por Roberto Aló Filho

A Guiné Equatorial ficou conhecida no mundo do esporte nos Jogos Olímpicos de Sidney, em 2000. Foi quando o nadador Eric Moussambani disputou a eliminatória dos 100 metros livres (foi crawl na ida e cachorrinho na volta) e marcou o tempo de 1m52s72 – seu recorde pessoal e nacional. Eliminado da competição, o nadador guinéu-equatoriano viu o holandês Pieter Van Den Hoogenband levar o ouro da prova batendo o recorde mundial com 47s84, menos da metade de seu tempo.


O futebol guinéu-equatoriano ainda nada no ritmo das braçadas de Eric Moussambani.  A seleção Nzalang, como é chamada pelos torcedores, é a 151ª colocada no ranking da FIFA. No continente africano está em 41º lugar, números de janeiro de 2012. Seu único título expressivo é o campeonato Centro-Africano de 2006 (CEMAC Cup). Além da Guiné-Equatorial participam do campeonato Camarões, Chade, Congo, Gabão e República Centro-Africana. O torneio foi disputado no País e os guinéu-equatorianos festejaram a vitória em casa ao derrotarem Camarões nos pênaltis.

Não são as referências mais abonadoras do mundo. E é por isso que a campanha da seleção local na Copa Africana de Nações de 2012 foi tão significativa. Os guinéu-equatorianos dividiram com os gaboneses a sede do evento, e até que fizeram boa figura na estreia continental. Classificarem-se para as quartas-de-final em um grupo com Senegal, Zâmbia e Líbia. Acabaram caindo diante da experiência da Costa do Marfim, 3 a 0.

Foi o suficiente para aparecer o lado negativo dessa história. A campanha na CAN foi acompanhada de uma denúncia contra Teodoro Obiang, filho do presidente do País, que ofereceu um bicho de R$ 1,7 milhão para os jogadores. A denúncia partiu da ONG “One”, fundada por Bono Vox, vocalista do U2, pelo diretor Guillaume Grosso que considerou “duvidosa” a origem do dinheiro. Obiang também prometera um prêmio de R$ 34,5 mil para cada gol marcado na abertura do torneio, contra a Líbia. Os donos da casa venceram por 1 a 0.

Sob o domínio espanhol
Assim como aconteceu com o Brasil, a Guiné Equatorial foi descoberta pelos portugueses no século XV, em 1470. A partir de 1778, a Espanha iniciou o processo de colonização. O País ficou sob o domínio dos espanhois até sua independência no dia 12 de outubro de 1978, quando Francisco Nguema assumiu a presidência.

A Guiné Equatorial é o único país africano que tem como língua oficial o espanhol. A influência dos colonizadores é marcante, sobretudo no futebol. O jogador mais famoso do país é Rodolfo Bodipo, é espanhol de Sevilha que adotou no futebol a nacionalidade de seus pais. Aos 34 anos, passou apenas por clubes espanhóis, como Santa Cristina, Recreativo Huelva, Racing Santander, Alavés e em 2006 – ano em que estreou pela seleção guinéu-equatoriana – chegou ao Deportivo de La Coruña.

Bodipo não é caso isolado. Muitos jogadores dos Nzalang nasceram na Espanha. Além de Bodipo, Javier Balboa, do Beira-Mar-POR e com passagem pelo Real Madrid; Iván Zarandona, do Deportivo Lugo-ESP; Edjogo-Owono, do Sabadell-ESP; Iban Iyanga, dos Las Palmas-ESP; David Álvarez, do Langreo da 4ª divisão espanhola e autor do gol contra Senegal na CAN 2012, estão na mesma condição.

Outro país com presença marcante na seleção de Guiné Equatorial é o Brasil. Para montar uma seleção forte, a federação local naturalizou vários jogadores brasileiros. É o caso de Danilo Clementino, pernambucano de Caruaru e goleiro do América-PE, estava no gol da seleção da Guiné-Equatorial durante a CAN 2012. Foi convocado pelo técnico brasileiro Gilson Paulo. Apesar da eliminação para a Costa do Marfim, o brasileiro defendeu um pênalti cobrado por Drogba. Outros brasileiros guinéu-equatorianos são Ronan Falcão, de Magé-RJ, Daniel Martins, de Vitória, André Neles, de Patrocínio-MG, que jogou em vários clubes no Brasil, entre eles Atlético-MG e Palmeiras.

Esse sistema de usar descendentes nascidos na Espanha com brasileiros naturalizados ajudou na Copa Africana, mas ainda é pouco. A Guiné Equatorial ainda tem um futebol local muito fraco, em que os principais clubes (Deportivo Mongomo, Renascimiento FC, Sony Elá Nguema, Akonangui, The Panters e Atlético Malabo) fazem pouco em torneios continentais e não revelam talentos.

Sem um projeto mais sustentável e que use talentos locais, até a boa campanha da CAN será esquecida. Ou lembrada mais pelo escândalo da premiação. O que seria pior que ser aplaudido pelo mundo todo por se esforçar para terminar a piscina nadando cachorrinho.