Conheça Salah Hasarma, o primeiro palestino a comandar um time judeu israelense na história

Técnico chegou a ser ameaçado pela própria torcida, mas conquistou seu respeito e agora enfrenta resistência de torcedores de outras equipes

Quando pendurou as chuteiras, Salah Hasarma tinha um sonho: tornar-se o primeiro palestino a treinar um clube israelense judeu. Isso foi há dois anos, e na época o próprio Hasarma reconhecia a dificuldade de seu projeto: “Sou realista, e há mais chances de que eu vire empresário”. Nesta quinta-feira, no entanto, muito mais cedo do que poderia imaginar, o treinador fez história. No comando do Hapoel Ironi Kiryat Shmona, contra o Slovan Liberec, na República Tcheca, pelos playoffs da Liga Europa, Hasarma realizou seu sonho, à frente da equipe pela primeira vez em uma partida oficial.

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O Kiryat Shmona é o atual vice-campeão do Campeonato Israelense, e Hasarma assume o time após ter passado os últimos dois anos como técnico das categorias de base do clube. Conseguiu o cargo que agora o leva ao time principal logo após se aposentar como jogador, em 2013, aos 41 anos. Benny Ben Zaken é quem comandava o time principal, como interino, mas o sucesso de Salah Hasarma nos dois anos em que esteve à frente da equipe juvenil tornou inevitável sua ascensão ao comando dos profissionais, mesmo com a falta de precedentes de árabes no comando de clubes judeus em Israel.

Infelizmente, a transição de Hasarma foi recebida pelos torcedores com resistência. Em entrevista ao jornal Maariv, o técnico revelou que já recebeu ameaças de morte desde que foi promovido, o que fez sua família ficar receosa, mas exaltou o suporte dado pela diretoria do Kiryat Shmona. “Antes do primeiro treino em Bnei Yehuda, eu recebi ameaças. Disseram-me que não fosse para o campo porque me machucariam ou me matariam. O dono do clube e Eli Ohana, gerente de futebol, disseram-me para não ter medo e me deram confiança. As pessoas disseram que eu não devia me juntar ao time e que um árabe não pisaria em Bnei Yehuda. Meus pais ficaram preocupados, e minha mãe disse que talvez eu não devesse ir. Mas disse a ela que tudo ficaria bem”, contou.

“No primeiro treino, houve alguns gritos contra mim, mas depois de dois jogos os torcedores me deram flores e se desculparam. Disseram que não julgam uma pessoa pela raça. Viram meu amor e comprometimento com o time e, depois de um mês, começaram a cantar meu nome. Dali em diante, senti-me em casa e mesmo agora me sinto bem-vindo”, completou Hasarma.

Em um país marcado pela discriminação e pelos conflitos entre israelenses e palestinos, o futebol se apresenta como uma válvula de escape de tolerância. Exceto pelo Beitar Jerusalem, equipe abertamente racista, todos os outros times da primeira divisão israelense contam com atletas árabes em seu elenco. Mesmo com a inclusão cada vez maior, Hasarma acha que o cenário ainda está longe do ideal. “O início para um jogador árabe é mais difícil. Na maioria dos casos, o jogador vem de um lugar sem infraestrutura e apenas desfruta dela muito depois. Um jogador árabe precisa trabalhar muito mais que seu colega judeu apenas para causar uma boa impressão”, explicou.

Apesar da aceitação conquistada entre seus torcedores, o novo técnico do Kiryat Shmona ainda enfrentará bastante oposição em sua nova empreitada. Torcedores do Beitar Jerusalem, por exemplo, já tentaram impedir a realização de um amistoso da equipe de Hasarma contra o Cardiff City, na Holanda. O treinador enxerga com clareza a existência da discriminação, mas está longe de se resignar e aceitar calado o ódio. “É inaceitável, e precisamos lidar com isso com seriedade. A polícia deveria estar nas arquibancadas e prender qualquer um que grite coisas racistas, assim isso iria parar. Quando jogamos no exterior, vemos pessoas contra nós, então por que isso acontece entre nós mesmos, em nosso país? Precisamos desenraizar isso.”

Além do desafio de se provar em um meio que nunca havia dado chance a um palestino para tal cargo, o palestino terá ainda que superar as exigências técnicas de um clube cujo presidente é conhecido pela pouca paciência com treinadores e pela ingerência em seus trabalhos. Mas independentemente do saldo da empreitada, Hasarma já sai como vencedor.