Que não tenha tantos craques como a Europa, pouco importa. Não é preciso listar muitos motivos para afirmar como a Libertadores é uma competição sensacional. Torcida, camisas pesadas, estádios vibrantes; são muitos os fatores que tornam a copa tão especial. Todos eles, graças à própria cultura futebolística sul-americana. Porque, se dependesse apenas da Conmebol, o torneio seria um desastre. Não bastasse a total falta de organização, a entidade agora parece querer sabotar justamente aquilo que a Libertadores tem de mais rico. O que, por sorte, não se cumpre graças à própria incompetência dos dirigentes.

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A Conmebol enviou na última semana uma circular para os 32 clubes da fase de grupos. Segundo a reportagem da Camila Mattoso, no site da ESPN, a confederação pediu aos clubes maiores restrições sobre as suas torcidas. Em alguns pontos, de maneira positiva, proibindo a entrada de pessoas bêbadas ou com armas brancas e de fogo – o que parece óbvio em qualquer parte do mundo, menos para a Conmebol. As limitações, no entanto, também afetam boa parte da festa realizada nas arquibancadas sul-americanas.

Bandeiras, faixas, rolos de papel, balões, bexigas e elementos acionados por sistema de gás (os sinalizadores ou os artefatos que gerem fumaça) e também passaram a ser proibidos nos jogos da Libertadores. Os dois primeiros, segundo os dirigentes, para não atrapalhar a identificação de torcedores no caso de algum incidente no estádio. Junto a isso, a Conmebol ainda restringiu a entrada de mascotes em campo. A presença de crianças fere as determinações do “Manual Técnico de Direito de Patrocínio e do Regulamento de Segurança”, como frisou o Atlético Mineiro, classificando a medida como excessiva.

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A alegria dos pequenos torcedores e os bandeirões que colorem os estádios, obviamente, não atrapalham em nada a competição. Na verdade, só engrandecem o seu espetáculo. Que prefira-se adotar a cautela com sinalizadores, diante do próprio histórico, nada mais se justifica. O que a Conmebol quer com tais recomendações é se eximir de suas responsabilidades. Ser omissa, passando o controle aos clubes. Para que, diante de qualquer problema, os dirigentes possam lavar as mãos dizendo que todos já estavam avisados.

Por sorte, na mesma proporção em que é sem noção, a Conmebol também é incompetente. Os mascotes, infelizmente, não estiveram em campo nesta semana. Mas ninguém impediu os torcedores de entrarem nas arquibancadas com enormes bandeiras. O melhor exemplo disso aconteceu na Argentina, onde os trapos são tão tradicionais. As estreias de Racing, Estudiantes e Huracán em casa contaram com inúmeras faixas. A mais imponente delas, em Avellaneda, onde os racinguistas recebiam o time de volta na Libertadores após 12 anos de hiato.

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E quem duvida que os trapos se agitarão e os rolos de papel higiênico cairão aos montes também nesta quinta, quando o Boca Juniors entra em campo na Bombonera? Difícil imaginar que tanta gente vai ser punida ao mesmo tempo, a não ser pelos olhares gananciosos de cartolas que querem juntar dinheiro à própria entidade. Seria apenas mais um escândalo, em punições desmedidas que fazer a morte de Kelvin ou o racismo contra Tinga serem menos importantes do que um mero bandeirão.

A questão é que a Conmebol continuará sendo relapsa com aquilo que não deve. Não vai assumir a sua culpa nas agressões que acontecerem dentro dos estádios e, em especial, na temporada de chuvas de objetos em campo. Vai ser frouxa diante dos crimes graves, como já aconteceu tantas vezes. Nada mudou e não será esta circular, que deixa de atacar os verdadeiros problemas, que mudará. O que se pede é um pouco mais de atitude, sobretudo para punir os infratores e para controlar quem entra nos estádios. Sem que isso prejudique o próprio espetáculo, com tantas medidas sem noção. Organização não significa esterilização, querida Conmebol.