Por Clarissa Carramilo

Os últimos acontecimentos que levaram o nome do Al-Masry e do Egito às capas dos jornais do mundo inteiro não fazem jus à história do clube. A tragédia no Port Said Stadium que deixou 74 mortos e dezenas de feridos está inteiramente ligada ao momento político e social do país, que passa por um momento de transição para a democracia,depois da queda do ditador Hosni Mubarak na Primavera Árabe. O jogo entre Al-Masry e Al-Ahly, válido pelo campeonato nacional, já havia sido adiado em virtude do aniversário de um ano da revolução. As autoridades temiam um motim e decidiram esperar uma semana para realizar a partida.

O medo era perfeitamente justificável, como se viu após a vitória do Al-Masry sobre o Al-Ahly de virada por 3×1. O caso está sendo investigado e existe a desconfiança de que a tragédia só ganhou proporções tão extremas por conta de uma inoperância proposital dos policiais presentes no estádio, que teriam “deixado a violência correr” como vingança pelos enfrentamentos da torcida organizada do Al-Ahly (que enfrentou a polícia partidária do ex-ditador em Cairo) na época da revolução.

O presidente do Al-Masry, Kamel Abu Ali, também deu pistas de que o clube de Port Said ainda está alinhado com o antigo regime político. “Este é um complô para derrubar o Estado. A polícia tem que voltar com força e devemos deixá-los fazer o seu trabalho. Quando um criminoso precisa ser punido, não devemos defendê-lo”, disse o presidente.

Os protestos por conta da tragédia continuam fazendo mortos e feridos pelo país e há quem já decrete “o fim do futebol no Egito”. O que não se pode esquecer é que, em país que se pretende democrático, é preciso, antes de qualquer coisa, paz. E ainda, que deixem o futebol em paz.

Um clube para egípcios

1920, Port Said, a 200 km do Cairo, capital do Egito. A Revolução Egípcia contra a dominação britânica havia começado um ano antes quando um grupo de nativos, influenciados pelas ondas de patriotismo que começavam a se espalhar pelo país, resolveu fundar um clube de futebol “para egípcios”, já que Port Said estava cheia de times de “comunidades estrangeiras”.

O nome? Al-Masry. Em português, significa “o egípcio”, uma alusão à história de fundação do clube e do próprio Egito. O símbolo é formado por uma águia com uma bola sobre a cabeça, entre as duas asas, e foi inspirado no formato dos pingentes de Tutankhamon, que simbolizam força e desafio. Por isso, o clube é conhecido como as águias verdes, tendo como cores principais o verde e branco, vindos da bandeira do Egito após a Revolução de 1919, como símbolo de patriotismo.

A era dos Águias Verdes

Não demorou para o Al-Masry se tornar um dos cinco maiores clubes de futebol do Egito, vencendo a maioria dos títulos entre os anos de 1932 e 1948, período mais conhecido no país como a Era dos Águias Verdes. Eles faturaram três copas do Sultão Hussein (1933, 1934 e 1937) e mais 17 títulos consecutivos da Liga da Zona do Canal, de 1932 a 1948. Na época, a equipe contava com o atacante El-Sayed El-Dhizui, um dos maiores goleadores da história da Liga Egípcia com 112 gols.

O Al-Masry foi também o primeiro clube egípcio a se tornar profissional, em 1983/84, e uma das primeiras equipes do país a contratar atletas estrangeiros, ainda naquela temporada: os iranianos Port Qasim e Abd al-Rida Brzkri, que levaram o time à final da Copa do Egito, quando acabou perdendo para o Al-Ahly por 3×1.  O título da competição, tido como o maior da história do clube, viria em 1998, com um triunfo por 4 a 3 sobre o Al-Mokawloon na decisão.

Os torcedores dos Águias também se orgulham de dizer que são um dos poucos times que participam da Liga Egípcia, a primeira divisão do campeonato nacional, desde o seu início, em 1948. O clube só perde para Al-Ahly e o Zamalek em participações, porque ficou fora de duas edições na década de 50, em consequência da Crise do Canal de Suez. Mesmo assim, o Al-Masry nunca foi campeão nacional, tendo o terceiro lugar como a melhor posição já alcançada.

O time costumava mandar seus jogos em um terreno próprio, mas a capacidade era muito baixa para o tamanho da torcida. Foi construído então, o Port Said Stadium, oficialmente inaugurado em 1955.

Ídolos

Entre os principais ídolos do clube estão Ibrahim El Masry, que foi considerado o melhor jogador jovem da África em 1991, disputou um Mundial sub-20 pelo Egito e uma Olimpíada, além de atuar pela seleção principal. Também está marcado na história do Al-Masry e do futebol, o jogador Abdulrahman Fawzi, primeiro africano a marcar um gol em uma Copa do Mundo, contra a Hungria em 1934.

O maior dos ídolos, no entanto, é Mussad Nur. Ele jogou por 13 anos na equipe, de 1972 a 1985, tendo recusado propostas dos dois principais rivais pra deixar o clube. O primeiro gol dele pelo Al-Masry foi logo no jogo de estreia contra o rival Zamalek. No total, marcou 65 gols na liga, e, apesar de nunca ter sido campeão com o time, também foi aproveitado pela seleção egípcia.

A última grande revelação da equipe foi o atacante Mohamed Zidan, que jogou no Port Said Stadium dos oito aos 18 anos. Hoje com 30 anos, ele está desde 2005 no futebol alemão, tendo sido transferido este mês do Borussia Dortmund para o Mainz 05, clube onde é tratado com muito carinho.