A menos que você acompanhe o futebol angolano bem de perto, é provável que não identifique, de primeira, o time Kabuscorp. Talvez nem adiante lembrar-lhe que se trata do atual vice-campeão nacional, clube que tem um presidente milionário e um tanto polêmico.

Mas a identificação do caro leitor com o time que mais cresce em Angola nos últimos tempos – ao menos financeiramente – certamente ocorre quando lembramos que o Kabuscorp é o clube que contratou o veterano brasileiro Rivaldo.

É em Luanda, capital de Angola (mais especificamente no bairro de Palanca), que o meia pentacampeão mundial desfez as malas para aceitar um desafio visto por alguns como loucura, por outros como dificuldade enorme em aceitar o fim da carreira e por outros ainda como “isso é problema dele, o cara é atleta e vai jogar onde quiser”.

Fundado em 1994, o Kabuscorp ainda não possui nenhum título nacional. Na temporada passada, chegou perto, ficando a apenas um ponto do Recreativo Libolo, o campeão.

De nome completo Kabuscorp Sport Clube do Palanca, é dirigido por Bento Kangamba, empresário e general de carreira, que vem gastando rios de dinheiro para fortalecer a equipe, tanto dentro de campo quanto no âmbito do marketing. Afinal, contratar Rivaldo (e ter tentado seriamente a contratação do também brasileiro Denilson) não deixa de ser, também, uma maneira de aparecer com destaque na imprensa mundial.

Kangamba, de 47 anos de idade, é tido como uma espécie de Roman Abrahmovich angolano. Sua fortuna vem das Organizações Kabuscorp, empresa que realiza extração de minério em Angola. E é o presidente do Girabola, a liga que organiza o campeonato nacional.

Também influente politicamente no país, ele é muito ligado a José Eduardo dos Santos, presidente angolano. Há um ano, casou-se com a sobrinha do presidente, o que aumentou os rumores de que seria um eventual sucessor de José Eduardo no poder. Há até quem afirme que o casamento é de fachada, servindo somente para fortalecer a aliança política de ambos.

No início deste mês, Kangamba anunciou que irá investir também no Vitória de Setúbal, de Portugal. Numa demonstração de que dinheiro não é o problema, o empresário prometeu não apenas “passar o cheque”, mas ter um “investimento sólido, estruturado e benéfico para todos”.

Um amistoso entre Vitória Setúbal e Kabuscorp, no dia 27 de fevereiro, em Luanda, vai selar a parceria entre os dois clubes e apresentar para a torcida palanca o elenco que promete brigar pelo título do Girabola 2012.

Mistério
A existência do Kabuscorp gira em torno de Kangamba (que na verdade chama-se Bento dos Santos). Isso é facilmente notado no site oficial do clube, que não tem espaço para a história do time ou uma seção dedicada somente a notícias, mas que reserva uma página especial ao seu presidente/dono.

Os feitos de Kangamba no cenário nacional (e não apenas no futebol) são destacados pela página: “Pacificação de espírito e reconciliação nacional, principalmente no seio da juventude, ações filantrópicas, inserção de jovens no mercado de trabalho com apoios de kits de trabalho ou por meio de auxílio financeiro”.

A página também lembra os feitos do empresário patrocinando times e atletas de outros esportes, como handebol e atletismo, além de ações na área cultural. Isso sem contar o fato de que a foto dele tem mais espaço no cabeçalho do site do que o próprio distintivo do clube. É, em suma, uma apologia a si próprio.

Mas apesar das desconfianças que ocorrem naturalmente quando uma pessoa pratica esses tipos de ações, não se encontram facilmente denúncias contra Kangamba. Claro que vale considerarmos que Angola é um país pobre, com pouco acesso à informação. Mas é notável que o tratamento dado a ele difere, por exemplo, do recebido por excêntricos milionários do leste europeu que compram clubes ao redor do mundo.

A oposição a Kangamba aparece somente em sites de movimentos políticos, que o acusam de ter se beneficiado da guerra dos anos 90 para fazer sua fortuna, de usar métodos nada honestos (como suborno) para manter a popularidade e de ser um avatar do presidente do país.

Missão: o título
De qualquer forma, o certo é que a partir de 3 de março, quando o Kabuscorp estreia no Girabola 2012, recebendo o Progresso, o time terá uma enorme responsabilidade: a de conquistar o primeiro título nacional.

Nesta missão, Rivaldo terá a companhia de três jogadores que fizeram parte da seleção angolana na Copa Africana de Nações (Hugo, Lunguinha e Sawú). E do técnico Viktor Bondarenko, ex-jogador russo e treinador com grande experiência no futebol africano.

Todos eles sabem que um eventual fiasco significará desagradar um dos homens mais importantes de Angola. E que isso não será nada bom, para ninguém.