A Conmebol recuou em uma das principais mudanças que anunciou para a Libertadores na semana passada. E em uma das mais importantes. A final do torneio foi mantida em jogos de ida e volta para a edição do ano que vem. No entanto, segundo a nota oficial da entidade, isso continuará sendo estudado para temporadas futuras. O seu presidente Aleandro Domínguez, principal entusiasta da ideia, ainda não desistiu de copiar o formato da final da Champions League e “organizar uma grande festa para celebrar o futebol”.

LEIA MAIS: 20 momentos de puro êxtase que devem se perder na final da Libertadores em campo neutro

“E (também) fazer do futebol um elemento integrador na América do Sul”, completou o dirigente, que não se preocupa tanto com a integração do continente na hora de distribuir politicamente as vagas extras da Libertadores, pois concentrou quase metade dos participantes em apenas quatro países. “Do ponto de vista esportivo”, continua, “um local pré-definido tem o atrativo de oferecer um campo de jogo neutro para os finalistas, conservando um elemento de surpresa, pois sempre existe a possibilidade de que uma equipe local consiga chegar à final”.

Do ponto de vista esportivo, não há nada mais justo do que jogos de ida e volta. Quando anunciou a ideia de decisão única em campo pré-definido, Domínguez trouxe a estatística de que 70% das finais são vencidas pelo time que disputa a segunda partida em casa, o que seria injusto. Isso, porém, é a própria definição de falácia, porque é impossível saber com certeza que a causa da vitória é jogar os 90 minutos finais diante de sua torcida.

Não são todos os especialistas que concordam que disputar o segundo jogo de um mata-mata em casa seja, de fato, uma vantagem. Mas digamos que seja: essa não é uma vantagem conquistada aleatoriamente. Há um critério técnico. O time de melhor campanha decide no seu estádio. E, se um time chegou às rodadas derradeiras com melhor campanha que o adversário, não é apenas natural que, na maioria das vezes, ele saia vencedor?

O que a final única oferece é aleatoriedade, por concentrar toda a decisão em apenas 90 minutos, mais sujeita à influência da arbitragem e erros individuais dos jogadores. E, como disse Domínguez, pode haver a possibilidade de um dos times jogar em casa, o que atira toda a neutralidade pela janela. É um ótimo produto para a televisão, mas nem tanto para os clubes sul-americanos, que perderiam uma boa chance de lotar os seus estádios e arrecadar uma boa grana de bilheteria. Para alguns menores, como o Independiente Del Valle, é uma oportunidade quase única de colocar as contas em dia.

É pior ainda para os torcedores, que teriam que enfrentar verdadeiras epopeias para se locomover pelo continente, que não apresenta condições satisfatórias de transporte e hotelaria acessíveis. “Também escutamos as preocupações dos torcedores, e a Conmebol deve trabalhar para que haja alternativas de viagem e alojamento que permitam que toda a paixão de uma final de Copa Libertadores chegue a qualquer cidade”, disse Domínguez.

Podemos todos ficar tranquilos agora que a Conmebol está encarregada de resolver um gargalo estrutural centenário da América do Sul. O que a entidade pode realmente fazer? Não dá para encurtar as distâncias, nem tirar a Cordilheira dos Andes do lugar. Ela pode, no máximo, tentar parcerias com companhias aéreas e hotéis para oferecer preços populares ao torcedor que quiser viajar, mas isso é bastante improvável diante da demanda que seria criada por causa da partida.

“Isso requer planejamento de primeiro nível para garantir padrões de excelência em termos de logística, infraestrutura, segurança, mobilidade e organização de eventos”, disse Domínguez. E sabemos muito bem que planejamento de primeiro nível é o lema da Conmebol: em 23 de setembro, a entidade anunciou que os clubes mexicanos poderiam finalmente disputar o segundo jogo de uma eventual final em casa; uma semana depois, o presidente anuncia que a decisão será disputada em uma única partida, o que torna a primeira medida irrelevante; ao mesmo tempo, insatisfeitos com a mudança de calendário, que colocará a Libertadores ao longo de todo o ano, os clubes mexicanos ameaçam deixar a competição; uma outra semana depois, a Conmebol volta atrás e afirma ainda estar estudando a final em jogo único. Imagina essa galera cuidando da sua viagem a Medellín?

Mexer no formato da decisão da Libertadores é um erro e o único alento é que, pelo menos desta vez, a Conmebol decidiu pensar um pouco mais no assunto e planejá-lo melhor, diferente do inchaço de vagas que modificou a lógica de campeonatos nacionais já em andamento. Nós nos livramos dessa. Por enquanto. São as federações nacionais que estão contra essa medida e provavelmente haverá negociações. Quem sabe não aparecem mais umas vagas por aí?

Chamada Trivela FC 640X63