjan Verbeek foi contratado, com apostas na sua experiência e nos seus bons trabalhos em Heracles Almelo e AZ. No começo, a garra que não falta ao grupo de jogadores se fazia sentir – e dois jogos contra grandes foram a prova disso. Na estreia de Verbeek, contra o líder PSV, na 11ª rodada, por três vezes o Twente ficou atrás no placar, e nas três vezes buscou o empate, antes de sofrer o 4 a 3 nos acréscimos. Contra o Ajax, na 14ª rodada, foi até mais honroso: os Tukkers chegaram a ficar com uma desvantagem de 3 a 1, mas correram atrás do empate. E os avanços na Copa da Holanda (com direito a eliminação do Ajax) davam a impressão de que o time conseguiria ficar acima da zona de repescagem/rebaixamento. Contratações na janela de transferências do começo do ano, como o empréstimo de Adam Maher, davam mais esperança de fortalecimento técnico.

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Tudo isso caiu por terra tão logo a temporada foi retomada. Fosse no 4-3-3 ou no 5-3-2, o Twente seguia com a defesa fragilizada, mesmo com o esforço de sempre. Escalado como titular no gol, Joël Drommel mostra fragilidade crônica. No meio-campo, Maher falhava na criação das jogadas, e restava apenas a Assaidi vir buscar a bola para iniciar as jogadas de ataque. Na Copa da Holanda, ainda houve como mascarar tais falhas, chegando às semifinais. Mas no Campeonato Holandês, a crise ficou a nu: até agora, com onze rodadas transcorridas no returno, o Twente espera por vitórias. Foram cinco empates e seis derrotas. E a partir da 22ª rodada, o clube caiu na zona das três últimas posições para não mais sair dela, até agora.

Irritando ainda mais a torcida, Verbeek escondia a fragilidade do Twente em campo atrás de críticas aos adversários – como o célebre uso do termo “schijtbakkenvoetbal” (“futebol de m****”, citado aqui), em referência à aposta do PSV nos contra-ataques, que rendeu o 2 a 0 do líder do campeonato em Enschede. Enquanto isso, avolumavam-se as derrotas: 4 a 0 para o AZ nas semifinais da Copa da Holanda, o dramático 2 a 1 para o Heracles Almelo na 27ª rodada – neste revés, a torcida perseguiu nas arquibancadas o diretor técnico Jan van Halst, que saiu do estádio para evitar males maiores.

Assim, impressionou pouco a demissão da dupla nesta semana. Verbeek saiu com a marca péssima de ser o único técnico da história do Twente sob cujo comando o time teve menos de 22% de vitória na Eredivisie. Para Van Halst, então, a demissão foi um alívio, conforme ele reconheceu: “Algumas vezes eu pensei em me demitir pessoalmente”. A decisão simboliza a desordem desalentadora no clube, conforme comentou Gerard Marsman, diretor técnico da associação holandesa de treinadores: “Demitir dois treinadores numa só temporada: nunca pensei que veria isso na Holanda. Parece o Palermo, que contrata quatro técnicos por ano”.

Agora, sob o interino Marino Pusic – que já prometeu um estilo mais ofensivo -, o Twente jogará tudo nas próximas seis rodadas. Para sair da última posição e tentar se salvar na repescagem de acesso/descenso, evitando uma queda que não lhe ocorre desde a temporada 1983/84. Uma queda que seria o fim melancólico de um sonho de grandeza, que teve o apogeu no título histórico de 2009/10. Uma queda que, acima de tudo, provaria como, em busca de tal sonho, o Twente está pagando o mais caro dos preços.


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