Os campeões da América do Sul e da Europa podem voltar a se enfrentar regularmente, todos os anos, a partir do meio de 2018. Foi o que informou o presidente da Conmebol, Alejandro Domínguez. Segundo o dirigente, as negociações estão avançadas com a Uefa e já há um acerto para retomar a disputa entre o campeão da Libertadores e da Champions League em agosto de 2018. Vira uma ameaça ao Mundial de Clubes organizado pela Fifa, no fim do ano.

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Em setembro de 2016, Alejandro Domínguez afirmou que a Conmebol propôs à Uefa a ideia de uma Supercopa Intercontinental, com os vencedores da Supercopa da Uefa com a Recopa da América do Sul. Só que a ideia evoluiu para resgatar a história da Copa Intercontinental no seu molde clássico.

“Estamos falando com a Uefa para reeditar a Intercontinental e uma nova Copa que se jogaria entre o campeão da Liga Europa e da Sul-Americana, isso a partir de agosto do próximo ano [2018]”, afirmou Alejandro Domínguez em entrevista à rádio 1080AM, do Paraguai, reproduzida no próprio site da Conmebol.

“Já há uma acordo verbal e agora temos que levar isso adiante. Como é uma partida única, temos que buscar sedes, os patrocinadores e isso leva seu tempo de trabalho”, disse ainda o dirigente sul-americano.

“Estamos buscando cenários possíveis, vendo o melhor lugar e quem vai patrocinar o evento. A decisão política entre Aleksander Ceferin e Alejandro Domínguez está feita, a partir daí os secretários-gerais de ambas confederações começaram a trabalhar neste projeto”, explicou ainda o presidente da Conmebol. “Estamos muito entusiasmados nas duas confederações”.

“Estamos em um estágio inicial em relação às sedes. Mas deve ser um campo neutro. Veremos as melhores condições e ofertas. Não descarto nenhuma sede”, ressaltou Domínguez. “O grande objetivo é que se consiga uma sede muito boa, com patrocinadores muito bons que estejam interessados, que o pagamento aos clubes seja grande. A palavra está dada, empenhada pelas duas partes, e a parte de organização deve materializar esta ideia”, afirmou.

Há também uma ideia que haja um confronto entre o campeão da Copa América e da Eurocopa. “Está em projeto que o campeão da Copa América jogue uma partida com o campeão da Eurocopa”, disse. Domínguez reconheceu, porém, que “é muito trabalho de organização, acredito que irá se concretizar, mas estão em uma fase mais primária de trabalho”.

História da Intercontinental

A Copa Intercontinental foi criada como uma das muitas evoluções para se tentar chegar a uma disputa que mostrasse quem é o melhor time do mundo. Ou, ao menos, um título que simbolizasse isso. Foi instaurada em 1960, depois de uma ideia do presidente da então CBD (atual CBF), João Havelange, e o jornalista francês Jacques Goddet.  A disputa aconteceu até 2004, com organização das duas confederações, até a Fifa assumir o torneio e iniciar o Mundial de Clubes em 2005 – depois de ter feito uma primeira edição em 2000, mas separada da Copa Intercontinental.

A Copa Intercontinental foi efetivamente criada pela Conmebol, com apoio da Uefa. A Fifa, porém, não gosto muito da história e não reconheceu o torneio em 1960. A Uefa ignorou, assim como a Conmebol, e ambos consideram o torneio oficial. O torneio teve altos e baixos, com o Santos de Pelé e o Benfica de Eusébio fazendo confrontos épicos em 1962, colocando frente a frente dois dos melhores jogadores de todos os tempos em confrontos de ida e volta, como era na época. Foi justamente esse o primeiro formato: jogos de ida e volta, na casa do time europeu e outro na casa do time sul-americano. Este era um charme do torneio, mas se tornou um problema.

Já no final dos anos 1960, quando os brasileiros faziam pouco caso do torneio e fortes times argentinos mandavam no continente, começaram a aparecer problemas. Violência, pedras em campo, más condições e uma guerra, dentro e fora de campo, fizeram com que os europeus parassem de querer disputar o torneio. Mais de uma vez os campeões europeus se recusaram a jogar, às vezes sendo substituído pelo vice. Duas vezes, em 1975 e 1978, a competição foi cancelada. Somando os problemas citados e o calendário – o torneio sempre acontece no fim do ano e era um problema para os times europeus, como é até hoje -, a Copa Intercontinental perdeu valor para os europeus.

Mesmo não sendo uma competição da Fifa, a Copa Intercontinental era vista como um mundial. Nós já mostramos aqui na Trivela como os ingleses tratavam o Mundial nos anos 1960. Sim, os ingleses, que são vistos como os que menos ligam para o Mundial, mas o tratava como “World Club Championship” em 1968. Foi ali, aliás, que a percepção dos ingleses passou a mudar, com a enorme confusão com o Estudiantes.

Em 1980, com a mudança do torneio e a disputa em jogo único em uma sede neutra, que passou a ser o Japão, o torneio foi retomado, assim como parte do seu prestígio. Para os europeus, nunca teve o mesmo peso de antes, mas voltou ao menos a ser relevante e nenhum time desistiu de jogar. Desde o início da Copa Intercontinental, o torneio chamou a atenção e a Concacaf pedia para participar, mas nunca conseguiu. A própria entidade, que dirige o futebol da América do Norte, Central e Caribe, mal conseguia organizar seus torneios.

A Fifa sempre observava e até reconhecia o título da Copa Intercontinental, mas sempre a deixava de lado. A ideia de fazer um Mundial de Clubes que pudesse ser rentável teve a sua primeira tentativa em 2000, com o Mundial realizado no Brasil. A ideia rendeu o torneio com  oito participantes no Brasil, mas a falência da ISL minou os planos da Fifa de competir com a Copa Intercontinental.

Como diz o ditado, se não pode com ele, junte-se a ele. A Fifa, então, abraçou a Copa Intercontinental, passou a organizá-la e trouxe representantes de todas as confederações filiadas. Além da Concacaf, que já tentava participar do torneio desde os anos 1960, a AFC, da Ásia; CAF, da África; e OFC, da Oceania. Assim, de 2005 em diante, o torneio passou a ser chamado pela entidade de Copa do Mundo de Clubes e se manteve sendo disputado no Japão, inclusive com os mesmos patrocinadores – na época, a Toyota, que dava nome ao torneio. Depois, o Mundial ainda passaria por Emirados Árabes (2009 e 2010) e Marrocos (2013 e 2014). O torneio voltará aos Emirados Árabes em 2017 e 2018.

Pressão no Mundial da Fifa

Desvalorizar o Intercontinental disputado até 2004 pela falta de chancela da Fifa é bobagem. O Bayern de Munique, quando conquistou o título do Mundial de Clubes em 2013, tratou como um tri-campeonato, lembrado das conquistas de 1976 e 2001. O título da Copa Intercontinental foi, durante muito tempo, o Mundial de Clubes. Não por acaso era tratado assim por aqui. O seu valor era esse. O mundo mudou, evoluiu e o Mundial de Clubes da Fifa se tornou mais inclusivo. Uma evolução natural, mas que não veio sem problemas.

Por mais que o Mundial de Clubes reflita o mundo atual com a representação das seis confederações no torneio, também não dá para negar que o Mundial de Clubes precisa de mudanças para ser mais atrativo. Só os sul-americanos caíram antes da final até aqui, mas os jogos, em geral, são pouco atraentes, exceto pela decisão.

Não dá para negar também que os europeus veem o atual Mundial de Clubes como um problema também por questão de calendário. O jogo acontece no meio da temporada europeia, o que implica uma grande viagem para o clube do velho continente com jogos tendo que ser adiados. Em um calendário que se discute cada vez mais, este é um problema importante.

Disputar a Copa Intercontinental em agosto seria muito mais interessante para os clubes europeus. Seria uma espécie de Supercopa, como já acontece com a Supercopa da Europa – entre campeões da Champions League e Liga Europa – e dentro dos países, com vencedores de liga e copa. Se a Conmebol e a Uefa conseguirem patrocinadores para o evento a ponto da premiação ser grande, como é o plano, esta competição pode ser duplamente mais atraente. O dinheiro e um encaixe melhor no calendário podem tornar a disputa bem mais interessante.

É possível que a Copa Intercontinental volte e não substitua o Mundial. Passe a ser um título à parte. Mas sem dúvida que a divulgação que ela está sendo articulada novamente coloca pressão para que a Fifa faça algo para tornar o seu Mundial mais atrativo. O presidente da entidade máxima do futebol já sinalizou nesse sentido, indicando que gostaria de ter um torneio com 32 clubes – o que parece totalmente inviável – e também em puxá-lo para o meio do ano, algo que já parece plausível.

Fato é que a articulação de suas duas principais confederações de futebol faz com que a Fifa tenha que se mexer mais rápido, antes que ganhe uma concorrência ao seu torneio. E isso pode ser um problema para a Fifa em vários aspectos. No esportivo, porque outras confederações podem reclamar de uma desvalorização; e comercialmente, porque a briga por patrocinadores pode se acirrar.