A Spal foi derrotada pelo Tertana, no último sábado, pela penúltima rodada da segunda divisão italiana. Sem problemas. Como o Frosinone também perdeu, para o Benevento, por 2 a 1, a equipe da região de Ferrara, na Emilia-Romanha, garantiu o acesso para a Serie A após 49 anos no limbo e mais um capítulo interessante em sua história.

O clube que revelou Fabio Capello, entre outros jogadores importantes para o futebol italiano, conseguiu retornar à elite da Itália em sua primeira participação na Serie B, depois de 24 anos em divisões inferiores, apesar da queda de rendimento nas rodadas finais, com dois empates e a derrota para o Tertana.

Mas o acesso veio mesmo assim, graças à regularidade: a Spal perdeu apenas dois jogos entre outubro e março, em 25 partidas, e somou pontos suficientes para liderar a tabela. Tem dois a mais que o Verona e encara o Bari, 11º colocado, em casa, na última rodada, para tentar conquistar o título da Serie B, como em 1950/51, quando chegou à elite pela primeira vez.

No texto abaixo, nosso amigo Emmanuel do Valle detalha a bonita história do clube que passou muitos anos na primeira divisão e foi finalista da Copa Itália em 1962.

Por Emmanuel do Valle

Ferrara é uma importante cidade da região italiana da Emilia-Romanha e costuma aparecer com certo destaque em alguns mapas do país. Com seus castelos e palácios datados dos últimos séculos do período Medieval, é considerada Patrimônio Mundial pela Unesco. Berço do cineasta Michelangelo Antonioni, agregou também diversas atividades industriais nas últimas décadas. Mas para quem curte o futebol italiano, uma pergunta muitas vezes ocorreu: uma cidade deste relevo não conta com nenhum time tradicional no Calcio?

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Conta sim, embora frequentemente passe despercebido por não levar o nome da cidade, ou mesmo seu gentílico. Trata-se da Società Polisportiva Arset Labor, mais conhecida pela sigla SPAL. Participante frequente da divisão de elite do futebol italiano nos anos 1950 e 1960, o clube retornará à Serie A na próxima temporada. Um bom motivo para relembrar os grandes momentos do clube biancoazzurro – que tem o Bologna como rival mais ferrenho – em sua era de ouro.

Da fundação ao acesso à elite

O futebol chegou em 1913 ao círculo religioso e cultural Ars Et Labor, fundado pelo padre salesiano Pietro Acerbis, seis anos antes, em Ferrara. Logo, assim como todo o braço esportivo da agremiação, tornou-se independente, adotando por vezes a denominação Associazione Calcio Ferrara. A equipe chegou a disputar o grupo principal da Emilia-Romanha no tempo do campeonato italiano regionalizado, mas com a criação da liga profissional, na temporada 1929/30, acabou relegada às categorias inferiores, onde permaneceu até o início da década de 1950.

Na temporada de seu primeiro acesso, em 1950/51, o time dirigido por Antonio Janni fez campanha tranquila: não só conquistou uma das duas vagas na elite como terminou com o título, quatro pontos à frente do segundo colocado Legnano e com 11 a mais que os terceiros colocados Modena e Livorno. No mesmo ano do acesso, o clube comemorou ainda a reinauguração do estádio Comunale, reformado e ampliado para 25 mil torcedores.

Nas duas primeiras temporadas na elite, fez campanhas surpreendentemente seguras. Na primeira ficou em nono lugar entre 20 participantes, em grande parte graças aos 13 gols do turco Bülent Esel. Na segunda, chegou inicialmente a correr risco de degola e a ocupar a lanterna por algumas rodadas, mas se estabilizou ao longo do returno, terminando na oitava colocação entre 18 equipes.

Ainda em 1952, logo após estrear na Serie A, o clube cederia o goleiro Ottavio Bugatti e o atacante Alberto Fontanesi para a seleção italiana que disputou os Jogos Olímpicos de Helsinque. Ambos foram titulares na Azzurra dirigida por Giuseppe Meazza, ao lado de um ex-companheiro de Spal, o meia Egisto Pandolfini, vendido à Fiorentina em 1948 e que mais tarde retornaria a Ferrara, após passagens pela Roma e Inter.

As duas campanhas seguintes, entretanto, seriam mais problemáticas. Em 1953 /54, viveu um drama ao terminar empatado com Udinese e Palermo e precisar jogar um triangular para definir um dos rebaixados. Na primeira partida, contra a Udinese em Milão, derrota por 2 a 0. Com o empate em 1 a 1 entre Udinese e Palermo em Florença, apenas uma vitória sobre os sicilianos no terceiro jogo, em Roma, garantiria a permanência na elite. O Palermo abriu o placar e a SpaL empatou ainda no primeiro tempo, mas a salvação só veio a 12 minutos do fim, com gol de Bernardin, decretando a vitória de virada por 2 a 1.

A melhor campanha da história

Na temporada seguinte, chegou a sofrer temporariamente a decepção da queda ao terminar na penúltima colocação, mas acabou mantido na elite após a Federação punir a Udinese (vice-campeã naquela temporada) e Catania com o rebaixamento por manipulação de resultados. Depois de mais duas temporadas tranquilas seguidas por outras duas de luta contra a degola, o clube viveria sua melhor temporada em toda a sua história na Serie A, a de 1959 /60.

Com apenas duas derrotas nas 17 partidas em casa e um bom número de triunfos como visitante (cinco, diante de Napoli, Sampdoria, Genoa, Bologna e Alesandria), a Spal terminou na quinta colocação, empatada em pontos com o Bologna e o Padova – ainda que, na prática, tenha terminado em sétimo, já que levava desvantagem nos critérios de desempate. Mas sua pontuação foi inferior apenas às de Juventus, Fiorentina, Inter e Milan.

Aquela temporada marca também a chegada de um dos maiores jogadores da história do clube e seu principal atleta estrangeiro (embora fosse considerado ‘oriundo’): o atacante argentino Oscar Alberto Massei foi revelado pelo Rosario Central no início dos anos 50, sagrando-se artilheiro do campeonato de seu país em 1955. No fim daquele ano aportaria em Milão para defender a Inter. Como jogador nerazzurro, chegaria a ser convocado para a seleção italiana, mas sem entrar em campo.

Oscar Massei, um dos jogadores mais importantes do clube
Oscar Massei, um dos jogadores mais importantes do clube

Prejudicado por lesões constantes, acabou cedido à Triestina, emprestado por uma temporada, e em seguida à Spal, passando a jogar mais recuado, como ponta-de-lança. Seria a primeira de suas nove temporadas em Ferrara (a maioria das quais como capitão), tornando-se ainda o jogador com mais partidas e o maior artilheiro do clube na Serie A em todos os tempos.

Outro destaque da Spal naquela temporada de 1959/60, e que teria carreira ainda mais prestigiosa seria o lateral-direito Armando Picchi, vindo do Livorno, mas que teria em Ferrara sua grande vitrine: após aquela grande campanha com os spallini, seria contratado pela Inter de Milão pela bagatela de 24 milhões de liras mais os passes de três jogadores em definitivo (entre eles, Oscar Massei). Sob o comando de Helenio Herrera (que mais tarde o converteria em líbero), tornaria-se o capitão da Grande Inter, bicampeã da Copa dos Campeões nos anos 60, antes de falecer subitamente aos 35 anos, em 1971, quando já encerrara a carreira de jogador e iniciara um promissor trabalho como treinador na Juventus.

1962: um ano movimentado

O ano de 1962 também foi marcante para a Spal. Em maio, o presidente Paolo Mazza, antigo jogador e treinador do clube, seria convidado pelo presidente da Federação italiana, Giuseppe Pasquale (ele próprio natural de Ferrara), a integrar a comissão técnica da seleção italiana na Copa do Mundo do Chile, dividindo a função de treinador da Azzurra com Giovanni Ferrari. Logo após retornar do Mundial, Mazza traria para as categorias de base do clube um jovem meia promissor (e também alvo do Milan) chamado Fabio Capello.

Em 21 de junho, a Spal chegaria pela única vez à decisão da Copa da Itália, depois de deixar Verona, Lanerossi Vicenza e Novara pelo caminho e de golear a Juventus por 4 a 1 na semifinal. No entanto, na decisão contra o Napoli (que então figurava na Serie B) no Estádio Olímpico de Roma, os biancoazzurri foram derrotados por 2 a 1, deixando escapar seu primeiro grande troféu.


Outro grande feito daquele ano aconteceu em 7 de outubro, já pela temporada 1962/63. Ao bater a Sampdoria fora de casa por 1 a 0, a Spal assumiu a liderança isolada da Serie A pela única vez em sua história, na quarta rodada da liga. O gol foi marcado pelo brasileiro Carlos Cézar, atacante trazido do Comercial de Ribeirão Preto no início daquela campanha. Antes, o clube havia batido o Palermo fora (1 a 0), empatado em casa com o Catania (2 a 2) e derrotado o Napoli, também como mandante (4 a 2). Embora não mantivesse a sequência positiva pelo restante da campanha, terminaria num bom oitavo lugar.

A primeira queda, o retorno e os últimos anos na elite

Spal x Lazio, em 1965/66
Spal x Lazio, em 1965/66

O ponto de inflexão viria com o rebaixamento em 1964, decretado após derrota para o Lanerossi Vicenza por 1 a 0 fora de casa na penúltima rodada, curiosamente na temporada em que o clube mudou o desenho de sua camisa, substituindo o modelo azul com mangas brancas para o de listras finas verticais em azul e branco, adotado até hoje, e, amargamente, também na mesma em que o arquirrival Bologna conquistou seu último scudetto.

O clube aproveitou o descenso para renovar o elenco e colheu frutos: retornou imediatamente à elite, ao terminar em terceiro na Serie B, e de quebra ainda evidenciou a boa safra de garotos que dispunha ao conquistar o Campeonato Primavera (espécie de liga juvenil) da segunda divisão, com um time dirigido por Giovan Battista Fabbri no qual se destacavam Fabio Capello, Edoardo Reja e Luigi Pasetti.

Na temporada de retorno à primeira divisão, a Spal até que começou bem, mas uma sequência prolongada de resultados ruins fez o clube sofrer a ameaça de rebaixamento até a última rodada. A salvação veio com um empate fora de casa com o Brescia por 2 a 2, depois de sair em desvantagem de dois gols. A igualdade no placar veio com tento de Osvaldo Bagnoli, experiente meia ex-Milan, e que dali a quase duas décadas entraria para a história do Calcio ao comandar o histórico scudetto do Verona, em 1985.

Bagnoli foi um dos jogadores experientes trazidos pela Spal em troca dos jovens talentos que deixavam o clube para equipes maiores. Ao longo das duas décadas em que figurou na elite, o time de Ferrara também contou com outros nomes de primeiro nível do futebol italiano da época. Um deles foi o defensor Sergio Cervato, capitão da histórica Fiorentina que levantou o scudetto de 1956 e chegou à decisão da Copa dos Campeões, perdida diante do Real Madrid no ano seguinte. Outro foi o goleiro Carlo Mattrel, ex-Juventus, que disputou a Copa do Mundo de 1962 pela Azzurra.

Em 1967, a SpaL outra vez se salvou da degola na última rodada, vencendo o Venezia por 3 a 2 (com um gol de Fabio Capello em seu último jogo oficial pelo clube) numa temporada atípica, em que quatro clubes seriam rebaixados já que a Federação Italiana promoveria uma redução do número de equipes na Serie A de 18 para 16. A campanha seguinte, no entanto, marcaria o adeus definitivo (até agora) do clube na elite. Uma derrota em casa para a Juventus por 1 a 0 na última rodada, em 12 de maio de 1968, decretou a queda. Ironicamente, a Spal terminou em 14º lugar (o primeiro entre os três rebaixados), colocação que a teria mantido na elite em qualquer uma das temporadas anteriores que disputou na Serie A.

Abaixo, vídeo com lances da última vitória do clube na Serie A, 1 a 0 diante da Atalanta, em 28 de abril de 1968, pela antepenúltima rodada:

A descida ao limbo

A depressão pela queda se agravaria na temporada seguinte: os spallini terminariam na antepenúltima colocação na Serie B, emendando um novo rebaixamento, agora para a terceira divisão. O clube ainda retornaria para mais dois períodos regulares na segundona – entre 1973/74 e 1976/77 e entre 1978/79 e 1981/82. Em 1989 cairia para a Serie C2, equivalente à quarta divisão, retornando à Série B pela última vez antes da atual temporada graças a dois acessos consecutivos em 1991 e 1992.

A partir de 2005, o clube conviveu com falências, refundações e fusões, penando ainda por alguns anos nas divisões semi-amadoras até os bons ventos voltarem a soprar. Retornando à Serie B depois de 24 anos em 2016, A Spal consegue agora um feito ainda maior, encerrando um jejum de quase cinco décadas sem participar da elite do Calcio, na esperança de voltar a ter lugar cativo nela como em seus anos de glória.