Primeiro, a boa notícia: a final da Libertadores será na América do Sul. Pode parecer óbvio, mas, como Miami era uma das opções e a última foi em Madri, é bom comemorarmos enquanto ainda podemos. No entanto, não será mais em Santiago. Nesta terça-feira, a Conmebol confirmou a decisão que parecia inevitável desde que começou a onda de protestos no Chile e transferiu a decisão para Lima, no Peru, e o questionamento que tem que ser feito é por que demorou tanto tempo.

As manifestações começaram em meados de outubro contra o aumento das tarifas dos transportes públicos e se estenderam a reclamações mais amplas, como corrupção, custo de vida e desigualdade social até o ponto em que a reivindicação é uma nova constituição para o país. O governo chileno chegou a decretar Estado de Emergência e convocar o Exército para controlar os ânimos. Estações de metrô queimaram e pelo menos 20 pessoas morreram. Havia a expectativa de um grande protesto no dia da final, em direção ao próprio Estádio Nacional, liderada pelas torcidas dos três grandes do país (Colo-Colo, Universidad de Chile e Universidad Católica).

Em 25 de outubro, aproximadamente uma semana depois do começo da convulsão social, a Conmebol foi ao Twitter confirmar a final da Libertadores para o Estádio Nacional de Santiago. Fez o mesmo no dia 30 do último mês, ao receber garantias da ministra chilena dos Esportes, Cecilia Pérez, embora os distúrbios não parecessem próximos de terminar, o que causou estranheza porque outros dois eventos importantes marcados para a cidade haviam sido cancelados.

Um deles era a APEC (Cooperação Econômica Ásia-Pacífico), pouco antes do jogo entre River Plate e Flamengo. O outro, a conferência do clima COP-25 (Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2019), cerca de dez dias depois. A racionalização mambembe de que não havia condições de organizar esses eventos em Santiago, mas havia para um jogo de futebol que atrairia dezenas de milhares de torcedores, ruiu com o início da terceira semana de protestos.

A impressão é que a Conmebol fez uma aposta. Segundo o Globo Esporte, no começo, a entidade imaginava que os protestos esfriariam com o tempo e o clima estaria mais tranquilo na data da final. Quando a APEC e a COP-25 foram canceladas, ligou-se o sinal amarelo, mas as garantias do governo compraram mais uma semana de paciência. Com a partida se aproximando e nenhuma mudança significativa na disposição dos chilenos de irem às ruas, uma decisão precisou ser tomada.

“Novas circunstâncias de força maior e ordem pública, analisadas e avaliadas com prudência, considerando a segurança dos jogadores, público e das delegações, motivaram a decisão de levar a final da Libertadores a Lima, e manter a data inicial de 23 de novembro”, informou a entidade sul-americana, em uma nota oficial.

“A escolha do novo palco se apoia no oferecimento do governo do Peru, nas garantias de segurança. A decisão foi um consenso entre os presidentes de Flamengo e River Plate e das confederações de Argentina, Brasil e Chile, e dessa forma se manteve a política de realizar as finais únicas em diferentes países”, completou.

Faltou à Conmebol explicar quais circunstâncias se apresentaram esta semana que já não existiam nas outras duas que ela teve para tomar a decisão mais responsável com antecedência. O que ela fez foi arriscar. Torceu para que a situação do Chile fosse resolvida antes que ela tivesse que mudar os seus planos, e era uma aposta fácil para ela porque o dinheiro que estava em jogo era o dos torcedores que já haviam comprado passagens, hospedagem e ingressos.

Em outra nota, a entidade informou que devolverá 100% do valor das entradas dos torcedores que compraram ingresso e emitirá um novo código que lhes dará prioridade na compra de um novo bilhete para a decisão de Lima, em até 72 horas. Após o prazo, o ingresso será disponibilizado para o público geral. Agora é só as companhias aéreas e os hotéis fazerem a mesma coisa e está tudo resolvido.

Enquanto isso, Lima aprendeu como o mundo dá voltas. Era uma das candidatas à final da Libertadores, mas perdeu para Santiago e ganhou a Copa Sul-Americana como prêmio de compensação. Também seria sede do Mundial Sub-17, sendo realizado no Brasil, mas, em crise política – desde o ano passado, o presidente Pedro Paulo Kuczynski renunciou e o vice Martín Vizcarra dissolveu o parlamento e convocou novas eleições -, perdeu ambas. Mas agora, no Monumental, com capacidade para 80 mil pessoas, acabará organizando o principal jogo do continente.