A conta do investimento pesado nos últimos  anos chegou para o Galatasaray. A Uefa anunciou nesta quarta-feira que o clube turco está suspenso de competições europeias por uma temporada por quebrar as regras do Fair Play Financeiro. A punição começa a valer assim que a equipe conseguir a classificação para a Champions League ou para a Liga Europa, mesmo que isso não aconteça na atual temporada. A decisão já era esperada pelo clube, que tem investido de forma irresponsável em seu futebol há cinco temporadas.

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Criado para dar mais estabilidade aos clubes e ajudar a evitar sua bancarrota, o Fair Play Financeiro proíbe que uma equipe tenha prejuízo de mais de € 30 milhões por temporada por três anos consecutivos. Entre 2011 e 2014, o Galatasaray teve perdas financeiras de 55 milhões, € 38 milhões e € 74 milhões, respectivamente, nas temporadas 2011/12, 2012/13 e 2013/14.

Os altos números são consequências de um plano de investimentos arriscado por parte do clube, que, desde 2011, quando começou a temporada encarando um jejum de três anos sem títulos no Turcão, passou a investir em contratações grandes para o mercado turco, trazendo naquela janela de verão Muslera e Eboué, reforços que foram seguidos nas campanhas seguintes por nomes como Sneijder, Yilmaz, Altintop, Bruma, Alex Telles e Felipe Melo. Dentro de campo, funcionou: a equipe esteve nas últimas quatro edições da Champions League, venceu três Campeonatos Turcos (2011/12, 2012/13 e 2014/15) e duas Copas da Turquia (2013/14 e 2014/15).

Apesar de o caso do Galatasaray poder ser explicado de maneira específica, a mentalidade do clube nos últimos anos faz parte de uma conjuntura maior, a nível nacional, que levou outros times turcos a investir pesado, tendo em mente um crescimento do futebol turco com o objetivo de culminar na ascensão da liga do país à condição de uma das maiores do planeta até 2020.

Um bom exemplo do pensamento que atualmente permeia o futebol turco vem do Fenerbahçe, que hoje lidera a liga. A equipe investiu pesado em contratações para a temporada, fechando com Souza, Kjaer, Nani e Van Persie. O resultado imediato dentro de campo pode deixar os torcedores alegres, mas os gastos ligam um alerta, e a Uefa já deu um aviso ao clube para tomar cuidado com suas finanças, reduzindo sua dívida, recado passado também para Besiktas e Trabzonspor. Segundo a Reuters, ao todo, os 18 clubes do Campeonato Turco somam uma dívida de US$ 1,4 bilhão.

A punição ao Galatasaray e os avisos aos outros grandes do país são alertas mais do que suficientes para que os dirigentes turcos busquem um método mais sustentável para financiar o crescimento da liga. O próprio presidente do Gala reconheceu que, como na Turquia os times não são administrados por empresários interessados em resultados a médio e longo prazo, muitos dirigentes são levados por vontades egoístas e imediatistas, o que torna necessária algum tipo de intervenção externa.

O governo turco já trabalha nesse sentido, ensaiando uma regulamentação que “garanta que as receitas sejam gastas corretamente”, como definiu o ministro dos Esportes Akif Cagatay Kilic. Tugrul Aksar, economista especialista em esportes entrevistado pela Reuters, reforça o pensamento e faz uma previsão, afirmando que, “de outra forma, esses clubes perderão competitividade esportiva a médio e longo prazo”, o que seria um baque duro para um país tão apaixonado por futebol como é a Turquia.