Ainda é muito raro vermos mulheres como técnicas, ainda mais no futebol masculino. Se pensarmos em países árabes, mais ainda. Por isso mesmo, Selma Al Majidi pode ser considerada uma pioneira. A sudanesa, apaixonada por futebol, será a primeira técnica mulher de um time masculino em um país árabe. Ela irá comandar o Al Nasr, do Sudão, time da terceira divisão do país. A grande história desta mulher mostra alguém que se prepara muito para chegar a esse ponto, mas ainda tem que enfrentar uma forte resistência.

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A trajetória desta mulher no futebol começou quando ela foi assistir ao irmão treinar. Ela, já uma fanática por futebol, queria acompanhar aquele ambiente de perto e o fez atentamente. “Eu notei tudo que o técnico disse para o meu irmão e seus companheiros. Eu aprendi suas instruções táticas de coração e guardei até o modo como ele colocou os cones”, contou, em entrevista ao site da Fifa, Al Majidi.

“À noite, eu tentei todas as instruções dele com o meu irmão em casa, que se tornou uma sala de treino. Eu usei utensílios de cozinha como cones e eu assisti jogos de futebol na TV com a minha família. E foi assim que eu comecei a entender tudo no esporte que no meu país é um território de homens”, explicou a sudanesa.

Al Majidi, então, foi convidada a assumir os times sub-13 e sub-16 do Al Hilal, clube do próprio Sudão. “É muito difícil dirigir adolescentes e eu tive que ser forte para encará-los. Adolescentes normalmente não ouvem a adultos e às vezes eles inclusive riem do que eu tinha para dizer a eles. Eu aprendi a importância de ser paciente, o que me ajudou muito na minha carreira profissional de futebol”, contou a treinadora, sobre a experiência nas categorias de base do time de Omdurman.

Paralelamente, Al Majidi começou a se preparar para o que queria, trabalhar com profissionais. Começou a fazer cursos na Federação de Futebol do Sudão e na Confederação Africana de Futebol. Ela conquistou a Licença C do futebol sudanês e africano e está em processo para conquistar a Licença B.

O sucesso nos times de categoria de base do Al Hilal despertaram o interesse de clubes do país, que começaram a consultá-la para assumir um time profissional do país. Ela então assumiu o Al Nasr, time que também é de Omdurman, e que está na terceira divisão do país. Só que assumir um time profissional masculino é um enorme desafio para uma mulher. E ela teve que encarar problemas no início.

“Para começar, alguns dos jogadores não queriam trabalhar comigo apenas porque eu sou mulher. Foi estranho para eles e todos estavam incertos sobre a sua situação. Com tempo, porém, eles vieram a me respeitar e me elogiaram pelo meu trabalho. Foi um grande desafio e eu encarei da melhor maneira possível ao salvar o time do rebaixamento”, disse.

Formada em Contabilidade e Gestão pela Faculdade de Al Nasr, Al Majidi contou sobre a batalha para enfrentar os tabus e preconceitos em relação a uma mulher trabalhando no futebol, só com homens. “A sociedade não olhava favoravelmente no que eu estava fazendo, porque a crença era que apenas homens deveriam treinar times masculinos. Nós vivemos em uma sociedade oriental e as pessoas do Sudão têm hábitos e costumes que colocam uma barreira para as mulheres em todos os caminhos da vida, o futebol entre eles”, ela conta.

Apesar de tantas coisas contra o seu sonho, Al Majidi teve um apoio fundamental: o da sua família. “O homem nas ruas aqui é mais conservador que meus pais, que me encorajaram a seguir em frente e treinar homens. Minha família é a minha principal apoiadora, especialmente minha mãe e meu irmão menor, que eu agradeço muito”, disse Al Majidi.

“Eu estou feliz por ser um modelo esportivo no Sudão. Onde eu vou, meu compatriotas dizem olá e me congratulam. Eu espero continuar neste caminho e assumir um clube de primeira divisão, ou mesmo chegar ao nível internacional dirigindo a seleção nacional”, ela contou.

E os sonhos de Al Majidi são altos. Ela, que apareceu na lista de 100 mulheres mais inspiradoras da BBC, quer que haja uma seleção de futebol feminino no Sudão. E quer ser a técnica do time.