Nas duas últimas semanas, a coluna fez um balanço do Campeonato Português, inclusive falando sobre as campanhas terríveis de Gil Vicente e Penafiel, que culminaram no rebaixamento de ambos para a Segunda Liga. Agora, é a hora de apresentarmos os dois times que conquistaram o acesso e que estarão na elite do futebol lusitano na próxima temporada: Tondela e União da Madeira.

Pode um time não ganhar nenhum jogo sequer nas cinco rodadas finais e, ainda assim, ser campeão? Pode, desde que seja num campeonato maluco como a segundona de Portugal em 2014/15 – que chegou à última rodada com cinco equipes em condições matemáticas de obter as duas vagas do acesso.

O Tondela parecia ter sua vida resolvida na 41ª rodada, quando derrotou o Portimonense por 4 a 2, em casa. Mas, a partir de então, seu torcedor passou a sofrer. Foram dois empates e duas derrotas que deixaram a equipe em situação delicada para o jogo derradeiro, fora de casa, diante do Freamunde.

E o sofrimento durou até os acréscimos. Foi somente aos 49 minutos do segundo tempo que André Carvalhas marcou o gol que garantiu o empate por 1 a 1 e o consequente título ao Tondela. De quebra, o gol ainda garantiu uma festa em Lisboa, onde o União da Madeira – também jogando fora de casa –, vencia o Oriental por 3 a 0, mas ia ficando fora da zona de acesso por causa de uma combinação de resultados.

Pela primeira vez

A próxima temporada será a primeira do Tondela, clube de 82 anos de fundação, na primeira divisão. E apesar da instabilidade na reta final, não dá para negar que a conquista do título foi justa. A equipe somou 81 pontos, com 21 vitórias, 18 empates e sete derrotas.

O acesso do Tondela, que representa a cidade de mesmo nome, tem também um importante aspecto cultural, pois coloca o interior de Portugal no mapa da elite do futebol do país. Isso porque os times da Primeira Liga são, em geral, da capital ou de cidades que ficam no máximo a 60 quilômetros de distância do mar.

Depois de passada a euforia pelo feito histórico, o presidente do clube, Gilberto Coimbra, foi sensato ao analisar o futuro. “Tudo farei para não tirar um bilhete de ida e volta”, disse, referindo-se ao histórico de tantas equipes que são rebaixadas logo em seu primeiro ano entre os grandes.

E o primeiro desafio para jogar a principal liga portuguesa já começou: o Tondela precisa reformar o estádio João Cardoso, numa obra avaliada em € 2 milhões (dinheiro que poderá ser disponibilizado pela administração municipal). A capacidade atual de 2,6 mil lugares precisa subir para 5 mil. Além disso, devem ser realizadas benfeitorias como instalação de sistema de videomonitoramento e de iluminação capaz de receber jogos noturnos com transmissão ao vivo pela TV.

De volta após duas décadas

Já se vão 20 anos da última vez que o União da Madeira disputou a primeira divisão de Portugal. E graças à campanha de 80 pontos ganhos (22 vitórias, 14 empates e 10 derrotas), que o deixou com o vice-campeonato da Segunda Liga, o time está de volta à elite.

A festa feita pela torcida durante a madrugada, no aeroporto da Madeira, na recepção aos heróis do acesso, dá o tom da importância da conquista. Ela foi acrescida de contornos dramáticos graças ao roteiro espetacular do final do campeonato. Mas serviu para mostrar, também, como o torcedor do União voltava a sentir um grande orgulho do seu time, que agora poderá duelar novamente com os rivais locais Marítimo e Nacional pela primeira divisão.

Um personagem merece atenção especial neste momento histórico: o técnico Vítor Oliveira. Elevado à condição de herói pelos torcedores, ele provou ser o rei do acesso em Portugal, conseguindo subir de divisão o oitavo time diferente em sua carreira.

E se o Tondela precisa correr para reformar o seu estádio, a preocupação do União após o acesso era ter um estádio para jogar a primeira divisão. O problema, por hora, parece estar resolvido. Depois de alguma negociação, acertou-se que o time mandará a maioria dos jogos no Centro Esportivo da Madeira (onde já vinha atuando normalmente) e, quando receber os grandes, terá como casa o estádio dos Barreiros (do Nacional) ou o estádio da Madeira (do Marítimo).

Como praticamente todas as equipes que sobem à primeira divisão, Tondela e União da Madeira vão sofrer na próxima temporada. Mas, se souberem se organizar para ao menos fazer um campeonato digno, podem trazer um charme à competição, que ganhou de presente um clube do interior e outro da Ilha da Madeira.