Tem cara de jogo de futebol, parece jogo de futebol, as pessoas foram ver como se fosse um jogo de futebol, mas, para a Fifa, não foi um jogo de futebol. Pelo menos não oficialmente. África do Sul x Espanha é uma partida no limbo. Ela aconteceu, mas está apagada dos registros. A vitória por 1 a 0 dos sul-africanos não serviu para alçar o país-sede da última Copa no ranking da Fifa, nem para diminuir pontos da atual campeã mundial. Tudo porque os espanhóis fizeram uma substituição acima do permitido.

Vicente del Bosque tem se esforçado bastante para que ninguém saiba quem é o goleiro titular da seleção vermelha. Casillas e Valdés são utilizados em doses quase iguais, e o técnico resolveu manter o mistério no amistoso de Joanesburgo. Entrou com Casillas e colocou Valdés durante a partida. Até que o goleiro do Barcelona se contundiu, e a Espanha já tinha feito as seis alterações possíveis. Arbeloa se preparou para assumir a posição, mas os espanhóis pediram ao árbitro uma exceção. E Reina teve autorização para entrar.

Como a partida burlou as regras da Fifa, a entidade desconsiderou sua existência como amistoso oficial. Um motivo de grande lamentação (e de possível protesto) da África do Sul, que teve uma grande atuação e merecia crédito por essa evolução. Mas também é uma razão para se preocupar com os rumos que a seleção espanhola tem tomado. Ainda mais porque, apenas três dias antes, a Roja havia enfrentado a Guiné Equatorial e sido alvo de críticas por participar de um jogo que ajudou a promover uma ditadura.

O que a Espanha vive hoje é parecido com o Brasil de alguns anos atrás. A equipe ganhou um status de melhor do mundo e, por isso, atrai toda sorte de interessados em fazer um amistoso. O problema é que isso tem criado situações para lá de discutíveis, como obrigar os campeões mundiais e bicampeões europeus a viajarem demais para se “testarem” contra adversários de baixo nível técnico.

Veja a quantidade de amistosos que a seleção espanhola dentro e fora do território europeu no período entre grandes torneios (Copa 2006-Euro 2008, Euro 2008-Copa2010, Copa 2010-Euro 2012 e desde Euro 2012) e compare com a Alemanha:

Obs.: os gráficos já incluem os amistosos Espanha x Itália (Madri) e Alemanha x Chile (Stuttgart), programados para março de 2014.

É ridículo o aumento de jogos fora do continente da Espanha. E isso nem sempre se reflete em melhora do nível técnico do oponente. Entre 2010 e 2012, os espanhóis enfrentaram México, Argentina e Estados Unidos, mas depois vieram com Venezuela e Costa Rica. Desde a Eurocopa 2012, o cenário piorou ainda mais: Porto Rico, Panamá, Haiti, Guiné Equatorial e África do Sul. Apenas Uruguai, Irlanda e Equador foram oponentes realmente interessantes como teste.

Como comparação, a Alemanha, principal oponente da Espanha no cenário europeu, fez 20 amistosos desde a Copa de 2010. Apenas dois foram fora da Europa, ambos nos Estados Unidos (uma viagem não tão longa) e contra oponentes relevantes (Equador e Estados Unidos). Não é uma distorção com o período de quatro anos anteriores, com 21 amistosos e também dois fora da Europa (ainda que em condições bem piores, contra China e Emirados Árabes).

Pedir ao árbitro para fazer uma sétima substituição em Joanesburgo é um sinal de como a Espanha simplesmente não levava aquele jogo realmente a sério. O amistoso não era visto como válido para a preparação dos campeões mundiais na luta pelo bi. Para que se matar, seguir as regras e colocar Arbeloa no gol, por uma partida que não vale nada?

Esse momento é perigoso. A Espanha tem dominado as competições de seleções e será uma das favoritas ao título no Brasil. Mas virou uma mina de ouro para a RFEF (federação local), que se deslumbrou e começou a procurar quem tem um bom dinheiro para oferecer, mesmo que piorando o nível da preparação.